Descrição de chapéu Memorabilia

Djavan me despertou para o jazz, escreve Monique Gardenberg

Cineasta e produtora cultural relembra convivência com o cantor e outros nomes célebres da música

Monique Gardenberg

Era 1976 quando passei para a Faculdade de Economia da UFRJ. Queria ser atriz, mas a vida não deixou. Precisava ajudar minha mãe, subitamente sozinha, com três filhos, numa cidade nova e nem sempre maravilhosa. Economia parecia um atalho lógico aos olhos de uma menina de 17 anos. Mas não demorou muito para meu caminho se desviar.

Logo me envolvi com o movimento estudantil, passei a promover shows pela abertura política no Teatro de Arena da faculdade. Íamos para o Leblon, ficávamos plantados em frente ao Balada Sucos, à espera de algum artista desavisado para lhe fazer o convite. Foram muitos shows, Gonzaguinha o primeiro. Em 1972, quando as Forças Armadas invadiram e fecharam aquele espaço lindo, meio grego, era Gonzaguinha quem estava no palco.

Chico Buarque também começava a organizar os shows de Primeiro de Maio e precisava de voluntários. As lideranças estudantis foram convocadas e foi assim que convivi, incrédula, com o autor de “Apesar de Você”, “Construção”, “O Que Será”.

Ajudei a organizar caravanas artísticas, conheci um pouco mais do Brasil, visitei Angola e Cuba. Gostava de apostar com Chico quem decorava mais números de telefones, a lista de artistas era longa.

E ainda garota, em Luanda, me maravilhava com Caymmi, Clara Nunes, Martinho da Vila, Ruy Guerra... Cruzei o Atlântico a ouvir histórias do parceiro de Chico em “Fado Tropical”. Ruy estava particularmente intrigado com a pouca empatia dos angolanos pelos cubanos. Ao desembarcar, porém, pegou malária e não pôde examinar de perto o cruzamento desses povos. 

Fazia parte do grupo um cantor que vinha fazendo muito sucesso nas rádios com a música “Meu Bem Querer” —Djavan. 

djavan
O músico Djavan em 1982, ano da gravação do álbum 'Luz' - Folhapress

Ao voltar ao Brasil, fui convidada para me tornar sua empresária. Aos poucos fui compreendendo a sofisticação de sua música. Seu suíngue fora do comum. Seu tempo forte fora do lugar, o um fora do lugar, quebrado. O jazz de alguma forma contido em composições extraordinárias como “Para-Raio”, “Samba Dobrado”. Ia descobrindo a complexidade sonora daquele homem simples. Djavan e sua banda Sururu de Capote me despertaram para o jazz.

“O que é do homem o bicho não come, uma hora minha vez vai chegar”, Djavan dizia, com jeito de menino, sentado no chão da gravadora Odeon. E chegou.

Em 1982, Djavan grava o inspiradíssimo álbum “Luz”, que exibia um solo de gaita de Stevie Wonder na faixa “Samurai”. Era o ano em que Michael Jackson arrebataria todos os prêmios de um Grammy que tivemos a sorte de assistir juntos, vibrando.

Ao lançar este seu novo disco, Djavan estoura. O que era feito de forma caseira já não podia mais ser. Juntei-me a minha irmã Sylvia, então assistente do diretor artístico da gravadora Ariola, e fundamos a Dueto para dar conta da carreira de Djavan. Com ele, percorremos o mundo.

Até que num festival de jazz de Nova York Sylvinha e eu assistimos extasiadas a Wynton Marsalis, Gil Evans, Bobby McFerrin, David Sanborn. Logo nos perguntamos: quanto tempo será que vai demorar para esses caras se apresentarem no Brasil?

De volta ao Rio, começamos a sonhar com a ideia de criar nosso festival. Pensamos no Zuza Homem de Mello, que conhecemos como curador do Montreux São Paulo Jazz Festival, para nos ajudar. Usando um aparelho de telex, pedimos ao diretor do Kool Jazz Festival os contatos dos artistas que compunham uma lista preparada a seis mãos por Zuza, Paulo Albuquerque e José Nogueira —os dois últimos diretor e músico de Djavan, respectivamente.

A resposta foi seca: “information is gold” (informação é ouro). Devolvemos: “friendship is more than gold” (amizade é mais que ouro). Ficamos amigos naquele instante, e nossos corações palpitavam à medida que aquela máquina jurássica cuspia os contatos dos dez artistas escolhidos para compor o elenco inaugural do Free Jazz Festival: Chet Baker, Sonny Rollins, Bobby McFerrin, Pat Metheny, Ernie Watts, Joe Pass, Toots Thielemans, Phil Woods, McCoy Tyner, Hubert Laws.

Assim tudo começou. Em meio às Diretas Já. Agora, passados 35 anos, o Mastercard Jazz traz a música para o parque, para celebrar o novo jazz, diverso, inclusivo e democrático. Seguimos sonhando.


Monique Gardenberg, cineasta, roteirista e produtora cultural, produziu o Free Jazz Festival (1985-2001) e é diretora artística do Mastercard Jazz, que acontece no parque Ibirapuera em 31/8 e 1º/9.

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