Em romance inédito, narrador revê sua vida após suicídio do filho

'Crocodilo', de Javier Contreras, sai nesta semana pela Companhia das Letras

Javier Arancibia Contreras

[SOBRE O TEXTO] No romance “Crocodilo”, o narrador reavalia sua vida e o mundo ao redor depois do suicídio de seu filho. O livro será lançado nesta semana pela Companhia das Letras.

Ilustração de  Gabriela Sacchetto para a seção Imaginação, da Ilustríssima
Ilustração - Gabriela Sacchetto

Hoje, meu filho Pedro pulou da janela do seu apartamento.

Ele morava no décimo primeiro andar de um edifício antigo, de arquitetura clássica, em uma rua pequena e charmosa, tomada de árvores, que destoava muito das amplas e movimentadas avenidas ao redor. Ainda que houvesse sua cota de circulação de pessoas, o lugar era quase uma ilha de tranquilidade em meio ao caos do centro da cidade. Isso, porém, não deve ter feito a menor diferença no momento em que Pedro decidiu se jogar lá de cima e quebrar, com essa atitude, o clima de harmonia daquele pequeno trecho do bairro.

“Morreu na hora, instantaneamente”, me disseram no IML.

Fui para lá cerca de duas ou três horas depois do incidente. Tempo que policiais, bombeiros e paramédicos levaram para chegar ao local, isolar o perímetro, identificar a vítima, conseguir o telefone de um parente e recolher o corpo desarticulado da via pública, colocando-o dentro de um saco emborrachado cinza com zíper — daqueles que vemos mais em filmes que na vida real —, usado para transportar cadáveres.

“Ele não sentiu dor”, completaram os médicos-legistas, baixando os olhos ingenuamente, por apenas um segundo, na direção dos sapatos.

Aquilo não deixava as coisas mais claras. Devia ser apenas uma técnica usada para diminuir o sofrimento dos parentes. Uma espécie de protocolo estabelecido pelos profissionais que lidam com a morte diariamente. Um pacto inconsciente e sentimental entre eles para amenizar o desespero dos familiares da vítima em qualquer ambiente em que pudessem encontrá-los. Um afago de piedade.

Quanto a mim, me recuso a acreditar que o Pedro não tenha sentido qualquer tipo de dor ao se espatifar no asfalto. Morreria o corpo do meu filho assim, num átimo, um segundo depois do impacto? Ou seus órgãos, músculos e nervos explodiriam, pululando e se desintegrando internamente por algum tempo, o mínimo que fosse, em uma jornada de dor até a chegada da morte, que ninguém perceberia a não ser ele mesmo?

A verdade é que nunca saberei o que aconteceu naquele fim de tarde porque o Pedro, definitivamente, estava morto. Só me restava então especular sobre toda a situação e, com isso, alimentar a chama cruel da dúvida. Um sentimento talvez ainda pior do que a própria perda.


Javier Arancibia Contreras é escritor, autor de “Imóbile” (7 Letras), finalista do Premio São Paulo de Literatura.

Ilustração de Gabriela Sacchetto, artista visual.

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