Descrição de chapéu Memorabilia

'O Carteiro e o Poeta' foi um êxtase estético para mim, conta Elisa Lucinda

Atriz e poeta conta encontro surpreendente que teve na Croácia por causa do filme

Elisa Lucinda

Para um encontro de poetas do novo milênio, estava eu na simpática Croácia, que tinha na época nove anos de independência. O país se reconstruiu de guerras, mas nem parece que sofreu, eu pensava. Já fui logo aprendendo a dizer “hvala”, que significa “obrigada”.

Cerimônia de abertura, 20 poetas do mundo, os usuais discursos formais. Veio o baile. Um homem fofinho, olhos bons, cara de Papai Noel, careca, muito sorridente e de bigode vem andando e cantando em minha direção: “Mira que cosa más linda, mais chenia de grácia...”, mandava uma versão simpática em portunhol de “Garota de Ipanema”.

Aquilo era um bálsamo para os ouvidos e agradou meu coração, como hino quando toca na saudade de casa. Não era exílio, mas aquele Vinicius caiu muito bem. Rimos. Era chileno e seu nome, Antonio. Dançamos divertido. Fui logo perguntando: curte Pablo Neruda? “Adoro, como não?” Também amo, eu disse.

Surpreendentemente, enquanto bailávamos e a conversa corria solta, muitas fotos foram tiradas de nós. Milhares de fotos. Fiquei impressionada: como podia uma mulher negra brasileira, desconhecida no país, fazer tanto sucesso numa terra branca, branca? Estavam encantados. Só eu dos meus ali. Única. Arrasando. Clique, clique, clique. 

Parecíamos velhos amigos internacionalmente anônimos, poetas e latinos. Ele mais velho, muito inteligente e dono de uma singela sofisticação. Depois da dança, mais conversa. “Você viu ‘O Carteiro e o Poeta’?” Vi, eu disse sorridente, servindo mais uma taça. “Gostou?” Fiquei foi doida com o filme. Que maravilha aquela história! 

Passei mal quando vi, você acredita? Senti uma espécie de vertigem boa, mas tão insuportável quanto o stress do gozo depois de seu ponto máximo... Algo assim. Não sei descrever. Saí do cinema ciente de que algo em mim perdera o sossego. Era físico tudo. Queria só minha cama, meu quarto, meus livros, meus discos, minhas coisas. Banho demorado em casa. Cadê que passava? 

Quando me lembrava da explicação do conceito de metáfora que Neruda dá ao carteiro no filme, meu corpo estremecia por dentro, como num êxtase estético. Deu-me soluços a fúria daquela beleza. Agora mesmo, falando com você, Antonio, ainda treme meu corpo todo. Não sei explicar. Você adora o filme assim também ou sou exagerada?

“Acho o filme bom, sim. Te compreendo, guapa. Mas estou curioso, você melhorou logo?” Só fiquei boa depois que escrevi um poema. Era o remédio.

carteiro e poeta
Cena do filme "O Carteiro e o Poeta" (1995) - Divulgação

Um grande silêncio desceu entre nós. Ele me ofereceu um semblante que não conhecia e perguntou, com uma doçura grave: “Tem aí o poema? A mim me encantaria lê-lo.”

Pois acabei de publicá-lo no Brasil, em “Eu Te Amo e Suas Estreias”. Mas é pobrinho perto do filme. Não repare. Publiquei por consideração epifânica, nada mais! Ofereço o livro então, toma. Autografei e estava feito. Ele o leu ali na hora. Lacrimejava. Nossa, você está emocionado assim? Nunca pensei que este torto poeminha...

O homem não se conteve mais. Sentou-se no tamborete do bar em volta da pista, apoiou a testa na mão, o cotovelo no balcão e se entregou a uma espécie de silencioso pranto. Abracei-o. Quedou-se pequenito aquele homem redondo, amiudado pelo acolhimento do abraço que também a mim nutria. Chorou profundo ali. Silêncio cúmplice. Sabia-se lá do quê.

Ele me olhou nos olhos e disse, enxugando as lentes dos óculos com o guardanapo de pano. “Preciso te contar um segredo: eu sou Antonio Skármeta, autor de ‘O Carteiro e o Poeta’, livro que gerou o filme. Minha avó era croata, por isso estou aqui.”

Fiquei muda. O que era aquilo? Uma cena? Alguém vai gritar “corta”?

Nesta hora quem chorou fui eu. Ó vida, vida, espetáculo de inéditos! Ó vida, milagre incessante, lona sobre o circo das tramas dos enredos.

Não havia lido no programa que homenageariam o maior escritor de origem croata, autor da história do filme que bombava no mundo. Por isso as fotos, os paparazzi! Que vergonha. Não era para mim o aparato. Terão pensado “brasileira alpinista”? Meu Deus, eu dançava com a estrela da festa sem saber!

Seguimos amigos, unidos pela arte que provoca novas artes. Éramos parte da mesma ciranda. Me viu no teatro, me convidou para seu programa “Torre de Papel”. Tanta coisa rolou bonita neste histórico festival. Mas o que não estava no script, o imprevisível precipitou-se antes de qualquer outro guionista. Soberano e natural, o acaso armara sua base ali, seu terreiro de coincidências, sua dramatúrgica serendipidade. 

É uma sorte quando a arte refloresce em coração alheio. Nunca houve para este poema aprendiz melhor destino. Existiu para encontrar o poeta, autor da história que o gerou. Agora, escrevendo o acontecido, fazendo aqui em palavras o derramamento de uma realidade, faço uso desta cena de minha vida que nada deixa a dever às ficções.

Escrevo isto pela honra de ter vivido a poesia deste encontro, fruto de uma literatura da igualdade que juntou, na mesma linha de ouro, um carteiro e um poeta, entre bilhões de pessoas neste mundo. 

O que sei é que a arte, sem pretensão, tem o mesmo princípio das florações. O invisível vento, discreto roteirista, vai espalhando suas sementes de modo imprevisível e livre. Quem sabe, assim como o filme virou poema, o simples poema pode virar música, assim como o espetáculo das coincidências virou este artigo. É assim. Ninguém manda nisso.

Em progressão infinita e para além das fronteiras, a arte que inspira outra gera frutos como se fossem uma espécie de gratidão em forma de brotos, uma resposta em híbrida fecundação. É subversiva. Imparável!

Por isso escrevo como se espalhasse uma muda desse enredo no coração de quem me lê, compondo a ciranda, repetindo baixinho em tradução simultânea para todo mundo entender: “hvala, hvala, hvala”. 


Elisa Lucinda é atriz, poeta e cantora.

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