Descrição de chapéu Memorabilia

Queria contaminar o cinema clássico por dentro, diz Karim Aïnouz

Cineasta de 'A Vida Invisível' discute como obras que parecem fúteis podem ser politicamente contundentes

Karim Aïnouz

Não estudei para fazer cinema, mas para escrever sobre cinema. Minha relação com contar histórias sempre foi complicada. Achava que me aprisionava a uma certa previsibilidade.

Sempre fui muito crítico em relação a isso, e o que aconteceu agora em “A Vida Invisível” foi que quis tentar outra aventura, usando a arquitetura de uma obra literária. Tive vontade de voltar a uma coisa que me levou a fazer cinema lá no começo: entender como se pode ter algum impacto político fazendo filmes.

Jordan Peele, diretor de “Corra!”, falou uma coisa bonita: “A melhor maneira de convencer alguém de alguma coisa é contando uma história”. Então comecei a fazer as pazes com algo que achei que nunca daria conta. 

Tem dois filmes que eu adoro não só porque influenciaram esse meu último, mas porque têm uma relevância política muito grande.

O primeiro é “Imitação da Vida” (1959), que lembro de ver dublado numa sessão da tarde quando era adolescente. Fui reencontrar esse filme quando estava estudando crítica de cinema nos Estados Unidos, num lugar que se chamava Public Theater, programado por um brasileiro chamado Fabiano Canosa. 

Fui meio sem claquete. Era um ciclo do Douglas Sirk, cujo trabalho eu não conhecia. Mas na época um diretor com quem eu trabalhava gostava muito dele e me sugeriu assistir. 

O filme começa com uma sequência de créditos com diamantes caindo na tela, um negócio absolutamente encantador. E é um filme muito colorido, com uma posta em cena fascinante. É a história de uma mulher negra, interpretada por Juanita Moore, que encontra uma branca, Lana Turner, na praia de Coney Island. As filhas das duas se perdem e as mães acabam ficando amigas. 

O tempo passa e a personagem da Juanita começa a trabalhar na casa da outra como governanta, mesmo ambas tendo dificuldades financeiras. Elas se ajudam, e as duas filhas são criadas juntas, só que a da governanta é mestiça, de pele bastante clara. E cresce com muita vergonha de ter uma mãe negra.

Ela vai embora de casa, abandona a mãe de uma maneira muito cruel —e ela continua louca pela filha, vai atrás dela, é expulsa. É desesperador. A personagem da Juanita acaba morrendo e a filha chega tarde demais para o enterro. A cena final é praticamente uma ópera.

Fiquei impactado com a maneira como um filme que parecia um drama de família muito fútil, colorido, bobo, podia ser algo tão politicamente contundente. Foi um dos filmes mais fortes que vi sobre racismo nos Estados Unidos, de uma perspectiva muito subjetiva. O poder desse filme, que parecia superficial, me impactou a ponto de eu nunca ter esquecido o que senti ao vê-lo.

Revi “Imitação da Vida” muitas vezes, nem vi a versão original de 1934. A do Sirk me encantou, até porque me lembrava um pouco as novelas brasileiras. Essa minha memória da sessão da tarde me trazia a uma época em que eu via muita novela. E ali eu já estava vivendo nos EUA, no momento politicamente vivo do começo dos anos 1990, com a explosão do HIV e do movimento queer

Então fui descobrir e estudar a obra do Sirk a partir desse filme. Influenciou muito meu percurso no cinema. Quando eu comecei, queria fazer um cinema explicitamente político, documental. Minha tese de mestrado foi sobre um filme inglês que retratava as manifestações contra imigrantes num subúrbio. Mas “Imitação da Vida” fez meu olhar se deslocar para um cinema que pode ser extremamente político, mas não de maneira frontal. Algo naquele melodrama me chegou entre o fígado e o coração.

Entendi depois que a obra do Douglas Sirk se desdobrava na de um cineasta alemão que eu já adorava, mas não sabia que havia uma relação: Rainer Werner Fassbinder

Depois de ligá-lo com Sirk, descobri o filme “O Medo Devora a Alma”, de 1974. Ele fala de imigração árabe na Alemanha na década de 1970, e eu sou metade argelino, talvez tenha me tocado a mais por isso.
Fassbinder faz um melodrama brechtiano, melodramático nos códigos, mas com um distanciamento crítico. Descasca todas as camadas de decoração que há no Sirk.

E essa obra tinha algo que me era muito fascinante. Conta a história de uma faxineira de uns 65 anos, com cabelo todo sebento, que entra num bar e encontra uma turma mais pobre que ela. Um marroquino lhe oferece uma Coca-Cola, eles vão dançar e se apaixonam.

Jamais na minha vida eu poderia ter imaginado uma personagem assim, viúva, meio gordinha, faxineira, se apaixonando por um mecânico de 30 e poucos anos. Jamais apostaria nisso se fosse escrever um roteiro. Mas você acredita naqueles personagens e no seu pesadelo —já que nem a família dela nem os amigos dele aceitam a relação.

É um dos filmes mais lindos que já vi sobre imigração. Pega você totalmente no contrapé. O meu fazer cinema virou, de certa forma, tentar decifrar o que é esse lugar, entender a operação dramatúrgica que Fassbinder fez para me tomar desse jeito.

Passei “O Medo Devora a Alma” para todo o elenco de “A Vida Invisível”. Usamos o filme de bússola. Ele opera com um tipo de interpretação que desconcerta, não é naturalista, é um pouco artificial, exagerada. É quase uma ópera discreta.

Além disso, o homem não é ator profissional, enquanto a mulher é uma das maiores atrizes do teatro alemão. Então são dois registros muito distintos. É impressionante o impacto emocional que isso tem. E eu estava procurando essa atuação um pouco desconcertante, em que você não entendesse tanto o que a personagem está sentindo.

É um cinema muito simples na maneira como é executado, com menos recursos e uma dramaturgia mais contundente, como se fazia muito nos anos 1970. Neste momento que estamos vivendo no Brasil, é importante pensar como ser politicamente contundente só com aquilo que a gente tem. 

Em “A Vida Invisível”, eu queria apostar numa linguagem de gênero, com a qual um público mais amplo estivesse habituado. Queria apostar numa forma mais clássica, quase careta, e a partir dali falar sobre temas relevantes no mundo hoje. Contaminar esse cinema por dentro. 


Karim Aïnouz, cineasta, dirigiu “A Vida Invisível”, que venceu a mostra Um Certo Olhar em Cannes e entra em circuito na próxima quinta (21).

Depoimento a Walter Porto.

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