Modelo concentrador mina criatividade no mercado da arte

Diversificar mercado tornaria arte mais dinâmica e sustentável, diz especialista

Vivian Gandelsman

[resumo] Apesar de ter voltado a crescer após a crise de 2008, a atividade de instituições e galerias é controlada por “superplayers”; seria saudável atuar para modificar esse padrão. 

Só não enxerga quem não quer: o mercado de arte tem sido incapaz de oferecer terreno fértil para o surgimento e desenvolvimento de organizações e projetos de menor porte, independentes e inovadores. Para essas iniciativas, as dificuldades se tornaram tão profundas e frequentes que uma questão ecoa: por que condições de negócio tão críticas persistem sem esforços articulados e efetivos para superá-las?  

Em mais de 200 entrevistas que gravei nos últimos quatro anos, em dezenas de cidades do mundo, como parte de uma pesquisa corrente, aparecem inúmeros relatos de barreiras implacáveis e ciclos de exaustão que mostram como a instabilidade financeira, as relações áridas e os ambientes hostis viraram regras com poucas exceções no meio da arte. 

As causas desse cenário pelo menos não são desconhecidas —e tampouco insuperáveis.

Produzir, financiar ou vender arte significa operar com valorações abstratas, muitas variáveis e poucas métricas, o que por si só não é fácil. No entanto, para além das dificuldades inerentes, não houve evolução em como o jogo é conduzido.

Desde que se estabeleceu na década de 1990, o mercado global de arte tem funcionado sobre as mesmas bases, isolado dos debates construtivos trazidos por movimentos culturais recentes, que despontam em direção à descentralização, à diversidade e à autonomia criativa.

Até agora, o poder e o grosso dos recursos se distribuem entre um grupo restrito que parece repetir, em benefício próprio, os mesmos nomes, pensamentos e velhas fórmulas. São instituições e galerias tradicionais, de larga escala e ultracapitalizadas —todas confortavelmente estacionadas no núcleo do “mainstream”. 

Trata-se de um meio extremamente propício para a assimetria de informação, a naturalização da informalidade, os insanos processos de precificação e as práticas obscuras que influenciam fortemente, não se sabe bem como, tendências mercadológicas e visibilidades de forma geral.

Para a maioria, resta apenas uma fantasia incômoda e asfixiante, com poucas possibilidades de ascender financeiramente ou criar legados relevantes.

Se considerarmos, por um lado, que as vendas globais já se recuperaram desde a crise do final dos anos 2000, e, de outro, que a maior parte das galerias e projetos institucionais de média ou pequena escala enfrentam desafios crônicos para fechar as contas, parece evidente o processo de consolidação de um punhado de superplayers ao custo do sufocamento de empreitadas de menor estrutura.

Segundo o relatório “Art Market Report da Art Basel e UBS (2019)”, o mercado global de arte apresentou um segundo ano consecutivo de crescimento em 2018, movimentando US$ 67,4 bilhões —crescimento anual de 6%. Segundo a mesma fonte, em 2018, os negociantes com faturamento abaixo de US$ 500 mil tiveram uma queda nas vendas de 10%, enquanto aqueles que operam acima desse valor viram seus negócios aumentarem. Galeristas com vendas abaixo de US$ 250 mil relataram a queda mais significativa no volume de negócios, com um declínio de 18%.

Diante das disparidades, destaca-se a necessidade de ações para criar um ecossistema mais saudável e abundante. Iniciativas de naturezas diversas, autônomas e experimentais são essenciais para a construção de cenas culturais complexas, fortes e sólidas.

A capacidade coletiva de perceber que certos obstáculos são compartilhados e a tentativa de superá-los com inventividade e colaboração têm sido fator decisivo no desenvolvimento da humanidade, transformando práticas, objetos e até sistemas inteiros para garantir nossa adaptação. 

Ainda que muitas conversas sejam travadas informalmente, é raro vermos agendas comuns em torno de problemas estruturais —e mais raro ainda medidas práticas com o objetivo de promover mudanças significativas. No entanto, é possível agir sobre uma série de aspectos notoriamente danosos que, apesar de enraizados, podem ser extirpados. 

Entre eles, cito a ausência de canais de comunicação baseados em uma ética que produza clareza, diligência e confiança nas trocas. Basta pensar no quão comuns são os e-mails sem respostas, os sumiços e as interrupções de diálogo abruptas.

Os resultados são a perda de inúmeras oportunidades de negócio e cooperação, o acúmulo de transtornos negligenciados e a manutenção de fachadas sociais que não favorecem ninguém e impedem fluxos de conhecimento fundamentais para lidarmos com problemas correntes.

Avançando no ponto da falta de transparência e comprometimento, nota-se como valores, regras e processos que perfazem o mercado de arte não derivam de acordos gerais amplamente difundidos. Isso gera um aumento desnecessário dos custos de transação e torna difícil o surgimento de novos atores —sejam artistas, galeristas, colecionadores ou patronos.

Não é por acaso que o mercado de arte se apresenta tão hermético para a maioria da população e tão sedutor para movimentações que em nada dizem respeito ao potencial transformador da experiência artística.

É certo que mudanças paradigmáticas e mobilizações de maior escala levam tempo, mas é possível abordar desde já, com pragmatismo, uma série de possibilidades. Por exemplo, fomentar eventos e mecanismos que aproximem feiras, galerias, artistas e colecionadores para viabilizar projetos relevantes e prósperos para todas as partes. 

Para citar um caso óbvio: por que não revelar o preço das obras junto com as demais informações durante as feiras e as mostras em galerias? Esse gesto já simplificaria as coisas, permitindo que a discussão se voltasse para o que realmente interessa: o trabalho de arte em si.

Outro aspecto seria promover a colaboração na formação de profissionais autônomos como produtores, montadores, museólogos, vendedores e assistentes, entre outros. Ou seja, o esforço conjunto para qualificar esses agentes e criar oportunidades em rede não apenas para gerar novos quadros e organizar as condições de trabalho, como também para melhorar a qualidade e consistência das organizações envolvidas.

Isso demanda, porém, o reconhecimento dos muitos elos ao longo da cadeia de valores que envolve a produção artística; e análises sobre regulamentações básicas, como preços e responsabilidades de armazenamento, transporte, seguro e outras atividades acerca de exposições e vendas. Por fim, mas não menos importante, é urgente repensarmos papéis pedagógicos, levantando gargalos e potenciais de maneira que instituições e galerias possam impulsionar ideias, movimentos e espaços. Para que possam também promover atividades que engajem público maior e crescente, o que exerceria impacto positivo na abrangência do mercado, na qualidade das experiências e no número de trocas.

Os caminhos são muitos e parte deles é mapear ideias como as trazidas aqui — vindas de diálogos com colegas e interlocutores generosos que atuam em diferentes posições e contextos geográficos.

São apenas pequenos exemplos de como o intercâmbio genuíno sobre adversidades e desejos poderia produzir efeitos contínuos para oxigenar um mercado que, até agora, foi incapaz de se repensar estruturalmente e se preparar para os novos desafios à vista.

Nesse sentido, são essenciais investimento em encontros, debates, estudos e experimentos focados em exercícios coletivos de crítica e imaginação que gerem reciprocidade e soluções factíveis para problemas comuns. Que produzam cooperação em detrimento da competição demasiada, criando atmosferas mais vibrantes, cotidianos mais prazerosos e um real senso de comunidade. 

É daí que poderá surgir um sistema mais inteligente e sustentável em diferentes níveis, tornando o meio mais próspero e dinâmico. Sem precisar esquecer sua função primordialmente comercial, é vital que o mercado se deixe inspirar pelo o que há de mais nuclear na arte: o exercício experimental e crítico em relação ao mundo. 


Vivian Gandelsman é pesquisadora independente e fundadora do site Artload.
O texto teve a colaboração do crítico e curador Germano Dushá e da pesquisadora Fabrícia Ramos.

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