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Lauryn Hill significa muito para toda mulher preta, diz Luedji Luna

Cantora baiana diz que 'The Miseducation of Lauryn Hill' é tratado sobre o que é ser negra

Luedji Luna

Assim que saiu a notícia de que Lauryn Hill iria fazer show no Brasil, eu e minhas amigas cantoras Liniker e Xênia França ficamos animadíssimas. Decidimos ir juntas. Só que, quando percebi, o dia do show estava perto e eu não tinha os ingressos, que se esgotaram muito rápido.

Tentei de tudo para conseguir, mas estava quase conformada que não ia dar. Até que uma amiga antiga da Bahia veio me dizer, muito emocionada, que a mulher dela não queria ir ao show, e ela tinha um ingresso sobrando. Veio me contar chorando: "Você vai ver esse show, sim".

Foi um momento muito forte, porque Lauryn Hill significa muito para mim, para ela e para toda mulher preta. "The Miseducation of Lauryn Hill" não é só um disco, é um ditame sobre o que é ser uma mulher preta --e amar, ser amada, ser desamada, desejar, sofrer e se reerguer.

Eu sou cria da MTV, da geração que teve acesso a bandas de todos os estilos pelos clipes que passavam lá. Foi assim que entrei em contato com Lauryn. O disco mesmo só fui ouvir pela primeira vez na versão pirata de uma amiga minha, com uns 14 anos. Pedi emprestado e nunca mais devolvi. Acabou até arranhando.

Apesar de eu não estar tão atenta à letra e à história de Lauryn, já sentia a emoção na interpretação das canções. E veja que nessa época eu não tinha nada com que me preocupar, não tinha conta para pagar, não tinha namorado nem namorada, mas já chorava com aquela voz. Ela cantava sua própria verdade. A soul music não tem esse nome à toa.

Tomei consciência do quanto o "Miseducation" era importante depois de adulta, após ter minhas próprias experiências afetivas. No período logo antes de Lauryn vir ao Brasil, eu estava justamente nesse momento de tentar compreender o que eu vivia numa relação. Estava sofrendo, mesmo. Escutar "Miseducation" fazia todo o sentido ali, na busca por entender o que é preciso para ter alguma reciprocidade.

​Porque a mulher foi educada para amar, para cuidar. Nas relações, homoafetivas ou não, isso acaba se refletindo numa postura de entrega, de trazer para si todos os problemas -- na posição de mãe, além de parceira. Sobretudo a mulher preta, que é construída como aquela que cuida de tudo, que aguenta tudo.

A ideia da fragilidade feminina não cabe às mulheres negras, já que a gente sempre esteve lá fazendo trabalhos braçais, tanto quanto os homens. É contraditório: se ela é frágil, por que está segurando essa enxada? E essa ideia da mulher preta forte serve para sofrermos determinados tipos de violência que de outra forma não sofreríamos.

O mesmo serve no campo da afetividade. Temos uma série de questões, traumas, anseios e sonhos, mas estamos sempre no estereótipo da mulher trabalhadora, da mãe solteira, que não tem tempo para se ocupar de sentimentos e sutilezas. Isso é negar nossa humanidade.

Por isso eu tenho feito questão de falar tanto de afeto, e o "Miseducation" toca muito nesse ponto. É uma mulher preta cantora que, além disso, é compositora e fala de suas experiências. Fala que sofre, que chora, que o outro está sendo violento. Lauryn deixa claro que não é uma diva intocável, mas alguém que aceita sua fragilidade.

Ela própria ficou anos se relacionando com um cidadão --Rohan Marley, hoje casado com uma modelo brasileira-- que não a assumia. Mesmo eles tendo filhos juntos. Mesmo a relação deles sendo pública. Ela ficou completamente desnorteada, um de seus filhos ficou um período sem ter nome. Isso com certeza atravessou o trabalho dela.

Ao ver Lauryn Hill pela primeira vez ao vivo, mês passado em São Paulo, eu não acreditava. Ainda mais com o show trazendo só releituras de "Miseducation". Saber que ela está linda, viva, digna, plena e cantando me dá muito alento. É incrível sua capacidade de ressignificar o próprio trabalho, cantar aquelas músicas chorosas de uma forma mais serena. Foi um dos melhores shows da minha vida.

E afinal, eu conhecia uma backing vocal de Lauryn, que prometeu me levar para conhecê-la no camarim. Estava uma confusão e não consegui chegar lá, mas dei de cara com ela saindo por um grande portão ao lado do palco. Ela olhou para mim, sorriu, e eu aproveitei para dizer tudo o que queria em cinco segundos.

Falei: "Eu entendo você. Tudo o que você fala, tudo o que escreve diz respeito a mim. Obrigada por existir." Beijei a mão dela, deixei-a ir e ela perguntou meu nome. "Eu sou Luedji Luna, também sou cantora e um dia a gente vai se encontrar de novo."


Luedji Luna é cantora e compositora.

Depoimento a Walter Porto

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