História não reconhece pioneirismo da mulher no cinema, diz Tata Amaral

Cineasta produz série a respeito do audiovisual feito por mulheres no Brasil

Tata Amaral

[RESUMO] Inspirada na trajetória de pioneiras do cinema pouco conhecidas e ignoradas pela história, como a francesa Alice Guy-Blaché e a brasileira Cléo de Verberena, cineasta comenta criação de série a respeito da produção audiovisual de mulheres no Brasil.

Nós, mulheres, sempre estivemos ligadas ao cinema. Divas, heroínas, vilãs: quem não se lembra imediatamente de uma personagem feminina quando pensa num filme? O que poucos sabem é que também sempre estivemos trabalhando por trás das câmeras. Como autoras, contamos nossas histórias e criamos maneiras de fazer isso.

De fato, a existência de inúmeras cineastas e seu papel na construção do audiovisual brasileiro são pouco conhecidos. Quem são essas mulheres? O que elas produzem ou produziram? Como viabilizam suas produções? Como se relacionavam com a produção de sua época?

Para revelar este universo, decidi realizar uma série que conte a história do audiovisual brasileiro a partir da produção das mulheres.

Todas as narrativas, inclusive a histórica, são realizadas por alguém, a partir de determinado lugar e de um ponto de vista. Escolhas a respeito do que narrar e como narrar serão feitas a todo momento.

Compreendendo essa questão, podemos nos perguntar, por exemplo, como será a história da medicina vista a partir da produção científica das mulheres? E da tecnologia, da psicanálise, das artes? Foi com essa inquietação que parti para a pesquisa sobre as mulheres cineastas.

O primeiro filme brasileiro dirigido por uma mulher já nos estimula a curiosidade: "O Mistério do Dominó Preto", lançado em 1931, produzido e protagonizado por Cléo de Verberena. Dele só restam poucos fotogramas —a menos que algum milagre aconteça e se descubra uma cópia nova, ninguém nunca mais o verá. Portanto, não corro o risco de estragar a surpresa se contar aqui o mistério da trama.

A pesquisadora Marcela Grecco leu inúmeras matérias de jornais e localizou o romance no qual o filme foi inspirado. Assim, foi possível reconstituir o que seria a sinopse: uma jovem mulher evidentemente burguesa, Cléo (sim, a personagem é homônima à atriz), é envenenada e morre nas mãos de um estudante de medicina. A trama investiga as circunstâncias do assassinato. A vítima era linda e sedutora; casada, tinha muitos amantes.

Agora o spoiler: o assassino da jovem Cléo é o irmão da namorada de um dos seus amantes. Preocupado com a eventual dor de sua irmã, decide eliminar a razão de seu possível sofrimento. Pois bem: essa é a trama do filme. Ocorre que ele teve como base o romance homônimo de Martinho Correa, no qual a personagem feminina tem um único amante e é morta pela esposa ciumenta dele.

É muito significativo que o primeiro filme realizado por uma mulher no Brasil tenha transgredido a representação classicamente construída (pelos narradores) de que nós, mulheres, não temos nada mais interessante a fazer das nossas vidas a não ser disputar a atenção e/ou o amor de um homem.

Na trama de seu filme, Cléo transformou a protagonista numa mulher mais interessante, e a história de seu assassinato, num crime menos óbvio. Cléo filmou o primeiro caso de feminicídio do cinema brasileiro. Significativo também é pensar que o filme foi exibido em 1931, poucos meses antes da instituição do voto feminino no Brasil, em 24 de fevereiro de 1932.

Cléo de Verberena foi uma lutadora. É considerada a única cineasta latino-americana do período do cinema silencioso. Fundou com seu marido os estúdios da Epica-Film no bairro paulistano de Santa Cecília. Após "O Mistério do Dominó Preto", relativamente bem recebido, envolveu-se em dois outros projetos, "Canção do Destino" e "Melodia da Saudade", ambos não concluídos.

Após a morte misteriosa de seu marido, em 1935, Cléo abandonou o cinema. Casou-se com um cônsul chileno e mudou-se do Brasil, retirando-se totalmente da vida artística. De sua carreira, restam fotogramas, fotos nas revistas de cinema da época e as lembranças de seu filho, Cesar Milani Junior.

Essa, de toda forma, é só a ponta de uma história que carece ainda de muita pesquisa. Antes de Cléo, outras diretoras ou roteiristas teriam trabalhado sem o reconhecimento devido?

A pergunta fica ainda mais pertinente se pensarmos na história de Alice Guy-Blaché. No final do século 19, Alice era chefe de produção da Gaumont, empresa que rivalizava com os irmãos Lumière e com Georges Méliès na investigação das possibilidades tecnológicas e comerciais da imagem em movimento.

Em 1895 os Lumière patentearam o cinematógrafo e, no mesmo ano, apresentaram o invento em Paris com a projeção do filme "A Chegada do Trem na Estação", aquela na qual a plateia, assustada com o trem que parecia invadir a sala, correu assustada para a rua. No ano seguinte, no que é considerada a primeira exibição pública de um filme, os Lumière apresentaram outro projeto documental, "A Saída da Fábrica Lumière em Lyon".

Consta que Alice logo percebeu as possibilidades narrativas da linguagem e seu interesse comercial. Autorizada pela Gaumont, realizou em 1896 o primeiro "filme posado" da história, "La Fée aux Choux", no qual também atua. Nos primórdios do cinema, ficaram conhecidos como"filmes posados" aqueles de vertente ficcional, com enredo e atores.

Em 25 anos de carreira, Alice dirigiu, produziu, escreveu, atuou ou supervisionou mais de 700 filmes curtos. Hoje é considerada a primeira artista, mulher ou homem, a desenvolver sistematicamente o cinema narrativo. Ela recebeu a maior honraria não militar concedida pelo governo francês, a legião de honra, em 1953 e foi também homenageada pela Cinemateca Francesa em 1957. Nas últimas décadas, peças de teatro e filmes destacaram sua trajetória.

Em 2004, a Fort Lee Film Commission de Nova Jersey, cidade para onde ela se mudou com seu marido, dedicou um marco histórico a Alice. Seu túmulo foi reconstruído e recebeu uma lápide indicando seu papel pioneiro no cinema. Seus filmes, pouco a pouco, são restaurados e redescobertos. Seu nome foi aceito como membro do Directors Guild of America em 2011. Hoje há um prêmio com seu nome num festival de cinema norte-americano.

A despeito das honrarias e reconhecimentos recebidos desde a década de 1950, eu, até muito pouco tempo atrás, nunca havia ouvido falar em Alice Guy-Blaché. Acredito que o mesmo tenha ocorrido com a maioria dos artistas e pesquisadores da área.

Nos livros e nas escolas de cinema nos ensinam que o primeiro "filme posado" foi "Viagem à Lua", realizado por Georges Méliès em 1902 —ou seja, seis anos depois de Alice ter filmado seu "La Fée aux Choux".

Por que é tão difícil a história reconhecer o pioneirismo dessa mulher? Por que isso é importante? Por que as mulheres estão praticamente ausentes dos livros de cinema, das pesquisas, dos ensaios ou das listas de melhores filmes?

Somos muitas mulheres produzindo audiovisual e precisamos ser ainda mais numerosas para que essa produção represente nossa existência e participação na sociedade.

É hora de revelar essa história. Para isso, realizaremos a série "As Protagonistas". Contamos com a produção das mulheres cineastas e das pesquisadoras que dedicam seu tempo a essa questão.

Contamos, também, com as instituições e empresas que trabalham para que a criação cultural, artística e intelectual desvende a riqueza intrínseca da nossa sociedade —a pluralidade e a diversidade de gênero e raça— expressa na produção, distribuição e exibição do conteúdo audiovisual brasileiro em todas as janelas existentes, dentro e fora do país. 

O estímulo e a defesa da produção audiovisual brasileira estão garantidos pela Constituição, que também garante sua diversidade e independência, livres de qualquer espécie de censura.


Tata Amaral, cineasta, dirigiu "Um Céu de Estrelas" (1997), "Através da Janela" (2000) e "Hoje" (2011).

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