Nobel realça verve polemista e obra iconoclasta de Peter Handke

Austríaco apoiou ditador Milosevic e, como escritor, jogava nas fronteiras da palavra e da imagem

Pablo Gonçalo

[RESUMO] Principal prêmio da literatura mundial concedido ao austríaco Peter Handke realça trajetória controversa do autor, marcada pelo apoio ao ditador Milosevic, pela verve polemista e iconoclasta e pelo jogo entre as fronteiras da palavra e da imagem.

Numa rua úmida, três soldados sérvios carregam fuzis. A imagem compõe uma fotografia de 1992. Eles estão em uma esquina de Sarajevo. Dois olham para longe. Um deles está de costas, com a perna levantada no instante de um chute, que logo acertará um dos três homens deitados no chão, rendidos, com as mãos entre as cabeças. 

A foto de Ron Haviv é um símbolo do massacre sérvio contra croatas e bósnios muçulmanos durante a Guerra da Bósnia. Em “Je Vous Salue Sarajevo” (1993), um curto poema fílmico, Jean-Luc Godard parte dessa foto, recorta-a em pequenas cenas, para, com a sua voz rouca, registrar um famoso aforismo. 

Há a cultura, que é a regra. Há a arte, que é a exceção. Todos querem a cultura: computadores, turismo, guerra. A exceção, contudo, não é dita, mas escrita (por Flaubert, Dostoiévski), composta (Gershwin, Mozart), filmada (Vigo, Antonioni), pintada (Cézanne, Vermeer). A exceção é vivida, por mais que uma cultura europeia, diz Godard, insista em organizar a depreciação da arte de viver. 

Em outubro, a foto de Haviv e o curta de Godard vieram-me imediatamente à memória. A lembrança se deu no anúncio do Nobel de Literatura a Peter Handke, escritor austríaco que durante a Guerra da Bósnia apoiou publicamente o ditador iugoslavo Slobodan Milosevic, chefe político dos soldados da foto de 1992. 

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O escritor austríaco Peter Handke posa no subúrbio de Paris logo após ganhar o Nobel - Alain Jocard - 10.out.2019/AFP

Milosevic, apelidado de “carniceiro dos Bálcãs”, morreu em uma cela da prisão da ONU, na Holanda, em 2006. Enfrentava na ocasião um julgamento, sob acusação de crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio, cometidos na Croácia, na Bósnia e em Kosovo durante e depois da violenta desintegração da Iugoslávia nos anos 1990. 

No anúncio do Nobel, o porta-voz do prêmio esquivou-se diante dos jornalistas: o júri reconheceu Handke por motivos puramente literários. Em sua casa, em Paris, Handke elogiou “a coragem” do prêmio dado pela coroa sueca.

Na imprensa europeia e norte-americana, foram resgatadas suas infelizes manifestações sobre o episódio da Bósnia. No Twitter, em coro, chamavam-no de negador de genocídio; organizaram-se petições e abaixo-assinados solicitando a revogação do Nobel

Sobre seus ensaios, poemas, romances e peças, encontrei algumas menções esparsas. Na cultura das céleres difamações, a literatura marginaliza-se. Na cultura da premiação literária —tão europeia, branca, cis e masculina—, a política cambaleia; é ora urgente, ora dispensável. 

Há quase uma década venho lendo Handke, cuja obra (que abarca romance, poesia, teatro, roteiro para cinema) foi tema do meu doutorado.

Tive sentimentos ambíguos quando soube do Nobel. Parte era euforia por vislumbrar que ele, sem dúvida um dos notáveis autores da literatura alemã, voltaria a ser lido com o zelo que requer. Outra era um embaraço por hesitar, sem palavras precisas, diante de seus posicionamentos políticos na Guerra da Bósnia. 

Lembrei que a trajetória literária de Handke já nasceu eivada pela polêmica. O Gruppe 47 reunia os principais autores alemães do pós-guerra —Peter Weiss, Heinrich Böll, Günter Grass— numa tentativa de fazer da literatura uma forma de reconstrução do país.

Com uma intervenção provocadora, Handke afirmou que a prosa daqueles escritores sofria de uma “impotência descritiva” e que o projeto do grupo estava fadado ao fracasso. Era 1966, Handke tinha então 22 anos, franjas cortadas à moda dos Beatles —um enfant terrible provocando os salões literários germânicos.

Poucos meses depois, estreava a peça “Insulto ao Público”. Dessa vez, a polêmica invadia o palco, a cena, a passagem do mundo do teatro ao teatro do mundo. Quatro atores refutavam o papel de personagens e avisavam que, até o final da peça, xingariam a plateia. 

Os palavrões eram abertamente políticos. Com frases curtas, cortantes, velozmente encadeadas em jogos de linguagem, Handke trazia para os palcos as performances do Wiener Gruppe, que abalavam as estruturas de um modo de representação convencional, que fingia ignorar a presença do espectador. 

Paulatinamente, Handke consolidou-se como um dos principais dramaturgos do século 20, afastando-se de uma tradição aristotélica, que articulava enredo com mudanças nos personagens, e de uma vertente mais brechtiana, que buscava interpretar grandes molduras históricas a partir do enredo e do seu estranhamento. Com Handke, o teatro demora-se mais detidamente na sua química imagética, nos quadros e nas cenas evocadas por suas palavras.

Há peças mudas, há roteiros que contam histórias a partir de paisagens e há a busca de uma poesia oral que atualize a tragédia grega para o alemão contemporâneo. Suas peças, por outro lado, sempre encadearam amplas discussões públicas, celeumas, brigas. Curiosamente, esse recente capítulo do Nobel para Handke alude a uma forma paradoxal de lidar com a cena pública. 

O escritor austríaco ora inflama o debate quando entra em cena, ora retira-se do palco para espelhar aos espectadores seus anseios, suas projeções, seus impropérios.

Em Handke, a reflexão é mais um jogo imagético, luminar —no sentido físico, da luz que colide, retorna, dissipa-se—, entre espectador e espetáculo, do que algo puramente intelectual. É pela imagem, e num contraponto entre imagens ausentes e a presença do verbo, que seu teatro e sua literatura miram uma inusitada duração.

A obra de Handke, no entanto, nunca se restringiu às polêmicas. É na sua prosa dos anos 1970 que ele passa a ser um dos principais porta-vozes do chamado novo subjetivismo. Em “Bem-Aventurada Infelicidade”, conta o suicídio da sua mãe, o último bilhete que ela lhe enviou, as descrições do seu enterro, como ele próprio fracassou ao não saber lidar com a depressão materna. 

Na prosa e no ensaio, sua narrativa em primeira pessoa torna-se uma isca para uma depuração das imagens, que se furtam de uma tentação meramente confessional. Pouco a pouco, Handke transforma-se num dos principais escritores contemporâneos de paisagens e viagens. 

Em “Breve Carta para um Longo Adeus”, lança seu autor-personagem numa longa peregrinação pelos Estados Unidos. Vê as paisagens que habitam os filmes de John Ford e os quadros de Edward Hopper. Com “História da Infância”, narra sua experiência como pai solteiro e o tempo da criança que se descortina na puerilidade dos questionamentos infantis, enquanto os vícios adultos disseminam seus traumas pessoais.

Em o “Mestre de Sainte-Victoire”, Handke compartilha sua trajetória até Aix-en-Provence para ficar olhando, perplexo, contemplativo, a montanha de Paul Cézanne e com ela encontrar um gesto literário que lampeje uma utopia. Na sua primeira pessoa germina uma das melhores fontes da chamada autoficção, gênero tão presente em muitos escritores brasileiros contemporâneos.

Certa vez, durante minha pesquisa de arquivos, encontrei um cartão postal que W.G. Sebald enviou a Handke. Era uma foto da pintura “O Andarilho”, de Vincent van Gogh, e atrás havia uma mensagem de Sebald agradecendo-o pela “luz” que passou a ver depois da leitura de “A Repetição”.

Nunca se conheceram, e hoje penso que um Nobel a Sebald, merecidíssimo, unânime, não causaria espanto algum, mas tampouco destacaria a influência de Handke naquela rebuscada obra. 

Tanto em Sebald, um autor hoje mais conhecido do leitor brasileiro, como em Handke a imagem literária ocorre em lampejos do movimento do sujeito-escritor no mundo. Uma literatura que requer movimento, uma misteriosa forma de caminhar com as palavras, que engata uma outra aventura literária. 

Sebald, contudo, esmera-se numa ética com a história, com o passado, na forma como os traumas inscrevem-se nas paisagens, nos dolorosos trilhos e dormentes que coligam os fantasmas de uma Europa bélica e antissemita. Há, em Handke, diferentemente, uma ética marcada pela invenção de uma forma de estar no mundo, uma imagem que se instala durante a metamorfose, um gesto de abertura, uma transformação interior diante do peso do mundo e do seu dilaceramento.

Por isso a fronteira sempre foi um tema e mesmo uma imagem recorrente na sua obra. Handke nasceu em 1942 em Griffen, cidade que marca a divisa entre a Áustria e a Eslovênia. É filho de um soldado nazista, que por lá passou durante a Segunda Guerra Mundial. 

Durante sua infância morou por dois anos na Berlim do pós-guerra. O costumeiro som de aviões sobrevoando as cidades em suas obras remete a esse contexto. Assim como seu roteiro para “Asas do Desejo” (1987), coescrito e dirigido por Wim Wenders. Nesse filme premiado, as crianças, perplexas, veem os anjos que sobrevoam os muros da cidade. Diante da guerra e suas ruínas, primou por uma ética do silêncio, um resguardo de imagens não traduzidas em palavras.

A fronteira, na obra de Handke, resvala numa escolha estética e existencial. Em “A Tarde de um Escritor”, Handke conta de uma crise em que não consegue mais escrever e uma decisão de abandonar a escrita tradicional, no sentido de representar um mundo, para apenas traduzi-lo. 

A escrita, nessa sua desistência, declina-se como uma forma de permanecer no átrio, num não lugar representativo, de sublinhar tão somente essas passagens ou de borrar as fronteiras que separam a escrita da pintura, a palavra da imagem cinematográfica.

Volto à foto de Haviv. Revejo “Je Vous Salue, Sarajevo”. Noto que os artistas citados por Godard são homens, brancos, quase todos europeus, gênero, cor e origem que o Nobel costuma reiteradamente reconhecer. Godard, contudo, persiste na exceção, numa literatura que esteja precisamente nesse estranho lugar do não dito, que contenha inomináveis multidões. 

Ao sucumbir a um arroubo de filiação e identidade cultural, Handke caiu nas redes do equívoco que sempre evitou: dizer apressadamente o que ainda solicitava depuração. À sua maneira, no entanto, ele soube compartilhar um instigante jogo de perguntas. O que é a palavra diante de fuzis apontados para civis? O que pode a literatura perante o horror da guerra? Será que realmente precisamos de cânones e modelos para nossos comportamentos éticos?

No espanto dessas questões, opto por mantê-las no ar —e vislumbro somente uma densa névoa na imaginária linha que distingue a cultura da arte, entre as regras e exceções dos nossos julgamentos estéticos e políticos. Prêmio algum, afinal, é motivo para condenar uma obra. Nem para absolver os inaceitáveis deslizes de uma biografia. 


Pablo Gonçalo, professor de audiovisual na UnB, é autor de “O Cinema como Refúgio da Escrita: Roteiros e Paisagens em Peter Handke e Wim Wenders” (Annablume).

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