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Games brasileiros estão em ascensão vertiginosa, diz professor

Indústria nacional de jogos digitais passa por fase de grande criatividade, segundo autor

Fábio Fernandes

“Isso não é mais coisa de criança.” A frase já se tornou um clichê em reportagens sobre histórias em quadrinhos ou videogames. Quem é fã de uma dessas duas mídias (ou de ambas) sabe disso há muito tempo. 

Como professor do curso de tecnologia e jogos digitais da PUC-SP, acompanho a vertiginosa ascensão dos games no Brasil há mais de uma década. A indústria vai muito bem: antes mesmo da abertura dos cursos universitários de games no país, no início do milênio, já tínhamos iniciativas bastante robustas, quase todas ligadas aos role-playing games (RPGs). 

Cena do videogame, Red Dead Redemption, em um cenário típico de faroeste (deserto com vegetação rasteira e escassa). Um homem cavalga sozinho.
Cena de Red Dead Redemption (Rockstar Games, lançado em maio de 2010) - Divulgação

Um destaque é o Taikodom, um universo compartilhado de space opera (ficção científica espacial, muitas vezes com toque militarista) que contou com os roteiros dos escritores de ficção científica João Marcelo Beraldo e Gerson Lodi-Ribeiro, e Intempol, do escritor Octavio Aragão. 

O primeiro teve um desdobramento muito comum nos Estados Unidos, em games como Mass Effect, mas até então inédito aqui: os tie-ins, ou seja, livros com histórias ambientadas no universo do jogo, que serviam para complementar o game e dar aos jogadores informações adicionais sobre personagens e cenários. 

No segundo ocorreu o oposto: nasceu de uma antologia de ficção científica sobre viagem no tempo (da qual Gerson Lodi-Ribeiro também participou, juntamente comigo e outros autores), que gerou pelo menos duas graphic novels —uma das quais, “The Long Yesterday” (o longo ontem), de Osmarco Valladão, ganhou o troféu HQMix em 2012— e um RPG do sistema Gurps, de Steve Jackson, feito por este que vos escreve, Octavio Aragão e Luis Eduardo Ricon, criador do seminal “Desafio dos Bandeirantes”, que infelizmente ainda se encontra inédito. 

No começo, os cursos universitários de games não davam muita ênfase a roteiro, preferindo se concentrar em programação e modelagem 3D para criação de cenários. Isso mudou nos últimos anos, pois os cursos universitários e livres Brasil afora têm voltado as baterias para a parte narrativa. 

Afinal de contas, jogos não se restringem somente à parte digital. Entender princípios de narratividade e ludicidade requer um conhecimento abrangente de diversos tipos de jogos. Em cursos  pelos país,  os alunos aprendem a criar jogos de tabuleiro e de cartas, progredindo gradualmente do 2D para o 3D.  
Quanto aos games originais, o mercado está passando por uma fase de grande criatividade, tanto aqui quanto no exterior. Um dos mais aguardados foi “Red Dead Redemption 2”. De temática que mistura faroeste, ação e aventura, o novo título da franquia “Red Dead” ganhou o Game Awards de 2018 na categoria melhor narrativa. 

Na seara de games ambientados em outros períodos históricos, o Brasil também se destaca. Exemplo é A Bandeira do Elefante e da Arara, adaptado de uma série de contos de Christopher Kastensmidt, texano naturalizado brasileiro.

Os games brasileiros apresentam ideais originais e desfrutam de boa aceitação.  O estúdio IntelliPIX, formado por alunos do curso da PUC-SP, tem desenvolvido uma linha de pesquisa sobre jogos não violentos

Um dos resultados é o HyperSprint, produzido na Unreal Engine 4, mesma game engine (um programa capaz de juntar todos os elementos de um jogo em tempo real, como suporte para sons, inteligência artificial, gerenciamento de arquivos, programação, entre outros) de jogos como Fortnite, multiplayer online que virou fenômeno, em particular com seus spinoffs Save the World e Battle Royale.

Outra empresa brasileira que colhe bons resultados é a Diorama, reconhecida no mercado por ter trabalhado a serviço da Guerrilla Games na produção do jogo Horizon: Zero Dawn, um RPG online cuja trama se passa num futuro pós-apocalíptico em que criaturas mecanizadas colossais dominaram o mundo.

Em tempos de crise, imaginação é um elemento poderoso, que ajuda a definir o sucesso de uma empreitada. Em poucas áreas isso é mais verdadeiro que na de jogos digitais. 

A nova geração de desenvolvedores de games no Brasil mostra criatividade e garra suficientes para criar jogos que não devem nada ao que de melhor se faz lá fora. 


Fabio Fernandes é professor dos cursos de jogos digitais e jornalismo da PUC-SP

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