Cidade do século 21 tem que ser sensível e criativa, diz urbanista italiano

Centros urbanos precisam se adaptar para produzir menos desigualdade e desperdício, segundo Maurizio Carta

Maurizio Carta

[RESUMO] Centros urbanos precisam ser adaptados para fomentar modelo de desenvolvimento que produza menos desigualdade e desperdício de recursos, segundo professor italiano, que propõe dez conceitos para pensar a cidade do século 21.

O futuro das cidades diz respeito a todos, não somente aos especialistas. Diz respeito sobretudo aos jovens, “nos quais não há nada além de futuro”, como dizia o grande engenheiro italiano Adriano Olivetti.

Estamos no ápice de uma crise pandêmica que se expande desde os anos 1960, quando se começou a perceber que o modelo de desenvolvimento planetário do Antropoceno estava produzindo desigualdades sociais, empobrecimento cultural e consumo de recursos físicos muito além dos limites da Terra.

Se a humanidade não quiser se render à ideia de ser uma predadora insustentável da beleza do planeta, temos a responsabilidade de repensar todos os componentes do território e da sociedade, assim como suas influências na vida das pessoas e no modo como perseguimos nossas aspirações.

A crise ecológica, a escassez de matéria-prima, a política de dívidas soberanas, a redução do consumo e as desigualdades sociais não podem ser ignoradas: não podemos mais voltar ao modelo consumista e dissipador e à exploração do território para mantermos nosso bem-estar.

Devemos entrar em uma nova era, que defino como Neoantropoceno: um regime de existência que leva em conta a questão ambiental, a redução das desigualdades, a reflexão sobre a globalização e o bom governo do território. Precisamos de uma revolução cultural e política antes de ambiental e ecológica; uma que abandone a era em que vivemos, erosiva, exploradora e conflituosa. 

Para agirmos de forma eficaz, devemos pensar como mentes do século 21, não mais de acordo com cânones do século 20. Precisamos de um modelo de desenvolvimento não mais degenerativo, mas regenerativo, que recicle energia e recursos e seja capaz de cultivar a natureza humana e suas riquezas sociais.

E nosso campo de ação são as cidades, sejam elas megalópoles como São Paulo, metrópoles como Milão ou cidades médias e pequenas como Palermo e Favara, para mencionar meu Sul da Itália. 

Há 6.000 anos, a cidade foi a melhor invenção do gênero humano —enquanto um dispositivo para a evolução da comunidade e para a inovação de ideias, e não somente como um espaço seguro ou simbólico. A cidade nasceu como um lugar melhor para se viver e é onde hoje se encontra grande parte da humanidade, por dar condições de uma vida comunitária que constrói relações fecundas, gera sinapses férteis e produz novas economias.

As cidades são, portanto, potentes habitats criativos e plataformas para desvelar possibilidades, de forma que cada nova abertura à inovação urbana impõe novos desafios ao projeto coletivo de cidade. Elas são pujantes fábricas de civilização, embora atualmente pareça que esse motor está emperrado.

Nas últimas décadas, o urbanismo mais responsável aceitou o desafio de projetar cidades para um presente diverso, ou seja, cidades capazes de inovar e não estacionárias; circulares e não dissipadoras; geradoras de valor e não erosivas de suas qualidades. Cidades que ocupem menos solo, diminuam a emissão de gases-estufa, não minem seus recursos naturais e culturais e visem estratégias mais sensíveis a seus contextos, capazes de contribuir ativamente à realização dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.

Na revolução do Neoantropoceno, as cidades contemporâneas passam a ser organismos vibrantes de espaços e comunidades, de dados e informações, de ações e reações geradas seja por pessoas, seja pelo ambiente. Nessa transição que estamos vivendo, as cidades devem ser mais sensíveis a nossas mudanças comportamentais, servindo-se de dispositivos que nos habilitem a abrir portas a um presente diverso. 

Chamo tais cidades de “cidades aumentadas”, ansiosas por se apresentarem como protagonistas do Neoantropoceno.

Identifico-as como um paradigma emergente de absorção das demandas de uma sociedade mais reticulada e interconectada, baseada no conhecimento e na criatividade e capaz de responder a transformações globais por meio de um novo metabolismo circular.

Para concretizar as cidades aumentadas, proponho dez conceitos-chave necessários para enfrentar os desafios deste século 21.

Antes de mais nada, uma cidade aumentada é sensível, por usar uma vasta gama de fontes oriundas de sensores tecnológicos, biológicos e humanos para aprofundar os conhecimentos precisos para responder a demandas diferentes e resolver problemas variados.

Ela é fundamentada em uma abordagem “open source”, pois precisamos articular sociedade, tecnologia e urbanismo a partir desta sociedade de compartilhamento em que vivemos, de forma a gerar novos espaços de colaboração pública. A cidade não é mais um código pré-determinado de espaços e funções, mas um processo colaborativo e incremental de “mecânicas cívicas” que plasmam espaços de encontro e habitação, infraestruturas sociais e locais de trabalho.

Uma cidade aumentada deve ser inteligente, proporcionando a interação entre o hardware de espaços urbanos mais acolhedores e o software da cidadania ativa, por meio de um novo sistema de operação capaz de gerar planejamentos urbanos mais participativos.

Mais ainda, precisamos reativar a dimensão produtiva, de modo a facilitar o renascimento da cidade baseado em uma nova economia de makers e de artesãos digitais. 

Também é preciso potencializar a dimensão criativa, integrando a cultura, a comunicação e a cooperação como recursos para uma cidade ativa que possa gerar novas formas de remodelar o espaço urbano, estimular a criatividade e produzir um crescimento fundado na identidade, na qualidade e no renome.

A cidade aumentada deve se estruturar em processos de reciclagem, guiada pelos princípios da economia circular —não somente para reduzir, reutilizar e reciclar seus recursos, mas para gerir um novo metabolismo que já inclua a reciclagem programada dos componentes edificados e infraestruturais em obsolescência.

Temos que projetar cidades resilientes, adaptáveis e autossuficientes que superem o desafio das mudanças globais e que voltem a ser sujeitos ativos da adaptação climática que nossos jovens —nosso futuro— nos demandam em alto e bom som.

Porosidade e fluidez são, portanto, paradigmas dos projetos da regeneração urbana, capazes de produzir novas configurações espaciais a partir da interface cidade-água.

Dado que as cidades contemporâneas tornam-se cada vez mais grandes conurbações regionais, elas devem ser redefinidas, passando de um tradicional modelo gravitacional a um novo e mais eficaz modelo reticular e policêntrico, baseado nos diversos papéis assumidos por esses superorganismos metropolitanos e por esses arquipélagos territoriais.

Por fim, a cidade aumentada —e é esta a maior revolução— rejeita a perspectiva do alto do Plano Diretor tradicional (impraticável em contextos de crise ou transição de modelo de desenvolvimento), aceitando o desafio de transformar o espaço e a comunidade por meio de uma estratégia incremental e adaptativa que denomino “cityforming protocol” [protocolo de formação de cidades]. 

As cidades que desejam partir de um presente diverso para dar origem ao melhor futuro possível devem utilizar um sistema progressivo de táticas colonizadoras de curto prazo, ações de consolidação de médio prazo e estratégias de desenvolvimento sustentável de longo prazo capazes, enfim, de “dar forma à cidade”.

Megalópoles como São Paulo e Rio de Janeiro, metrópoles como Milão e Palermo ou Porto Alegre e Curitiba, cidades médias como Ouro Preto ou Matera (para ficar só no circuito interessante de cooperação ítalo-brasileira) podem ser laboratórios do Neoantropoceno; cidades capazes de redefinir os dogmas do urbanismo —que por tempo e por vezes demais consideramos ser estáticos e calcados só em regras— recuperando suas atitudes visionárias, suas capacidades de projeto, sua abordagem criativa e sua sensibilidade para a justiça espacial.

Lewis Mumford escreveu, em sua grandiosa obra de 1961 dedicada às cidades: “A função principal de uma cidade é transformar o poder em estruturas, a energia em cultura, os elementos inertes em símbolos vivos da arte e a reprodução biológica em criatividade social”. 

Uma cidade concebida como meio cultural e social, como sistema pedagógico permanente, como amplificadora da sociabilidade. A cidade aumentada, assim, não é a cidade de um futuro utópico inalcançável: ela nos permite habitar um presente distinto da nossa humanidade. 


Maurizio Carta, presidente da Escola Politécnica da Universidade de Palermo, veio ao Brasil neste ano para palestra do Italian Design Day no Instituto Europeu de Design (IED).

Tradução de Letícia Simões Gomes

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