Pela literatura, Candido e Bosi desvendaram pensamento brasileiro

Livros homenageiam os dois críticos literários, cujas obras são eivadas de discussões históricas e políticas

Flávio Ricardo Vassoler

[RESUMO] Livros homenageiam Antonio Candido e Alfredo Bosi, críticos literários e professores cujas obras, transpassadas por discussões históricas, políticas e filosóficas, constituem marcos para a compreensão da literatura e do pensamento brasileiros.

Os livros “Antonio Candido 100 anos” (editora 34), organizado por Maria Augusta Fonseca e Roberto Schwarz, e “Reflexão como Resistência: Homenagem a Alfredo Bosi” (edições Sesc/Companhia das Letras), organizado por Augusto Massi, Erwin Torralbo Gimenez, Marcus Vinicius Mazzari e Murilo Marcondes de Moura, apresentam uma série de consonâncias de dois críticos literários e professores universitários, cujas obras constituem marcos para o pensamento brasileiro.

Formados em um Brasil que iniciava seu processo de industrialização rumo a uma sociedade de massas, Antonio Candido, falecido à iminência dos 99 anos, em maio de 2017, e Alfredo Bosi, hoje com 82, sempre exerceram a crítica e a docência com o espectro de que a literatura, em nosso país, vem à tona como ideias fora de lugar. 

No ensaio “Aulas, Seminários, Conversas”, José Miguel Wisnik, professor aposentado de literatura brasileira da USP, acompanha uma das teses centrais da obra “Literatura e Sociedade”, de Candido (professor de Wisnik), ao dizer que “a literatura no Brasil circulou primordialmente em ambientes de auditório, nos quais os textos se difundiam menos pelo livro do que pela voga da oratória e dos saraus (numa sociedade colonizada, aliás, com a interdição de edições). 

“A relação entre literatura e sociedade padece, pois, no Brasil, de uma defasagem resistente, que leva a consciência crítica a dobrar-se sobre a importância crucial do ensino”, completa Wisnik.

Sendo o ensino a principal mediação para o acesso à cultura letrada, Candido, fundador do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP, em 1961, e Bosi, cujas atividades acadêmicas contribuíram decisivamente para consolidar e expandir a área de literatura brasileira da USP, orientaram um sem-número de pesquisadores que, com a conclusão de seus mestrados e doutorados, passaram a atuar não apenas no âmbito universitário, o gargalo histórico da educação brasileira, mas também nos ensinos fundamental e médio. 

Não à toa, os intelectuais/professores que participam dos livros em homenagem a Candido e Bosi são ex-alunos e/ou colegas de docência. Seus relatos nos apresentam a vocação multidisciplinar dos dois críticos literários, cujas obras são transpassadas por discussões históricas, políticas, sociológicas e filosóficas, sem contar a suma importância dos grandes escritores europeus e brasileiros.

Eis um trecho significativo de uma carta de Candido para Bosi, datada de 10/11/1999: “Você me disse certa vez, entrando no prédio da [rua] Maria Antônia [em São Paulo, onde ficava a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP], há quase meio século, que talvez devesse ter entrado na seção de filosofia, em vez de letras. Era o seu sentimento, mas não sei se tinha razão. Você trouxe para a crítica uma capacidade filosófica de análise e contextualização rara em nossas fileiras. Ela o distingue e mostra que a sua opção universitária foi um bem para os estudos literários”.

Tais colocações não apenas refletem a formação polifônica de ambos os críticos, como prenunciam as ideias apresentadas no ensaio “O Direito à Literatura”, que integra o livro “Vários Escritos”, no qual Candido compreende a formação literária como um direito humano essencial. A leitura de grandes autores possibilita a expansão do imaginário e a autoconsciência emancipatória, para o indivíduo, a respeito de sua condição histórica e existencial em correlação com as (im)possibilidades de sua época. 

Com a prática docente, Candido e Bosi puderam exercitar a polifonia constitutiva da literatura ao abordar as obras de Manuel Antônio de Almeida, Machado de Assis, Graciliano Ramos, entre muitos outros, a partir das mais diversas, complementares e antagônicas perspectivas. 

Em “História Concisa de um Livro”, texto de abertura de “Reflexão como Resistência”, os organizadores revelam que, em suas obras como em suas aulas, Bosi propunha “um amplo espaço para o debate que, longe de apagar as diferenças [ideológicas e metodológicas], assumia o desafio intelectual de apresentá-las com nitidez”. 

José Miguel Wisnik, nesse sentido, conta que, certa vez, “Antonio Candido propôs que abordássemos poemas de João Cabral de Melo Neto segundo diferentes correntes críticas: formalista, estruturalista, psicanalítica etc. Não se tratava de um exercício de irresponsabilidade eclética, mas de um teste comparativo para o melhor entendimento dessas ferramentas e suas implicações teóricas. A experiência apostava na validade dos múltiplos ângulos de leitura para a formação de uma perspectiva crítica própria”. 

Ao falarmos sobre a formação de perspectivas críticas próprias, alcançamos contribuições fundamentais de Candido, em “Formação da Literatura Brasileira”, e de Bosi, em “História Concisa da Literatura Brasileira” e “Dialética da Colonização”. 

Ambos convergem na apreensão das defasagens e contradições da formação de uma literatura brasileira que, estruturada a partir de modelos europeus hegemônicos, surgia com complexo de inferioridade colonial e se via municiada por tipos literários que não condiziam com a especificidade de nossa história. 

Entretanto, lá onde só se poderia entrever uma literatura subalterna, desponta, segundo o crítico literário Roberto Schwarz, a possibilidade de ressignificação dos autores e obras europeus a partir de prismas brasileiros, de modo a fornecer efetivo lugar às ideias. 

No ensaio “Antonio Candido”, Schwarz afirma que “os empréstimos [junto aos europeus] podem não ser uma desgraça, pois as tradições estrangeiras, por nos serem alheias, obrigam menos à reverência e deixam espaço para certa liberdade. Essa transformação produtiva do precário em ironia e inovação está no centro de vários momentos altos de nossa cultura e também no trabalho de crítico e professor de Candido [e Bosi]”. 

É nessa medida que podemos entrever em Machado de Assis, Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade e Guimarães Rosa mestres na periferia do capitalismo, pois suas obras tensionam a suposta universalidade das vertentes estrangeiras hegemônicas a partir de rearticulações locais. 

Vale frisar que as visões políticas de Candido e Bosi também confluem, à esquerda, para desvelar a reflexão como resistência. O católico progressista Bosi, influenciado pelo amálgama entre cristianismo e socialismo próprio da teologia da libertação, entrevê profundas afinidades entre seu prisma político e o socialismo democrático de Candido, vertentes que exerceram importante influência na formação do Partido dos Trabalhadores, do qual Candido foi um dos fundadores. 

No ensaio “Mediação Não É Conciliação: Sobre um Legado da Obra de Antonio Candido”, Bosi avalia o entusiasmo com que Candido “aderiu ao novo projeto, dando-lhe por anos o seu apoio moral e intelectual”. 

“Ficou, de todo modo, distante da rotina partidária, o que lhe deu margem para pôr-se ao largo das conciliações, na verdade, concessões, que o partido acabou fazendo para subir ao poder e nele manter-se. Candido sabia que os melhores ideais sofrem um processo de entropia quando entram no jogo das forças em que se resume, o mais das vezes, toda a prática política. Mas eram os ideais e os valores que o interessavam, e julgava que era necessária uma dose de otimismo. O pessimismo tolda a consciência com uma nuvem de presságios e, no caso da política, impede a coragem da iniciativa”, ressaltou. 

Se, como revela Roberto Schwarz, “Antonio Candido se considerava marxista a 90%, em momentos de ditadura, mas seu marxismo descia a 50%, em momentos de luta de classe menos acirrada”, nós podemos imaginar, em meio à tensão entre o pessimismo do intelecto e o otimismo da vontade, que patamar de marxismo o sismógrafo político de Candido alcançaria em face das profundas contradições do Brasil atual. 


Flávio Ricardo Vassoler é doutor em letras pela USP, com pós-doutorado em literatura russa pela Northwestern University (EUA).

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