Homem mata os pais por acordar cedo demais, em ficção inédita

Conto integra coletânea de histórias de relações banais com requintes de violência

Jorge Filholini

[SOBRE O TEXTO] Este trecho integra o conto “Eu Sou Sergio Caetano”, do livro “Somente nos Cinemas” (Ateliê Editorial). A coletânea de 14 histórias, marcadas por relações banais com requintes de violência e reflexões sobre a atividade artística, será lançada no dia 5 de setembro, durante a Balada Literária, na Mercearia São Pedro, em São Paulo.

escultura em tijolo
Obra "Meu Pai", acrílica sobre madeira e automotiva sobre tijolo cobogó, de Pedro Maciel - Folhapress

Eu tenho um amigo bem maluco. Éramos muito chegados na adolescência. Seu nome, Sergio Caetano. Houve um tempo em que ele estava com bastante raiva. Ficava puto porque acordava todos os dias meia hora antes do alarme do celular. Todo dia, meia hora antes. Pensou ser um sinal. Aviso divino. Ou pura sacanagem do destino. Tirou cartas de Tarô, as lâminas nada revelavam. Jogou búzios, mas as pedras não respondiam. O psicólogo diagnosticou calmantes. Zero solução. Sergio Caetano levantava nervoso. Repreendia o bom dia de sua mãe e nem olhava na cara do pai. Qualquer desavença poderia desencadear a briga. E a raiva aumentava. O ódio de acordar cedo demais. E qual o motivo de levantar cedo demais? Mais um cochilo, ele implorava. Mas não adiantava. Passou uma semana, dias e meses. Meia hora antes do despertador. Sergio Caetano não aguentou. Pegou a faca na terceira gaveta do armário da cozinha e desceu trinta e oito facadas nos pais. Vinte cinco no pai e treze na mãe. Foi capturado na mesma noite. Encarando o seu rosto no reflexo da faca. Cumpriu quase vinte anos de cana. Saiu faz alguns dias. Dizem que agora ele dorme como uma pedra.

Amigo teu? Que crueldade.
Tempos tenebrosos. Pode parar ali.
Mas não tem casa. É um baldio.
Encoste.
A corrida terminada. Morderia a jugular dele. Jorraria sangue no vidro. Molharia o estofado fedido. Podia pegar o extintor e amassar a sua cara. Irreversível. Não tenho coragem. Meu pai tinha razão. O meu maior monstro na minha frente à espera do dinheiro. A oportunidade. E não consigo fazer nada.

Na grana ou no cartão?

Eu não sei socar uma pessoa. Nunca briguei. Só apanhei. Não sei quando estou no controle. Ofensivo. A covardia é o escudo dos inúteis. A vergonha dos homens. Saí pela calçada que não sei de onde é e para aonde vai. Estou em um bairro sem mapa. Diante de um terreno. Ele agradece o dinheiro levantando a mão de dentro do painel. Não sai do carro para nada. Essa bunda quadrada. Suada e nojenta. Acho que usa fralda. Caga dentro do carro. Se for ao banheiro perde uma corrida. Perde o dinheiro. Ganha um negativo no saldo do banco. 


Jorge Filholini é escritor e editor.

Ilustração de Pedro Maciel, escritor e artista visual.

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