Descrição de chapéu Memorabilia

Recorri a um quadro para suportar peça pesada, conta Zezé Polessa

Obra de Waltercio Caldas ajudou atriz a encontrar equilíbrio durante montagem de 'Quem Tem Medo de Virginia Woolf?'

Zezé Polessa

O trabalho do Waltercio Caldas é sempre um convite à reflexão —ele tem até mesmo uma obra chamada mesmo “Convite ao Raciocínio” (1978), aquele casco de tartaruga atravessado por um bastão. É um artista que tem, em suas inspirações, uma vontade de fazer contato com quem está vendo. Você às vezes não entende por que a obra o convida nem a qual reflexão, mas aquilo fica com você. 

Eu comecei a ver os trabalhos do Waltercio na época em que estudava medicina. Tinha um tio cirurgião que botou na cabeça que seríamos uma dupla na clínica —eu era Maria José, ele era José Maria— e logo no primeiro ano, me chamava para assistir às operações.  E era horrível para mim. Eu desmaiava. 

Aquilo de ficar inconsciente era uma emoção muito forte. Lembro de forma claríssima uma cirurgia ginecológica que, assim que introduziram um instrumento na mulher, veio um jato de sangue no jaleco branco. Parecia uma pintura de Pollock. 

Quando eu vi aquilo, a realidade sumiu, o chão sumiu. A sala de cirurgia era numa casa antiga de freiras, com aquele chão de mármore preto e branco dos anos 1940, e esse piso de repente parecia um tapete sendo puxado. Eu sempre acordava do lado de fora, depois, tomando um cafezinho, após passar por esse intervalo de inconsciência.

Nos anos 1970, neste período de faculdade, fui ver uma exposição do Waltercio na garagem de uma casa. Tinha um namorado que, como eu, gostava muito de arte. Havia uma obra chamada “As Sete Estrelas do Silêncio” (1970), pequenas agulhas de sutura de formatos diferentes, curvas, retas, tudo dentro de uma caixinha. Outra trazia dois bastões que faziam você imaginar aquilo como um detector de sensações. 

Eu me apaixonei pelo artista aí. Porque me remetia a essa experiência com a cirurgia, a esse breu que me tomava. Falou muito comigo. 

Tenho hoje uma serigrafia do Waltercio na sala de casa. A necessidade de possuir uma obra é algo que eu ainda não entendi totalmente. Nunca entendi bem essas casas cheias de obras de arte. Outro dia fui a um apartamento que tinha na sala inteira aquelas obras do Ernesto Neto com sacos de areia que caíam, pendurados. Você tinha que ficar desviando daquilo. Pensei, “será que o cara gosta tanto disso que ele precisa se relacionar mais com isso que com uma luminária?”.

Mas esse quadro do Waltercio... Há cinco anos, eu estava fazendo uma peça muito difícil, chamada “Quem Tem Medo de Virginia Woolf?”, do Edward Albee. Muito difícil. 

A primeira pessoa que eu chamei para ler comigo foi Daniel Dantas, meu ex-marido e pai do meu filho, mas eu não queria que ele fizesse o papel. Nós fomos casados em uma época muito conturbada, por conta da juventude e dos anseios de cada um. Já tínhamos saído disso, estávamos com um relacionamento bom, então eu não queria que ele fizesse meu marido na peça. 

Ensaiei com José Wilker por uns dois meses. Aí ele fez um check-up e decidiu que tinha que parar para se cuidar. Em cima da hora, a duas semanas do ensaio aberto, o Wilker resolveu que não dava para ele. A peça era muito pesada. 

Então me liga o Daniel, que ficou apaixonado pela peça na leitura e leu superbem, e acabei fazendo com ele. Aí fui tendo que tirar algumas coisas: tudo aquilo que tinha trabalhado comigo mesma, tive que ir limpando, limpando, limpando. Com outro ator, não tinha problema. Mas com ele era estranho. Era quase como se fosse um psicodrama.

No meio desse processo, eu vi esse quadro do Waltercio numa galeria do Rio de que gosto muito, a Mul.ti.plo Espaço Arte. 

copo waltercio
Serigrafia sem título de Waltercio Caldas - Reprodução

Era uma série de desenhos muito simples, com poucos traços. É uma coisa linda: um copo com algum líquido, detalhes em verde, bolinhas vermelhas que delimitam o espaço. A peça tem uma ligação muito forte com a bebida e obviamente não se limita a isso, mas nessa coisa de ir limpando, olhei para esse desenho e fiquei apaixonada.

O quadro era uma outra expressão, diferente, daquela experiência de “Virginia Woolf”. Ele para mim era a água, a transparência, a beleza. Existe também dentro daquele casal violento essa dimensão. Albee dizia querer que o público uivasse de rir sentindo dor.

Cada personagem é uma vivência. Você não pode fazer uma peça tão carregada estando desta mesma forma. Naquele momento, eu sentia como se tivesse que ter também essa transparência, essa claridade do quadro, para suportar aquele universo tão pesado. Era um contraponto que, dentro de mim, gerou um equilíbrio. No teatro, era “Virginia Woolf” e na minha casa, aquela imagem. E eu ainda a vejo diariamente. 

Uma obra de arte é algo, afinal, que você nunca acaba de ver. 


Zezé Polessa, atriz, segue com temporada de “A Mentira” no Teatro Frei Caneca, em SP, até 24/11.

Em depoimento a Walter Porto

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