É momento da mulher erguer sua voz, diz autora de ópera sobre abuso

'Prism', composta por Ellen Reid, aborda sobrevivente de violência sexual e estreia no Municipal nesta quarta (4)

Andrei Reina

Violeta, a transviada, morre de tuberculose após ser humilhada em público por Alfredo, o homem por quem abandonara a vida de cortesã. Carmen, a cigana, é assassinada por Don José, a quem não ama mais, sob os aplausos do público das touradas.

Cio-Cio-San, a gueixa Butterfly, renuncia à própria cultura por um casamento fajuto e, abandonada, comete o harakiri. Em "Rigoletto", encenada em julho no Theatro Municipal de São Paulo, a inocente Gilda sabe que o duque de Mântua a enganou quando sacrifica a própria vida para salvá-lo.

Entre as obras que compõem o cânone do repertório lírico, raras são as histórias que acabam bem para elas, recorrência que levou a filósofa Catherine Clément a intitular "A Ópera ou a Derrota das Mulheres" o principal estudo sobre o tema.

Talvez não seja por acaso que Ellen Reid classifique como "sobrevivente" a protagonista de "Prism", ópera que estreia nesta quarta (4) no Municipal de São Paulo e segue até o próximo dia 14.

O trabalho da jovem compositora americana com a libretista Roxie Perkins começa onde uma ópera "clássica" costuma terminar e aborda, ao longo de três atos, os efeitos psicológicos da violência sexual sofrida pela jovem Bibi.

Com as pernas machucadas e incapaz de andar, ela é isolada pela mãe, a superprotetora Lumee, em um quarto encaixotado, onde tenta lembrar —e, em seguida, elaborar— o trauma. Há ainda um terceiro personagem, Chroma, um coro de vozes que acessa o mundo interior de Bibi e comenta a cena.

Comissionada pela Beth Morrison Projects —iniciativa criada em 2006 para a encomenda, produção e circulação de óperas contemporâneas—, "Prism" estreou em novembro de 2018 na série da Ópera de Los Angeles dedicada a obras inéditas ou pouco encenadas e, em janeiro deste ano, foi um dos destaques no festival de ópera Prototype, realizado em Nova York.

O interesse pelo trabalho ultrapassou as fronteiras do território lírico em abril, quando Ellen Reid foi anunciada a vencedora do Prêmio Pulitzer de Música, cujo júri descreveu "Prism" como “um novo e corajoso trabalho operístico que utiliza escrita vocal sofisticada e timbres instrumentais surpreendentes para confrontar um tema difícil: os efeitos do abuso sexual e emocional”.

O registro em disco com o elenco original, formado pela soprano Anna Schubert (Bibi) e a mezzo-soprano Rebecca Jo Loeb (Lumee), foi lançado em 23 de agosto pelo selo Decca Gold.

Ambas as cantoras estarão na estreia brasileira da ópera, que importa toda a encenação assinada por James Darrah com cenários de Adam Rigg e coreografia de Chris Emile. A direção musical e a regência ficarão a cargo do maestro da casa, Roberto Minczuk, que terá a sua frente 14 músicos da Orquestra Sinfônica Municipal.

Aos cuidados de Naomi Munakata, 12 membros do Coral Paulistano darão vida a Chroma. Ellen Reid e Roxie Perkins também virão a São Paulo, onde acompanharão ensaios e participarão do ciclo “Diálogos Prismados: A voz e a arte das mulheres”, realizado pelo Municipal na sexta (6) e sábado (7) com entrada gratuita.

A compositora Ellen Reid conversou com a Folha sobre a obra. 

O que motivou você e Roxie Perkins a criar "Prism"?

Roxie e eu começamos a trabalhar nesta obra antes do início do movimento #MeToo. O abuso sexual impacta a vida de tantas pessoas, tanto homens quanto mulheres, e nos interessamos em explorar o ponto de vista de uma sobrevivente.

Era realmente importante para nós que a ópera fosse familiar, que ela considerasse a experiência do público. Não queríamos alienar os espectadores, mas fazer com que se sentissem guiados pelos aspectos mais desafiadores da história.

O Prêmio Pulitzer veio no momento em que a violência contra a mulher é discutida não só na sociedade americana, com movimentos como o #MeToo, mas também no Brasil, onde quase um terço das mulheres diz já ter sofrido algum tipo de violência nos últimos 12 meses. Qual foi a sua reação ao receber o prêmio?

Eu fiquei —e ainda estou— em completo choque. Toda a equipe ficou chocada e honrada além da conta. Realmente. O impacto mais imediato de receber o prêmio é, através da atenção que ele proporciona, podermos compartilhar "Prism" com um público maior em performances como a temporada em São Paulo, o que é muito emocionante para nós, e o lançamento do disco no fim do mês.

Fazer parte de uma conversa internacional em torno do abuso contra mulheres e seus efeitos é incrivelmente significativo para nós, como pessoas e como artistas. Somos apaixonadas por essas questões e estamos ansiosas para participar desta conversa através do nosso trabalho.

Esta montagem brasileira é a primeira a ser feita fora dos Estados Unidos? O que achou de ter "Prism" encenada aqui?

Sim! O Brasil tem um lugar especial no meu coração, porque tem sido o lar de muitos dos meus heróis musicais. Eu não poderia pensar em um lugar a que gostaria mais de trazer "Prism", por muitos motivos. Nos Estados Unidos e no Brasil, é um momento importante para defender trabalhos de mulheres, de erguer nossas vozes e ouvir nossas histórias. Apresentar "Prism" de um modo tão proeminente diz que as vozes das mulheres importam.

A última ópera que o Theatro Municipal de São Paulo teve em seu palco foi 'Rigoletto', de Verdi, uma das muitas óperas que não terminam bem para as personagens femininas. Lendo a sinopse, fiquei com a impressão de que "Prism" começa onde normalmente uma ópera “clássica” termina. Você diria que isso é verdade?

Amei isso. Estávamos interessadas em explorar o psicológico e havia tanto a explorar neste espaço posterior onde uma ópera “clássica” termina.

Em um comentário sobre a ópera, o crítico Alex Ross escreve que você ordena “uma variedade de estilos para delinear os três mundos em colisão de Bibi: o imaginado, o lembrado, e o real”. Você poderia descrever o trabalho de composição para a ópera?

Alerta de spoiler... A ópera tem três mundos sonoros distintos, que servem para iluminar o mundo interior de Bibi. O primeiro ato é onírico e impressionista. Ele é cheio de movimento de tons inteiros, harmonias e melodias ricas. É mais acústico do que os outros atos.

O segundo ato começa com um estrondo. Você está em uma casa noturna nos dias de hoje. A música neste ato chicoteia da exuberância coral para batidas de trap [subgênero de hip hop] e para algo muito quieto e pensativo. É desorientador e drasticamente diferente do primeiro ato, ainda que temas musicais atravessem ambos.

O terceiro ato é cheio de técnicas estendidas brutais e cruas. A música deve soar raivosa. O ato termina com um forte apelo do coro, pois Bibi tem de decidir se vai ou não retomar a própria vida.

Em um clipe curto a que assisti, reparei que a orquestra toca sobre o palco e não no fosso, como é tradicional. Era importante para vocês que o público visse os músicos tocar?

Sim. Eu amo assistir músicos tocarem, então concordei quando James Darrah e Adam Rigg [cenógrafo] propuseram mostrar os músicos no segundo ato. A vida que os instrumentistas trazem para a música é contagiante e acrescenta tanto ao trabalho. Isso faz com que toda a obra pareça despedaçada e levemente fora de controle, de um jeito que auxilia o texto poderoso da Roxie Perkins.

Parece que o coro tem um papel importante na música e na história. Qual é ele?

Sim, o coro, Chroma, tem um papel muito importante. A função dramática das vozes é revelada no desenrolar da obra. Escrever para o coro também me permitiu explorar um amplo vocabulário musical, o que foi muito estimulante. Roxie e eu realmente gostamos de descobrir as possibilidades de usar as impressionantes vozes do coro. Elas trazem uma sensação mágica. 

Comentando sobre seu trabalho em Hopscotch, você disse que “se está sempre tentando acertar um alvo literalmente móvel. Cada peça deve ser coerente nos seus próprios termos e também flexível o bastante para se encaixar em condições inconstantes”. Trabalhos assim não são montados com frequência no Brasil. Como foi essa experiência?

Eu não acho que trabalhos como "Hopscotch" sejam montados com frequência em lugar algum! Uma quantidade incrível de planejamento logístico foi necessária na produção. Todas essas intrincadas partes móveis tinham de se alinhar. Cada trabalho musical/dramático tinha de parecer completo em si mesmo e também aberto, porque as peças eram experimentadas em uma ordem aleatória.

Às vezes, a sua peça seria o final para um membro da plateia, e em outras vezes estaria no meio da experiência deles. Tinha de funcionar em cada uma das configurações.

Em uma entrevista, você diz que se interessou por aspectos sociológicos da música, como quem está ouvindo e porquê, na época da faculdade. O que você acha do público de ópera hoje? É um desafio assim tão grande atrair jovens para concertos de música clássica?

A ópera, como forma, é uma maneira poderosa de contar histórias, e pessoas de todas as idades podem ser alcançadas por ela. Em todas as nossas performances de "Prism", o público era uma mistura de gerações.

A combinação do assunto da ópera, abordado na cobertura da imprensa, e o legado das instituições com as quais estávamos trabalhando atraíram um público amplo. O trabalho que a produtora Beth Morrison está fazendo nos Estados Unidos está mudando o panorama da ópera. Ela está criando um mercado para obras que falam a um público amplo e este público não para de crescer.


Andrei Reina é jornalista, especializado em música de concerto e ópera.

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