Ivana Arruda Leite faz poesia com sexo, dinheiro e Bethânia; leia

Editora Patuá lança coletânea de poemas da autora em outubro

Ivana Arruda Leite

[SOBRE O TEXTO] Os poemas nesta página integram o livro “Poemas de Muito Longe”, que a editora Patuá lança no começo de outubro.

calça com pelos saindo do zíper aberto
Ilustração - Silvia Amstalden

CHICOTE

Quisera manter o ar de mulher séria
dessas que são capazes 
de qualquer sacrifício.
Aquele ar consternado
de madre superiora de internato.
Mas quando se põe dinheiro no meio
é foda.

MOENDA

A vida hoje dói-me barbaridade.
A paixão esfacela-me a face
e cava em meus dentes buracos imensos
que me levam à loucura quando provo doce
(há tempos não ponho nada de mel na boca)

As raras alegrias me consomem o fígado,
quando estou alegre bebo o excesso.
Algumas amizades me estimulam a miopia
tal o esforço que faço pra vê-las,
tão longe se avistam.
Certos carinhos me dão bronquite
e os homens quando querem ser gentis
sempre me fazem menstruar.
De gordura me fartam certos amores
que só servem pra estragar o delírio.
O sexo visto de perto é tão curto
que sempre amolece o pinto
que trago no gozo imaginário.

A vida real
talvez só seja legal
no disco da Bethânia.
Pra mim ela não passa de um caminhão
se arrastando numa roda só.
Tão cruel como os filmes do Buñuel.

CENTURY

Há um novo cigarro na praça,
senhores,
pensem nisso.
Há um pedaço de vida
pairando no céu do Bexiga,
senhores,
pensem nisso.
Há uma luta contida e morta
na cabeça do Miguel Arraes.

Debaixo desta calça lee
há uma xexeca pulsante
senhores,
pensem nisso.
(1983)


Ivana Arruda Leite, escritora, publicou os livros “Hotel Novo Mundo” e “Cachorros”.

Ilustração de Silvia Amstalden, artista visual.

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