Incisivo, Silviano Santiago desconstrói ideias definitivas em ensaios

Coletânea dá mostra do largo escopo temático da obra do incontornável crítico literário

Felipe Fortuna

[RESUMO] Compilação de ensaios dá mostra do largo e incisivo escopo temático da obra de Silviano Santiago, na qual se destacam o esforço de contestar ideias tidas como definitivas e a valorização da biografia como elemento de análise.

“Ninguém sabe o que se passa
Por detrás dessa máscara de Batman
Por detrás dessa fantasia de Super-Homem.
Só o Sombra sabe.”

Silviano Santiago, poema “O Rei dos Espiões”

“Sol, eu te reconstruirei!”

Silviano Santiago, poema “Fala de Narciso”

Não creio fazer inconfidência sobre um escritor nascido nas Minas Gerais se afirmo que Silviano Santiago mantém uma ativa assinatura do jornal New York Times, a que dedica tempo diário de leitura; que salientou, em conversa, a importância do artista norte-americano Childish Gambino, especialmente a canção “This Is America”; que, raro entre amigos, me faz perguntas sobre poetas e sobre diplomacia, enriquecendo qualquer resposta minha com seu conhecimento a respeito de conexões familiares e formas do poder. 

É também assim —largo, atualizado, atento, incisivo— o escopo de “35 Ensaios de Silviano Santiago” (Companhia das Letras), livro que reúne importante amostra desse escritor brasileiro premiadíssimo tanto na não ficção quanto na ficção. 

Hesito em escrever sobre a existência de um pensamento ou de uma interpretação coerente que marcaria toda a obra de Silviano Santiago: fazê-lo seria, a meu juízo, exercício rotineiro do resenhista, na tentativa de domesticar a sua crítica ao identificar nela uma tradição. 

O ensaísta demonstra interesse muito mais elevado pelo tema da dependência cultural e, dentro dele, da cultura latino-americana, do que propriamente pela interpretação constante dos assuntos brasileiros —ainda que seja intérprete incontornável de autores como Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade, Guimarães Rosa. 

Acontece que, primeiramente, Silviano Santiago procura, em estilo elegante e com rigor, desconstruir percepções marcantes e corriqueiras, tantas vezes apresentadas como definitivas ou canônicas. É um esforço considerável, que um ensaio como “‘Atração do Mundo’: Políticas de Globalização e de Identidade na Moderna Cultura Brasileira” parece sintetizar.

Nesse texto se encontra, por exemplo, um exame acerca do célebre “Instinto de Nacionalidade”, de Machado de Assis, no qual o ensaísta descobre “o silêncio pânico do intelectual mulato diante da contribuição dos africanos pela escravidão negra no Brasil” e ainda observa que “o desprezo (...) pela contribuição cultural indígena não deixa também de ser lamentável”. 

Sem pretender reducionismos, creio que “silêncio” e “desprezo” (ou seja, aquilo que não está no texto ou no discurso) acabam atraindo a interpretação de Silviano Santiago, muito mais do que os aspectos plenamente visíveis ou detectáveis.

E, no caso brasileiro, “silêncio” e “desprezo” criam tradição: eis a crítica que faz a um analista como Caio Prado Jr., doente de eurocentrismo, que estaria fechado “aos reclamos do outro” em suas interpretações solidamente sociológicas, porém omissas, e marxistas, porém parciais. 

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O historiador paulista Caio Prado Jr. (1907-1990) - Acervo Brasiliense/Divulgação

Silviano Santiago é mesmo um professor desconstrutor, interessado em estudar a presença do poder e da violência na constituição da cultura do nosso entorno geográfico.

A variedade temática dos textos, selecionados por Italo Moriconi, pode surpreender o leitor. “A Viagem de Lévi-Strauss aos Trópicos” se fundamenta em fina bibliografia e em numerosas ideias que nem sempre encontram possibilidade plena de desenvolvimento — Silviano Santiago afirma que um dos possíveis enfoques se transformou no romance “Viagem ao México” (1993), que diz respeito a Antonin Artaud. 

Já em “A Democratização no Brasil (1979-81): Cultura versus Arte”, as referências são todas a artigos estampados em jornais e revistas, que se mesclam a fontes eruditas nas notas. Nada disso desvia do rigor conceitual com que o ensaísta discorre sobre seu objeto, mas a primeira lição é a de que o material mesclado atrai o crítico de cultura. 

Esses 35 ensaios agora evidenciam, de modo contundente, como a antropologia e os estudos etnográficos compõem parte substantiva da mirada crítica de Silviano Santiago, aliada à “convivência conflitiva” com o que estuda.

Desconstrói ali, constrói aqui. Um aspecto importante dos ensaios diz respeito às noções (e aos usos) da biografia, da autobiografia, da autoficção e de seus variados subprodutos —a crônica memorialística, o diário, até mesmo a entrevista...

Lembro-me, contente, do curso na PUC-RJ em que Silviano Santiago destrinchava capítulos de livros de Philippe Lejeune, especialmente “O Pacto Autobiográfico” (1975), o que me fez encontrar novos ângulos sobre um dos mais dolorosos documentos brasileiros, o diário “Quarto de Despejo” (1960), de Carolina Maria de Jesus.

Em “35 Ensaios”, Silviano Santiago está sempre a interpor a biografia e a autobiografia como elementos de alta significação para análise, como acontece em “Orlando, uma Biografia: Entre a Flexibilidade e o Rigor”, sobre o famoso romance de Virginia Woolf.

A narrativa biográfica e as suas variantes apontam para o passado e para o futuro de toda a obra de Silviano Santiago: é um valor constante na ficção, na não ficção e mesmo nos seus poemas. É a ideia mesma de biografia que, a seu modo, dá corpo ao melhor do ensaísmo e da criação do escritor, o que expõe e explicita sua originalidade em um ambiente intelectual acomodado a esquemas e a explicações de caráter genérico.

Os “35 Ensaios de Silviano Santiago”, embora uma antologia, oferecem a novidade de percepções interdisciplinares bem conduzidas. Isso pode ser constatado no célebre ensaio “O Entre-Lugar do Discurso Latino-Americano”, no qual se afirma, oswaldianamente, que “a maior contribuição da América Latina para a cultura ocidental vem da destruição sistemática dos conceitos de unidade e de pureza”.

Afirmação de resistência e contraponto, a servir para o ontem e para o agora. Na crítica de Silviano Santiago, a tendência a atualizar é a tônica —por isso, mesmo a carta de Pero Vaz de Caminha, como se lê em “Destinos de uma Carta”, continua a circular de mão a mão, e a queimar com sua mensagem.


Felipe Fortuna é poeta, ensaísta e diplomata. Publicou recentemente “A Mesma Coisa” (Topbooks) e “O Rugido do Sol” (Pinakotheke), ambos de poemas.

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