Descrição de chapéu Memorabilia

Nas horas de desespero eu conversava com um livro, diz Thalma de Freitas

Atriz e cantora indicada ao Grammy, ela conta sobre a obra que ensina a 'despertar o verdadeiro eu'

Thalma de Freitas

Tem certas coisas que a gente não vai conseguir explicar com palavras, quanto mais de um jeito lógico. Em tantas discussões, as pessoas falam e não sabem escutar e se entender. E ao mesmo tempo, eu tenho o compromisso de falar.

As pessoas não reconhecem meu rosto, elas reconhecem minha voz. Mesmo depois de 18 anos de Rede Globo, que é a máquina de lavagem cerebral da cultura em que a gente nasceu, ainda assim se lembram mais da minha voz. Eu me sinto com um compromisso místico com ela.

Sou bem do misticismo. Frequentava uma livraria esotérica cult chamada Pororoca, em Ipanema. Comprava lá meus tarôs, meus incensos, quando queria pesquisar alguma coisa, era lá que eu ia. Sempre escolhi livros com minha intuição. Não achava com os olhos, mas com o corpo do nariz para baixo, passando o dedo na estante. E nunca errei. Tenho fé na sintonia do nosso corpo com o universo.

Assim foi com “Um Curso em Milagres” (1976), que estava guardado numa estante lá no alto. O livreiro, Álvaro Pinto, não estava afim de subir para buscar para mim. Fui eu mesma lá em cima, catei e abri.

Não lembro as palavras exatas, mas começava mais ou menos assim: “Esse é um curso em milagres. Ele é obrigatório. Quando você vai fazer o curso, é com você.” E os pelos da minha nuca iam arrepiando, tudo do cóccix até o pescoço. Termina dizendo algo como: “Nada real é ameaçador e nada irreal existe”. Meu queixo foi no chão. Lembro que era um livro caro, uns R$ 400 na época, mas levei para casa. 

“Um Curso em Milagres” foi escrito por um casal de amigos, e é uma psicografia de Cristo: a mulher [Helen Shucman] começou a receber as palavras e ditava para o amigo [William Thetford] escrever. 

Então na leitura você está basicamente conversando com Cristo, em pessoa, nos nossos dias. Eu digo que é a segunda vinda d’Ele. E era óbvio que ele não ia voltar do mesmo jeito. Ele não pertence a esta Terra, o que veio fazer aqui da primeira vez foi tipo uma tese de doutorado.

Sempre fui tocada pelo espiritualismo, mas nunca gostei da ideia de ter uma religião. Nenhuma me apetecia, porque gostava de todas. Sou louca pelo livro do Gênesis, é uma coisa que pira meu cabeção. Agora eu sou do candomblé, mas é muito recente. O que amo é justamente que não tem um livro. É a tradição oral, é a pessoa na espiritualidade dela fazendo parte de uma egrégora.

Os deuses estão chamando seus filhos de volta para perto deles, porque vamos precisar nos religar a eles de verdade —não como business nem como política— para sobreviver como espécie. A gente precisa lembrar de onde veio para conseguir voltar para casa. Quem está evoluindo hoje são as máquinas, não nós. 

Esse livro serve para isso. É um curso de 365 dias, com exercícios, que basicamente serve para despertar o verdadeiro eu na pessoa. Sintonizar seu corpo e alma com o derradeiro Espírito Santo. É um livro profundamente cristão, mas não é ligado à Igreja Católica. As pessoas costumavam ler escondido, com a capa tapada para os outros não saberem.

Eu levei uns cinco anos para deixar de ter medo dele. Tinha reações horríveis, ojeriza, achava que era uma balela. Mas uma comichão sempre me trazia de volta para ele. Aí lia um capítulo, acabava dormindo três horas no meio do dia.

Isso foi no início dos anos 2000. Já fazia novela, mas tinha épocas com muito tempo livre. Minha vida social era aberta, e a particular, muito fechada. Era uma eremita-celebridade. Podia passar três meses em casa quando estava em férias. E, principalmente nos meus picos de depressão, me enfiava nos livros.

Depois que eu quebrei o gelo com “Um Curso em Milagres”, ele passou a ser um livro com que eu conversava. Em especial em momentos de desespero. Quando precisava ouvir alguma coisa, abria em qualquer página, e ele sempre me dava a resposta ao que eu estava perguntando. 

Eu nunca tive emprego regular na vida, só na Rede Globo, para ser talento estratégico. Por ser tão dependente de as pessoas gostarem do que eu faço para poder trabalhar, era minha obrigação fazer coisas que tivessem valor para a humanidade. E o que presta são coisas filosófica e espiritualmente interessantes. Que inspirem as pessoas em um nível parassimpático.

Esse livro fortalece a minha fé na fé em si. Quando você aceita que é uma psicografia de Cristo, pronto, de repente você é louco. Eu vou assumir que eu sou louca, eu e um montão de artistas. Mas que tipo de louca eu sou? A que acredita que o Espírito Santo existe e está dormente no coração de todos os homens. 

É o livro mais importante que eu tenho. Eu dou para as pessoas, elas acham que eu sou maluca, não leem. Não importa. Eu estou feliz de poder falar sobre isso no jornal e alguém poder ouvir. 


Thalma de Freitas, atriz e cantora, está em cartaz com ‘Pretoperitamar’ no Sesc Pompeia até janeiro; seu álbum ‘Sorte!’, com John Finbury, foi indicado ao Grammy de melhor álbum de jazz latino.

Depoimento a Walter Porto.

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