Cooperação é essencial para sobreviver a futuro distópico, diz autor

Robert Muggah afirma que soluções para evitar catástrofes requerem fortalecimento de alianças globais

Robert Muggah

[RESUMO] Diante da perspectiva de um futuro distópico e ameaçador que pode pôr em risco a sobrevivência da humanidade, a cooperação global efetiva é essencial para evitar catástrofes e fomentar soluções ambiciosas e inovadoras.

O futuro parece mais ameaçador e tenebroso do que nunca. A sensação de melancolia está cada vez mais enraizada, especialmente no Ocidente. As manchetes diárias não ajudam.

Somos informados de que as tensões entre EUA, Coreia do Norte, Irã, Rússia ou China podem deflagrar um conflito de proporções globais, ou que a ascensão da inteligência artificial eliminará a maioria dos postos de trabalho e, potencialmente, toda a humanidade. 

Testemunhamos como as redes sociais despertam o divisionismo social e comprometem a democracia liberal. E somos lembrados, quase a todo instante, de que as mudanças climáticas podem nos conduzir para a extinção em massa

Qualquer uma dessas questões bastaria para nos fazer jogar a toalha, mas isso é o oposto do que deve ser feito. Por mais factíveis e assustadoras que sejam essas e outras ameaças, nenhuma delas está plenamente estabelecida.

Na realidade, numa era de transformações tão exponenciais, a única certeza é a garantia de que o futuro será incerto. Esse insight nada revelador não chega a ser motivo de comemoração, muito menos de acomodação. Mas, ao menos, serve para nos lembrar de que temos a responsabilidade de fazer tudo ao nosso alcance para construir um mundo no qual essas calamidades possam ser evitadas.

É necessária uma dose de humildade. A verdade é que nunca fomos particularmente competentes em prever o futuro. Pelo contrário, alguns de nossos maiores pensadores erraram feio nas previsões. 

Durante mais de um século, cientistas sociais foram incapazes de antever os grandes eventos que mudaram o rumo da história. A maioria ficou atônita diante da eclosão das duas grandes Guerras Mundiais e do desfecho da Guerra Fria. Foi pega de surpresa em todos os momentos de instabilidade, incluindo o 11 de Setembro, a crise financeira de 2008, a Primavera Árabe, o brexit e a eleição de Donald Trump.

É fundamental considerar nossa limitação em dar prognósticos e ajustar nossas condutas e expectativas em função disso. Em 1989, o futuro parecia radiante e promissor. A democracia liberal e o capitalismo de mercado haviam prevalecido. Os EUA eram a única superpotência. 

Poucos analistas previram a espetacular ascensão da China e da Índia, muito menos as turbulências do mercado em 1997 e 1998, o retorno do nacionalismo reacionário e a escalada do antiglobalismo. O mais espantoso é a velocidade com que todo esse rebuliço vem sendo aceito, não só como se fosse inevitável, mas também como o “novo normal”.

Será o futuro tão sombrio e distópico quanto tende a crer um número cada vez maior de ocidentais, particularmente americanos e europeus? Talvez seja, mas isso está longe de ser algo dado. 

É válido salientar que a população mundial nunca esteve tão bem. Por mais inacreditável que possa parecer, vivemos, segundo todas as métricas de progresso humano, os melhores momentos de mais ou menos 200 mil anos de história do Homo sapiens. E, apesar dos recentes sinais de oposição à globalização e à democracia, nunca houve tanta cooperação global ou um número tão grande de pessoas vivendo em países democráticos.

Para sobreviver ao próximo século, a cooperação global será ainda mais necessária. A saída unilateral não é uma opção. Estados nacionais só serão capazes de enfrentar as grandes ameaças mundiais se, em conjunto com empresas, cidades e a sociedade civil, forem capazes de desenvolver consensos e unir esforços para formular soluções pragmáticas.

Precisamos fomentar soluções ambiciosas, inovadoras e radicais, e, ao mesmo tempo, reformar e renovar instituições internacionais, incluindo a ONU, a Organização Mundial do Comércio, o G20 e bancos de desenvolvimento já existentes e novos, como o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura. 

Uma cooperação efetiva requer o fortalecimento —e não o enfraquecimento— de alianças regionais e arranjos conforme o mundo faz a transição para uma ordem multipolar. Não faltam ameaças globais à nossa existência. Para enfrentá-las, são necessárias soluções multilaterais, que abarquem desde ações radicais destinadas a atenuar e nos adaptar às mudanças climáticas a esforços de regulação da inteligência artificial e da proliferação de armas de destruição em massa.

 

A lista de prioridades é longa e cada vez mais extensa. Inclui o fomento ao crescimento inclusivo e à redução de desigualdades gritantes, a prevenção de pandemias e superagentes infecciosos, a regulação das engenharias genética e biológica, a formulação de regras para a gestão da segurança cibernética, o manejo de fluxos de migrantes e refugiados e a imposição de regras comerciais exequíveis para a economia global do século 21. 

Sim, o mundo está mais complexo e turbulento do que antes. É bom ir se acostumando. A tarefa de construir a cooperação global nunca foi fácil. Para isso, é preciso que haja uma base comum de fatos, a capacidade de compreender o ponto de vista do outro, lideranças esclarecidas e a mútua confiança para tecer soluções coletivas nem sempre ideais.

A cooperação também requer a antevisão e a sabedoria para operar, não só em prol de interesses nacionais, mas também regionais e internacionais. Numa época caracterizada por notícias falsas digitalmente veiculadas, pelo aprofundamento da polarização e pela escalada do populismo, não é uma tarefa simples. 

Entretanto, quando o mundo todo se vê diante de potenciais ameaças de extermínio civilizacional, o multilateralismo não é uma opção, é uma necessidade.

Mais do que nunca, precisamos nos empenhar para construir soluções ideais sem deixar de reconhecer que os resultados serão provavelmente imperfeitos e que, em certas circunstâncias, seremos consumidos pela imponência dos desafios. Porém, queiramos ou não, uma cooperação global suficientemente positiva é essencial para a nossa sobrevivência comum. 


Robert Muggah, especialista em segurança e desenvolvimento, é um dos fundadores do Instituto Igarapé, onde coordena as áreas de pesquisa e desenvolvimento tecnológico.

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