Descrição de chapéu Memorabilia

Livros infantis me ajudaram a descobrir o colonialismo, diz Ruy Guerra

Cineasta moçambicano de 88 anos fala sobre a influência das histórias do herói Sandokan em sua formação

Ruy Guerra

O que é a minha maior influência? Certamente o livro que mais me influenciou não é o que eu mais gosto, nem o filme. É difícil saber o que é isso. Se é um amigo, uma paixão.

Mas pensei: há um personagem. De um escritor italiano do final do século 19 chamado Emilio Salgari (1863-1911). Toda a obra dele é infantojuvenil. Seus livros chegavam em remessas mensais a Moçambique, onde eu nasci, em navios que levavam 20 dias para chegar e 20 dias para voltar.

Esse italiano é um cara interessante, porque morreu na miséria com 40 e poucos anos e publicou mais de 90 livros. Era roubado pelos editores. Mas publicou sobre a África, o Oriente Médio, a América, o Caribe. Abraçou o universo da fantasia e da aventura em toda área. É considerado hoje pelos estudiosos um dos precursores da ficção científica: era editado em inglês, francês, português. Bem, mas não me interessa o escritor, e sim o personagem.

Havia um herói chamado Sandokan, que vivia no extremo Oriente asiático, levava uma cimitarra de rubi e vinha de um pequeno feudo. Quando chegava um livro do Sandokan, a cada um ou dois meses, pum, era um alvoroço pra garotada.

Há poucos anos um desses foi relançado aqui no Brasil e eu o reli. É muito divertido ler já com uma bagagem. A linguagem é de uma exaltação, de uma grandiloquência: beber um café é uma aventura. “Avançam no escuro da noite para o meio das trevas”, o vento sempre soprando, as barbas negras como asa de corvo —tudo no pico máximo da tensão.

Lembro que o primeiro livro da série portuguesa foi “Sandokan, o Tigre da Malásia”. Lá no sétimo ou oitavo, veio “A Morte de Sandokan”.

Era tão impressionante a força do livro que me lembro, com 9 ou 10 anos —eu me lembro mesmo— da imagem de mim mesmo sentado nas escadas da minha casa, do térreo para o primeiro andar, aos prantos porque Sandokan tinha morrido. Eu não conheci o meu avô, mas se conhecesse, choraria menos por ele que pela morte de Sandokan.

E na remessa seguinte, veio “A Volta de Sandokan”. Eu pulava de alegria, cantava. Sofri sua morte e em seguida renasci. 

Tenho certeza de que não percebi isso com dez anos de idade, mas o que é curioso nessas histórias é a posição anticolonialista. Os heróis de Salgari nunca eram europeus. E eu vivia numa colônia de Portugal. 

Os grandes escritores europeus sempre escreveram seus heróis de seu lado. Eles são sempre defrontados com o mundo selvagem da África, dos berberes, dos índios americanos. Já o herói do Salgari luta contra a opressão —é ele e o povo. 

Aqueles que escrevem com a perspectiva eurocêntrica, mesmo que o olhar seja generoso, complacente, seu herói é sempre o aventureiro europeu. Nas histórias do Sandokan, os outros são os opressores que vêm para saquear —ou, como era uma fantasia infantojuvenil, para roubar um tesouro.

Essa inversão do olhar foi extremamente importante no ponto de vista da formação de uma identidade. Vivendo num país que é o invadido, e não o invasor, você se identifica mais com essas histórias. 

Depois soube que estava muito bem acompanhado. Havia outros que também foram apaixonados na infância pelas histórias de Salgari: Jorge Luis Borges, Umberto Eco, Federico Fellini, Gabriel García Márquez. Não é má companhia.

Noto um elo forte entre Sandokan e o universo de García Márquez: o exagero, a pompa, o deslumbramento, o ímpeto por uma coisa maior do que a realidade. Sinto nele a fantasia daquele universo infantojuvenil —uma subjetividade tal que, sabendo que García Márquez também leu aqueles livros, compreendo sua obra também através deles.

Vejo de uma forma triangular: Salgari, García Márquez e eu, que sou leitor dos dois. Nunca conversei com Gabo sobre isso, apesar de termos conversado sobre tanta coisa. Mas se ele escrevesse algo infantojuvenil, faria algo nas águas do Salgari. 

Crescendo com esse encantamento, eu ia me afastando da Europa. Era uma bitola que me levava para ser contra o colonialismo e para descobrir, através da ficção, o próprio colonialismo em que eu estava inserido. Fui marcado de forma inconsciente. É uma paixão tão grande chorar por uma personagem que é impossível que não te deixe marcas. 

E isso me deu uma precocidade: comecei a ter problemas políticos muito cedo —aos 15 anos, eu já estava sendo preso por atitudes consideradas subversivas. 

Na minha adolescência, ainda estavam muito embrionários os movimentos de revolução em Moçambique e na África do Sul. E eu já escrevia textos acusando a metrópole portuguesa e sendo detido por isso. Ali eu estava a dez anos da leitura do Salgari —claro que com um salto qualitativo— e com a respiração de um Sandokan. Afrontando os invasores coloniais.

Se você me dissesse isso na época eu ficaria ofendido —“pô, me comparando a um personagem infantil”—, mas quando você entra na vida adulta vê que o inimigo é o mesmo de Sandokan. Continuei assim, e continuo, com ele na minha base. 


Ruy Guerra, cineasta, compositor e dramaturgo, dirigiu clássicos como “Os Cafajestes” (1962) e “Os Fuzis” (1964) e, mais recentemente, “Quase Memória” (2015).

Depoimento a Walter Porto

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