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Foi um filme que me apresentou ao rock, lembra Erasmo Carlos

Cantor conta como 'Sementes da Violência' colaborou para sua libertação

Erasmo Carlos

O filme “Sementes da Violência” (1955) me apresentou o rock ‘n’ roll pela primeira vez. Foi muito útil, porque além de me mostrar na trilha sonora a música “Rock Around the Clock”, do Bill Haley & His Comets, ele ainda me colocou em contato com o comportamento da juventude americana.

Imagem em preto e branco. Professor caminha entre fileiras de alunos e aponta para um deles. Todos estão com feições sérias.
Cinema: cena do filme "Sementes da Violência", de 1955, com o ator Glenn Ford. (Foto: Divulgação) - Divulgação

Aqui no Brasil, eu era um cara comportado para caramba. O filme despertou em mim uma inconformidade, uma ânsia de liberdade que existia aqui dentro e eu não sabia. A partir daí, não tive dúvida em relação ao rock: era aquilo mesmo.

“Sementes da Violência” ensinou toda a minha geração a decidir sobre suas próprias coisas, a saber de seu modo de vida, a usar o cabelo como queria, a ouvir a música que queria, sem a ditadura dos pais. Para mim, o “Rock Around the Clock” acabou com o patriarcado e inaugurou a democracia nos lares.

A partir desse momento, eu deixei de ser tão comportado. Claro, conservei o radical do certo e do errado, como o “não matarás”, mas o resto passei a duvidar. Comecei a ter o pensamento livre —aliás, essa é a única coisa que você tem livre na vida.

O filme era uma direção de Richard Brooks [de “Gata em Teto de Zinco Quente”], com Sidney Poitier, que fazia o papel do rebelde sem causa que se regenera, e Glenn Ford como o professor de uma classe de jovens completamente desajustados.

O filme provocou uma reação em cadeia, de uma juventude presa se soltando. Por algum motivo, ele acordava a violência nos jovens: em todo lugar, as pessoas dançavam na sala feito loucas, quebravam coisas no cinema, totalmente fora de si.

A partir de certo momento isso virou até um modismo, fazia-se essa bagunça para imitar o outro amigo que fez. De qualquer modo, era uma libertação: sim, nós podemos.

Eu era menino ainda, tinha uns 14 ou 15 anos, um dos mais mocinhos a ir assistir ao filme no cinema. Eu mais observava atônito a baderna dos mais velhos do que praticava esses exageros. Tinha gente que entrava de motocicleta dentro do cinema!

Lembro até que o filme era proibido para menores de 18 anos, então demorei à beça para conseguir entrar. Lá no bairro da Tijuca, no Rio, eu e minha turma costumávamos dar um golpe. Esperávamos a sessão acabar e entrávamos de costas, conforme as pessoas deixavam a sala. Pensavam que a gente estava saindo, mas estávamos entrando.

Nessa época eu era estudante, não pensava em nada. Então o filme deu a direção musical da minha vida, que depois se tornou minha profissão. Ali eu ouvi o rock e fiquei escravo.

Depois disso as coisas foram se desenrolando. “Rock Around the Clock” começou a tocar no rádio; vieram outros filmes de rock, como “Ao Balanço das Horas” (1956). Não tinha rock nas rádios, só em programas especializados; depois daí passou-se a tocar, e começaram a aparecer as primeiras bandas de rock no Brasil, como Renato e Seus Blue Caps e The Jet Blacks.

Elvis Presley veio depois para a gente. E já me influenciou de outro jeito, dando a imagem, a vestimenta daquele ritmo. Junto com Marlon Brando, ele veio com a roupa de couro, a irreverência, as costeletas, a camisa de gola alta e manga dobrada.

E eu passei a me identificar com uma porção de amigos que também gostavam daquilo e que tiveram a mesma sensação no filme. Passei a ter minhas turmas, e a coisa foi embora por aí. Nesse tempo só tinha uma tribo, com que todos se identificavam. Hoje tem rock assim, rock assado. Ali era quem gostava de rock e quem não gostava. Nós e eles.

Eu tenho o maior orgulho de ter visto o nascer do rock ‘n’ roll.


Erasmo Carlos é cantor e compositor, apresenta seu último disco, “Amor É Isso”, na Casa Natura Musical em 15/6.

Depoimento a Walter Porto.

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