Como uma condessa britânica se tornou a madrinha dos psicodélicos

A cruzada lisérgica de Amanda Feilding, 76, para restabelecer o prestígio do LSD como medicamento

Marcelo Leite

[RESUMO] Amanda Feilding, 76, defende há mais de meio século que compostos psicodélicos vão salvar a humanidade da neurose imposta pelo ego. Ela tem fé na ciência e acredita que a era proibicionista está no fim, mas tem pressa. Para avançar mais rápido, alistou em sua cruzada lisérgica um destacamento brasileiro.

O quarto 224 do Hospital Princesa Grace, em Londres, parece um escritório. Há pastas e caixas de papéis espalhadas pela cama, no chão, sobre a mesinha da paciente falante e animada, Amanda Feilding, 76. A condessa de Wemyss e March —título adquirido em 1995 ao casar-se com James Charteris, lorde Neidpath, sob uma pirâmide egípcia— não se encaixa no figurino de doente, a não ser pelo braço direito enfaixado. 

A visita hospitalar acabou por revelar-se a única oportunidade para uma conversa alongada, como estava programado havia meses. A entrevista coincidiria com a realização da conferência psicodélica Breaking Convention. Amanda, entretanto, caiu doente e teve de ser internada —o que não a impediu de escapar, um dia antes, para dar uma das palestras mais concorridas do evento, sobre microdoses de LSD.

O plano naquela sexta-feira, 16 de agosto, era capturá-la para gravar a entrevista numa sala da Universidade de Greenwich, sede da conferência, pois Amanda deveria viajar no domingo para sua casa na Jamaica (o que acabaria não acontecendo). 

Mas ela se esquivou, precisava trabalhar. No caso, fazer uma reunião com o neurocientista brasileiro Stevens Rehen que se estenderia pelo almoço e boa parte da tarde, para tratar da colaboração científica que ela hoje qualifica como sua favorita.

Semanas antes, ela tivera uma queda enquanto trabalhava de madrugada em seu apartamento londrino. Sofreu múltiplas fraturas nas costas, na área dos ossos sacro e ilíaco, como se constataria semanas depois. Machucou também o braço, mas não deu importância até que o cotovelo começou a inchar.

Uma tentativa de drenar o fluido rompeu a pele frágil e deu origem a uma infecção que antibióticos não conseguiam debelar. Quando surgiu risco de septicemia, a internação se tornou inescapável. “Tudo a ver com ser uma workaholic”, diz, entre risos.

O suíço Albert Hofmann, que descobriu em 1943 o LSD, com Amanda Feilding, 76, condessa de Wemyss e March.
A condessa Amanda Feilding visita na Suíça o químico Albert Hofmann (1906-2008), descobridor do LSD - Beckley Foundation/Divulgação

Tanta dedicação se dirige à Fundação Beckley, criada por ela em 1998 com o duplo objetivo de restabelecer o prestígio do LSD como medicamento, algo que se perdera nos anos 1970 quando o ácido lisérgico foi proibido, e promover uma reforma das políticas de drogas mundo afora.

Amanda tomou LSD pela primeira vez em 1965, quando ainda era legal, e desde então se convenceu do potencial dos psicodélicos. O LSD seguiu como o preferido: “Vi como ele consegue ir fundo na alma”. O interesse por estados alterados de consciência, entretanto, começara bem antes.

Beckley, nome da fundação, vem da propriedade da família a uma hora de Londres. Um refúgio de caça medieval em estilo Tudor, com três fossos, bonito e isolado. “Meus pais tinham a casa, mas nenhum dinheiro. Vivíamos lá sem aquecimento central, era uma vida divertida. Voltei-me para dentro. Meus interesses eram budismo, misticismo, esse tipo de coisa”, relembra a condessa.

Amanda frequentou a escola do vilarejo e depois um internato de freiras, que lhe negavam acesso a obras sobre budismo da biblioteca. Aos 16 anos, decidiu viajar ao Sri Lanka, só com 25 libras esterlinas na bolsa, para encontrar um padrinho que se fizera monge budista, mas não chegou lá. Ficou retida por aventuras nos desertos do Egito e da Síria com beduínos e dançarinos dervixes.

Ao voltar para o Reino Unido, dedicou-se a estudar religiões comparadas em Oxford. Encontrou um mentor em Robert Charles Zaehner, que escrevera o livro “Misticismo, Sagrado e Profano”.

O professor havia experimentado mescalina, composto extraído do cacto peiote que abriu para Aldous Huxley “As Portas da Percepção”. Zaehner, porém, concluíra que a experiência psicodélica era diferente do êxtase místico alcançado com danças, mantras, meditação ou jejum. “Depois, quando tomei LSD, percebi que realmente era uma experiência mística, muito similar à dos místicos”, conta Amanda.

ilustração
Ilustração - Rodrigo Visca

Logo depois de sua iniciação lisérgica, ela conheceu o pesquisador holandês Bart Huges. Com ele tomou partido de uma teoria para explicar estados alterados de consciência, segundo a qual resultariam do aumento de vasos capilares no cérebro e do influxo de glicose e oxigênio para as células nervosas.

Para Huges, essa circulação desimpedida permitia relaxar o mecanismo do ego descrito por Sigmund Freud, que na concepção do holandês decorreria de um reflexo condicionado a palavras e seus sentidos que dirigia o sangue para áreas específicas do córtex, controlando o que chega à consciência.

Amanda apaixonou-se pela ideia, que ainda hoje faz seus olhos brilharem e a levou, naquela época, a empreender uma trepanação. Abriu um orifício no próprio crânio para favorecer a pulsação natural dos vasos capilares. Lançou-se de cabeça no estudo de psicologia, fisiologia e neurociência, mas bem ao estilo dos anos 1960.

“Comecei a experimentar. Vivíamos de LSD, antes de ser ilegal, estudando diferentes aspectos da humanidade em nós mesmos. O que faz dos seres humanos o que são, brilhantes e, ao mesmo tempo, de certo modo, um desastre, com essa neurose e psicose que subjaz à humanidade”, conta.

“Minha paixão se tornou estudar o ego, seus mecanismos básicos, como ele nos controla. Com os psicodélicos, pode-se chegar ao trauma na raiz. Passei três anos psicanalisando a mim mesma, lendo Freud e outros autores, sendo doutor e paciente ao mesmo tempo.”

Hoje se sabe que por trás da ação do LSD está sua afinidade com um receptor, o 5-HT2A, específico para o neurotransmissor serotonina, importante na regulação do humor e também um vasoconstritor. Embora se associe o ácido a manifestações visuais, o potencial terapêutico ora em investigação do composto descoberto em 1943 pelo suíço Albert Hofmann tem mais a ver com o acesso facilitado a emoções, pensamentos e lembranças —inclusive traumas— normalmente indisponíveis para a consciência.

“Tivemos de aprender esse comportamento antinatural para que o macaco pudesse caçar em grupo. O autocontrole nos permitiu chegar à Lua e fazer o que fazemos, mas também traz a maldição que faz de nós um animal neurótico”, explica Amanda, a seu modo. “Quem diz que o mundo ao qual nos condicionamos tem algum sentido?”

Para ela, o condicionamento do ego, a contenção propiciada por ele, ergue uma nuvem, um véu, entre os humanos e a realidade. Isso faria de nós um animal perigoso: “Quem é que vai nos condicionar? Não somos um animal confiável, mas somos brilhantes, uma ameaça para nós mesmos e para o resto do planeta”.

Qualquer um que tenha tomado LSD se reconhece na experiência de relaxamento da repressão, que no caso de doses altas costuma ser descrita como dissolução do ego. Um frêmito se propaga do peito à mente, rebaixando as defesas e inundando-a com um vagalhão de lembranças, imagens e emoções inesperadas. Nem sempre agradáveis, por certo (daí as viagens ruins, “bad trips”).

A demanda pelo autoconhecimento em pílulas —na realidade, pedacinhos de papel embebidos, os “blots”— se tornaria popular entre jovens da década de 1960, no movimento da contracultura. Tão popular, em seu ímpeto corrosivo, que motivou o revertério conservador da década seguinte, quando proliferaram os relatos de casos raros de acidentes e a substância, demonizada, terminou proscrita por toda parte.

A proibição exterminou também a experimentação científica com o ácido lisérgico, que vinha apresentando resultados promissores no tratamento da dependência de álcool. Amanda relata como se livrou da de nicotina, após viciar-se aos 13 anos: “Decidi parar numa viagem de LSD, nunca mais fumei um cigarro. Pude ver como o LSD pode ser usado para incrementar a própria intenção, levá-la a um nível superior”.

A condessa diz ter visto a proibição chegando, “um grave erro”, porque teria impedido ao Ocidente aprender a empregar os psicodélicos e todo seu potencial de maneira inteligente, como fazem povos tradicionais. Por isso Amanda decidiu que o único jeito de seguir adiante era fazer a melhor ciência e explorar como esses compostos funcionam no cérebro e podem ser um benefício para a humanidade.

No início dos anos 1980, contudo, a pesquisa psicodélica se tornara tabu, assim como o termo “consciência” virara palavrão no mundo científico. Amanda conta que ouviu de Francis Crick, codescobridor com James Watson da estrutura molecular do DNA, a recomendação de jamais mencionar o termo num pedido de financiamento.

Sua saída foi criar uma instituição, a Fundação Beckley, para seguir com o que considera sua missão na vida. Também almeja, com ela, cumprir a promessa feita a Hofmann de reabilitar seu “filho problemático” (título que o suíço escolheu para um livro autobiográfico sobre o LSD).

Como era impossível fazer ciência com psicodélicos, pois os pesquisadores perdiam os empregos ou as verbas, Amanda dedicou a fundação, inicialmente, a montar um cavalo de Troia: mudar a política global de drogas. “Um desastre, uma catástrofe, um câncer no mundo a desestabilizar países, causar mortes, violência terrível, corrupção, problemas de saúde pública.”

Seu interesse particular eram os psicodélicos, postos na mesma categoria da heroína, da metanfetamina e da cocaína, todos sob um rótulo do mal, “drogas”. Isso embora se tratasse de compostos muito pouco tóxicos e incapazes de causar dependência, contrariamente ao que professa o senso comum, e que portanto deveriam, na sua avaliação, ser removidos da categoria.

 

Os seminários promovidos pela Beckley tinham por alvo políticos e personalidades. Foram influentes na formação de um movimento de revisão que culminaria na Iniciativa Global para Reforma da Política de Drogas.

Amanda diz acreditar que também no campo da ciência começou uma reviravolta. Surgiu discretamente nos anos 1990, com o advento das técnicas para obter imagens do cérebro, como a tomografia por emissão de pósitrons (PET) e, depois, a ressonância magnética funcional (fMRI).

“Uma ferramenta nova, incrível. Cresci como artista, como pintora, e vi que as imagens forneciam um correlato para o que se passava no cérebro, para a experiência subjetiva”, rememora. “Mas, para ter acesso a imagens do cérebro, eu precisava colaborar com pesquisadores.”

Ela já contava, no conselho da Beckley, com neurocientistas de renome como Colin Blakemore e David Nutt. Com o primeiro buscou abrir um centro de estudos psicodélicos na Universidade de Oxford, mas precisava de 4 milhões de libras que a Beckley não conseguiu levantar.

Em 2005, ela abordou Nutt, especialista em dependência química, e sugeriu que colaborassem em estudos com psicodélicos na Universidade de Bristol. Três anos depois, montaram o Programa de Pesquisa Beckley/Imperial College, em Londres, para o qual Nutt se transferira. Nos 11 anos seguintes, a colaboração frutificaria em vários estudos inovadores, tendo Amanda como coautora. Em abril de 2019, o Imperial criaria seu pioneiro Centro para Pesquisa Psicodélica. 

No Imperial teve lugar uma série de pesquisas com imagens do cérebro sob o efeito de psicodélicos como LSD, psilocibina, MDMA e DMT. Eles ajudaram a estabelecer a ideia de que esses compostos agem desativando a chamada rede do modo padrão (DMN, sigla em inglês para “default mode network”), um circuito de comunicação entre regiões neurais específicas associado com introspecção, que se torna hiperativo e disfuncional em várias condições mentais, como a depressão.

O programa Beckley/Imperial realizou o primeiro estudo, ainda preliminar, a usar a psilocibina dos cogumelos para tratar pacientes com depressão crônica e resistentes aos medicamentos disponíveis (SSRIs, ou inibidores seletivos de recaptação de serotonina).

Nutt e Robin Carhart-Harris, que hoje dirige o centro do Imperial, obtiveram resultados animadores: 8 dos 12 pacientes apresentaram melhora após uma semana e 7 ainda relatavam efeitos benéficos três meses depois. Mas o teste ocorreu sem um grupo de controle, em que alguns participantes recebem placebo.

Esse é o padrão ouro em pesquisa biomédica, o esquema duplo-cego um tanto dificultado pelos óbvios efeitos dos psicodélicos, que nenhum placebo pode imitar (fica claro aos pacientes se tomaram a droga ou não).

A primazia na comparação de psicodélicos e placebo para tratar depressão coube, em realidade, a um grupo brasileiro centrado na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Pesquisadores do Instituto do Cérebro da UFRN publicaram em 2018 um estudo com 29 pacientes deprimidos, 14 tratados com ayahuasca (chá que contém o psicodélico DMT) e 15 com placebo. No primeiro grupo, 9 mostraram melhora; no segundo, só 4.

O líder da pesquisa, Dráulio Araújo, teve entre os coautores Luís Fernando Tófoli, da Unicamp. Araújo colabora em outros estudos psicodélicos com Sidarta Ribeiro, do mesmo instituto potiguar, e Stevens Rehen, da Universidade Federal do Rio de Janeiro e do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino —o quarteto que caiu nas graças de Amanda Feilding.

“Hoje a minha colaboração favorita é com o grupo brasileiro. Conhecia bem Sidarta, e é óbvio que eu precisava trabalhar com um neurocientista chamado Sidarta”, brinca a mulher que descobriu os estados alterados de consciência pela via da religião budista.

Ela e eles estão de olho em investigar como o LSD afeta a criação de neurônios (neurogênese e neuroplasticidade), portanto o aprendizado e o incremento cognitivo —inclusive em seres humanos. “Com os brasileiros vamos expandir isso, com os minicérebros de Stevens e os ratos de Sidarta. É um time brilhante para se trabalhar: aberto, energético, maravilhoso, entusiasmante.”

Tais estudos vão aprofundar “incrivelmente” o entendimento, espera a condessa, de como esses compostos, em especial o LSD, podem ser valiosos inclusive em outras áreas. Na mira da senhora estão doenças neurodegenerativas como demência, Alzheimer e Parkinson.

O grupo brasileiro tem lugar de destaque na base do plano de pesquisa da Beckley, os estudos pré-clínicos. Mas a fundação tem no programa dois outros braços.

Um é a microdosagem, uso continuado de LSD em quantidades menores, moda que se espalhou pelo Vale do Silício e teve em Amanda uma pioneira. Neste caso, a colaboração se dá com a Universidade de Maastricht, da Holanda.

“Sempre chamei o LSD de psicovitamina, porque ele expande como você se sente, melhora o seu humor. Você pensa melhor, fica mais focado, mais interessado em seus próprios pensamentos, as relações se tornam mais interessantes por causa dos vários pontos de vista”, defende.

Ela está interessada em estudar microdoses em vários campos: criatividade, dor, resgate cognitivo de pessoas resvalando para a demência. “Talvez consigamos reverter o advento da velhice.”

O outro braço, estudos clínicos de psicoterapia assistida por LSD, tem por alvo novos meios de tratar dependência de opioides e álcool, além de depressão e ansiedade de pacientes terminais. Amanda já iniciou ou busca parcerias com universidades e institutos em vários países, de Austrália, Espanha e EUA a Reino Unido, Rússia e Suíça. Além do Brasil, claro.

Para realizar tudo o que planeja, ela estima que a Beckley precisaria de 1,5 milhão a 2 milhões de libras por ano. “Migalhas, para pessoas ricas.” Só para pagar salários e manter estudos em andamento, são 400 mil libras anuais.

“Quando a insanidade [proibição] se instala, leva muito tempo para ser desfeita. Por sorte, acho que estamos num período melhor, superando isso. Espero que não leve outros 50 anos. Eu quero fazer muita pesquisa boa nos próximos cinco anos.”

A ciência, para ela, é a nova religião. Perdemos a religião e ganhamos a ciência, costuma dizer. O que houver de errado com a humanidade, acredita, encontra-se em nossos cérebros. Algo estaria mal organizado aí. Como aperfeiçoar a consciência?, pergunta. “Através dessas dádivas, os frutos dos deuses.” 


Marcelo Leite, colunista da Folha, é doutor em ciências sociais pela Unicamp e autor dos livros “Promessas do Genoma” e “Ciência – Use com Cuidado”.

Ilustrações de Rodrigo Visca, artista visual.

Erramos: o texto foi alterado

Versão original deste texto atribuía erroneamente a Amanda Feilding menção à Comissão Global sobre Política de Drogas. Na realidade, ela se referia à Iniciativa Global para Reforma da Política de Drogas, da própria Fundação Beckley.
 

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