Descrição de chapéu Perspectivas

Na direção de grupos de dança, mulheres levam seu universo ao palco

Questão é como ocupar, além de posições de liderança, o espaço simbólico que trabalha condições femininas

Iara Biderman

No início deste ano, o New York City Ballet anunciou a nova direção artística da companhia: Jonathan Sttaford e Wendy Whelan. Nomeada como diretora associada, Whelan é a primeira mulher em um cargo de liderança na direção artística da companhia americana.

No último mês de agosto, o Movimento Feminista do Tango levou o debate sobre submissão da mulher e estereótipos sexistas a um campeonato mundial dedicado ao gênero musical, em Buenos Aires. 

No Brasil, duas mostras em São Paulo se debruçaram sobre o papel da mulher na área. No último fim de semana de agosto, cinco artistas e gestoras participaram da mesa “Mulheres na Dança”, na Semana Paulista de Dança no Masp, enquanto o Itaú Cultural encerrava sua programação mensal levando ao palco três coreógrafas com obras sobre as questões femininas. 

Há pouco mais de um ano, a Cia. Fragmento de Dança iniciou o projeto independente Mulheres em Cena. Idealizado por Vanessa Macedo, diretora da companhia, o projeto reúne trabalhos sobre questões femininas criados e dançados por elas. Na edição de julho deste ano, 11 artistas-mães dançaram e conversaram sobre corpo e maternidade. 

Na Bienal Sesc de Dança, que começou no último dia 12, em Campinas, o número de coreógrafas mulheres é igual ou maior ao de homens (algumas criações são coletivas).

 

Ter de falar sobre protagonismo feminino na dança parece estranho. Afinal, são as mulheres as musas dos coreógrafos, as grandes divas do público. São nomes reverenciados de movimentos essenciais da dança contemporânea ocidental, como Martha Graham ou Pina Bausch, para ficar em apenas dois exemplos famosos. 

E, no Brasil, ao contrário do caso da famosa companhia nova-iorquina, não é de hoje que ocupam cargos na diretoria de grandes grupos da dança oficial. Em seus 50 anos de vida, o Balé da Cidade, de São Paulo, teve seis homens e seis mulheres em sua direção artística. 

A São Paulo Companhia de Dança, estadual, é dirigida por mulheres desde sua criação, em 2008. Duas ex-primeiras bailarinas são as atuais diretoras artísticas do Ballet do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, cargo muitas vezes ocupado por mulheres na história do corpo de baile octogenário. 

Também estão à frente de companhias particulares com presença forte nos circuitos internacionais, como a de Deborah Colker (que tem patrocínio oficial) ou a de Lia Rodrigues (que sobrevive graças apenas a parcerias estrangeiras).

A questão, por aqui, parece ser a conquista do tal do “lugar de fala” (no caso, poderia ser “lugar do corpo”). Ocupar, além de posições efetivas de liderança, o espaço simbólico, tornando explícita sua presença, suas ações e/ou trabalhando com temas específicos sobre as condições objetivas e subjetivas da mulher

Alguns desses temas aparecem diluídos ou fundidos às questões de gênero, sexualidade ou raça, temáticas recorrentes na dança contemporânea. Nem tudo, porém, é explicitado e nem sempre fica claro o que há de feminismo ou machismo. Polêmicas se estendem: a dança de Anitta representa a mulher-objeto ou a mulher poderosa?

Um duo contemporâneo em que a bailarina é arrastada por seu parceiro é irônico, crítico ou simplesmente machista? 

Como as artistas vão responder a essas perguntas é que são elas. Ambiguidade é do jogo da arte, ainda mais das expressões basicamente não verbais. Ser explícito demais pode ser empobrecedor e até chato, mas também incomoda não ser ouvido, visto ou entendido —outro problema geral da dança.

Corpos diferentes e manifestações periféricas já estão em cena —têm sido o recorte de mostras e festivais afinados com o espírito do tempo. Não dá para escapar das questões femininas, ainda mais na dança, onde o protagonismo da mulher encontra-se em algum lugar entre a fantasia e a semiobscuridade. 

O que se tem visto por aí é a presença de mulheres na dança, não necessariamente maior do que sempre foi, mas certamente mais “assumida” e autoconsciente, com maior disposição para tratar de assuntos que dizem respeito a seu papel no mundo atual do que para perpetuar estereótipos.


Iara Biderman é jornalista.

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