Leia texto de Dostoiévski inspirado em Natal na prisão

Trecho é de 'Escritos da Casa Morta', antes traduzido como 'Memórias da Casa dos Mortos'

Fiódor Dostoiévski

[SOBRE O TEXTO] Fiódor Dostoiévski era um nome promissor nas letras russas quando foi preso, em 1849, aos 28 anos. Condenado ao fuzilamento por frequentar um círculo de pensadores críticos ao czarismo, teve sua pena comutada, passando quatro anos no presídio de trabalhos forçados de Omsk, na Sibéria Ocidental, e mais seis no exílio, onde começou a redigir, com base nos diários e anotações dos anos de cárcere, "Escritos da Casa Morta".

O trecho abaixo encerra o 11º capítulo da obra, "O Espetáculo", em que são descritas as peças de teatro organizadas e encenadas pelos presos no Natal. Lançado anteriormente no Brasil como "Recordações" ou "Memórias da Casa dos Mortos", ganha novo título na tradução de Paulo Bezerra, a sair no primeiro semestre de 2020 pela editora 34. 

A ilustração é uma gravura em branco e preto em que vemos personagens magros, de traços não realistas, meio estilizados, dançando num ambiente um pouco sombrio; a luz que há entra pelo teto e bate em diagonal sobre os dois personagens centrais; são os presos de "Escritos da Casa Morta", clássico de Dostoiévski que ganha primeira tradução diretamente do russo, feita por Paulo Bezerra
Ilustração para trecho de "Escritos da Casa Morta", primeira tradução diretamente do russo, feita por Paulo Bezerra - Alexandre Teles

As cenas eram todas engraçadas e genuinamente divertidas. Se os próprios presidiários não as haviam composto, ao menos cada um lhes acrescentou algo de seu. Quase todos os atores improvisaram por conta própria, de modo que nas noites seguintes o mesmo ator representou o mesmo papel de forma um tanto diferente. A última pantomima, do gênero fantástico, terminava num bailado. Estavam enterrando um cadáver. Acompanhado de numerosa criadagem, um brâmane realizava diversos encantamentos sobre o caixão. Enfim ouvia-se a canção “O Sol no Poente”, o morto voltava a viver, e todos começavam a dançar, tomados de alegria. O brâmane dança com o morto, mas dança de um modo inteiramente especial, à moda brâmane. E assim termina o espetáculo, até a próxima noite. Todos os nossos se dispersam alegres, satisfeitos, elogiam os atores, agradecem ao sargento. Não se ouvem altercações. Todos estão tomados de uma satisfação meio inusitada, até parecem felizes, e adormecem não como de costume, mas com o espírito quase em paz — e qual seria a causa, o que parece? A propósito, isto não é uma fantasia da minha imaginação. É a verdade, a lídima verdade. Bastou que deixassem aqueles pobres homens viver um pouco a seu modo, divertir-se como gente, viver ao menos por uma hora fora das normas do presídio — e o homem experimenta uma mudança moral, ainda que seja por apenas alguns minutos... Já é noite alta. Estremeço e acordo sem nenhum motivo: o velho continua rezando sentado no forno, e vai continuar rezando até o alvorecer; Aliêi dorme sereno ao meu lado. Lembro-me de que até pouco antes de adormecer ele ainda ria, conversava com os irmãos sobre o teatro, e eu, involuntariamente, fixava o olhar embevecido em seu tranquilo rosto de criança. Pouco a pouco vou me lembrando de tudo: do último dia, das festas, de todo aquele mês... e, assustado, soergo a cabeça e olho ao redor para os meus colegas adormecidos à luz trêmula e baça das seis velas do quartel. Olho para os seus rostos pobres, para os seus leitos pobres, para toda essa pobreza e miséria completa — examino — e é como se eu quisesse me convencer de que tudo isso não é a continuação de um sonho repugnante, mas a realidade factual. Porém, é a verdade: eis que ouço o gemido de alguém; alguém levanta pesadamente um braço e faz tilintar os grilhões. Outro estremece em sonho e começa a falar, enquanto o vovô do forno reza por todos os “cristãos ortodoxos” e pode-se ouvir o seu cadenciado, baixo e arrastado “Senhor Jesus Cristo, tende piedade de nós!...”.

“Não estou aqui para sempre, mas apenas por alguns anos!”, penso, e torno a deitar a cabeça no travesseiro. 


Fiódor Dostoiévski foi um escritor russo (1821-81), autor de "Crime e Castigo" e "Os Irmãos Karamázov", entre outros clássicos.

Tradução de Paulo Bezerra, tradutor que aprendeu russo em Moscou; apaixonou-se por Dostoiévski lendo "Crime e Castigo", romance que, em 2001, foi o primeiro de seu projeto de traduzir a obra do autor direto do original, pela ed. 34.

Ilustração de Alexandre Teles, artista gráfico e autor de ‘Caligari!’ (Veneta).

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