'Pulo do gato' contra desmate da Amazônia depende de tecnologias modernas

Centro de estudos brasileiros de Princeton reúne olhares multidisciplinares para desenvolvimento da região

Área de pasto queimado as margens da Br-319 próximo a Humaitá

Área de pasto queimado as margens da Br-319 próximo a Humaitá Lalo de Almeida - 11.ago.18/Folhapress

João Biehl Rodrigo Simon

[RESUMO] Na contramão de declarações do presidente, pesquisadores de diversas áreas se reúnem na Universidade de Princeton, nos EUA, para mostrar que o desmatamento pode ser detido sem a necessidade de medidas mirabolantes.

Recentemente, o presidente Jair Bolsonaro declarou ser impossível lidar com dois de nossos maiores problemas ambientais. “Você não vai acabar com o desmatamento nem com as queimadas. É cultural”, disse, minimizando o crescimento recorde da destruição na floresta amazônica.

O presidente está errado.

Algo parecido aconteceu nos Estados Unidos nos anos 2000. À época, diante da incapacidade do então presidente George W. Bush em achar saídas para o problema do aquecimento global, vários cientistas apresentaram propostas para reduzir a emissão de gás carbônico na atmosfera.

Vieram da Universidade de Princeton as ideias que se tornaram mais conhecidas. Os pesquisadores Stephen Pacala e Robert Socolow apresentaram um estudo com 15 propostas de mudanças no sistema energético e mostraram que, se ao menos 7 delas fossem adotadas, o problema das emissões se estabilizaria pelos próximos 50 anos, sem necessidade de qualquer ação mirabolante.

“Nenhuma das opções é um sonho ou uma ideia não comprovada”, apontaram em artigo publicado na revista Science em 2004 e, desde então, referência mundial no tema.

O que poucos sabem é que muitas dessas ideias foram inspiradas em pesquisas pioneiras realizadas por colegas brasileiros. 

Na década de 1970, por exemplo, Socolow recebeu no Centro para Pesquisas Ambientais o físico brasileiro José Goldemberg, que, em Princeton, conseguiu demonstrar como, tirando proveito de tecnologias mais modernas, os países em desenvolvimento poderiam crescer sem destruir a natureza.

Um dos exemplos é o uso de etanol em lugar da gasolina, que o brasileiro provou ser economicamente viável. Goldemberg chamou esse tipo de iniciativa de “pulo do gato” (“leapfrogging”, em inglês).

Pensando nisso, Princeton reuniu em seu campus, no estado de Nova Jersey, não apenas cientistas mas também políticos, ambientalistas, lideranças indígenas, representantes do agronegócio e executivos de grandes empresas para discutir as lições que podemos tirar de nossa própria história e propor uma nova visão para a Amazônia.

A ideia do evento, batizado de “O Pulo do Gato para a Amazônia”, era fazer com que o Brazil LAB, em conjunto com outros departamentos de Princeton, atue como catalisador para uma série de soluções viáveis para impulsionar o desenvolvimento socioeconômico e reverter o atual avanço do desmatamento na região.

Durante o encontro, ocorrido no mês de outubro, os pesquisadores mostraram que a situação atual é grave e que a destruição da floresta vem batendo recordes —como confirmaram os dados do sistema de monitoramento Prodes divulgados em novembro.

Um dos organizadores do evento, o coordenador do Mapbiomas (projeto de mapeamento anual da cobertura e uso do solo do Brasil), Tasso Azevedo, apresentou dados que indicam que 23% da área desmatada entre 1988 e 2014 foi abandonada; 63% se transformaram em pasto de baixa produtividade. Apenas 14% tiveram uso produtivo, o que demonstra uma maneira ineficiente de uso dos recursos naturais.

Os estudos também indicam que o futuro do país será ainda mais sombrio se nada for feito para deter o desmatamento. Inspirados por um trabalho realizado pelo cientista Carlos Nobre, do Instituto de Pesquisas Avançadas da USP, Stephen Pacala e Elena Shevliakova apresentaram os resultados de uma simulação de como ficaria o clima global se a Amazônia fosse total ou parcialmente ocupada pela pecuária.

Realizada no Laboratório Nacional de Previsões Climáticas dos Estados Unidos, a modelagem mostrou que, sem a floresta, o mundo todo ficaria mais quente, inviabilizando cumprir o Acordo de Paris, que tem como meta não permitir que o aquecimento médio da temperatura global chegue a 2ºC, devendo ficar, de preferência, abaixo de 1,5ºC.

No Brasil, além do calor, o volume de chuvas seria 25% menor, afetando também parte do cerrado no Centro-Oeste e no Sudeste, onde está a maior parte da produção agrícola para a exportação, como soja, milho e café. A falta de chuvas acabaria com a chamada safrinha, segunda colheita anual que só é possível graças ao clima brasileiro.

Mas, assim como no caso das sugestões apresentadas ao presidente Bush por Pacala e Sokolov em 2004, no Brasil não precisamos de nenhuma ação mirabolante. Temos todo o necessário para dar o “pulo do gato” na Amazônia e garantir crescimento com sustentabilidade.

Entre 2004 e 2012, o Brasil conseguiu reduzir em 80% o desmatamento na região. Diante disso, o Núcleo de Avaliação de Políticas Climáticas da PUC-Rio mostrou em um longo estudo que o freio na destruição florestal não significou prejuízos para a agropecuária. Ao contrário: enquanto a taxa de desmatamento caiu, o crescimento do PIB do setor nos municípios da Amazônia Legal foi de 218%, sem descontar a inflação.

Segundo Juliano Assunção, que liderou a pesquisa, junto a um maior rigor da Justiça na aplicação de multas, o pilar da estratégia foi a implantação do Deter, programa do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) que usa imagens de satélite para emitir alertas sobre áreas que estão sendo devastadas.

A pesquisa contraria a atual política ambiental do governo brasileiro. Em julho a Folha mostrou que, nos primeiros seis meses do governo Bolsonaro, o número de multas por crimes contra a flora caiu 23% na comparação com a média registrada no mesmo período nos últimos cinco anos.

O presidente também chamou de mentirosos os dados do Deter, enquanto o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, qualificou de sensacionalistas os percentuais de desmatamento medidos pelo Inpe.

Os dados da PUC-Rio, contudo, foram confirmados por Daniel Azeredo, procurador federal no Pará, conhecido pelo seu combate ao desmatamento no estado. Segundo ele, diante da imensidão amazônica e com 23 mil novos casos todos os anos, seria impossível conter o avanço dos criminosos sem o uso da tecnologia.

Na plateia, ao lado de Azeredo, estavam o líder indígena Almir Suruí, pioneiro no monitoramento de florestas, em um projeto em conjunto com o Google Earth, ao lado de seu velho conhecido Roberto Marques, CEO da Natura, e de Hugo Aguilaniu, cientista francês que preside o Serrapilheira, instituto que financia pesquisas científicas no Brasil.

Um pouco mais atrás, o fundador do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia, Beto Veríssimo, conversava com José Scheinkman, professor emérito em Princeton, convocado a dar ideias sobre economia no encontro, que contou também com o diretor de relações exteriores da Vale, Márcio Senne de Moraes, e Domingos Campos, diretor da Norsk Hydro, empresa norueguesa de alumínio e energia renovável.

Ao lado deles estava a coordenadora da Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé, Ivaneide Cardozo, tendo, no centro do auditório, o cineasta João Moreira Salles, os cientistas brasileiros Carlos Nobre e Paulo Artaxo, ambos da USP, e o diretor-executivo da Associação Brasileira do Agronegócio, Luiz Cornacchioni.

Os grupos de trabalho que se formaram no evento já elaboram ideias em três esferas: desenvolvimento econômico sustentável, aplicação da legislação ambiental e pesquisas científicas aplicadas a políticas públicas. Todas terão como norte o conceito de “pulo do gato amazônico”.

Através do Brazil LAB, a Universidade de Princeton quer mostrar que é, sim, possível não só promover desenvolvimento econômico e social como acabar com o desmatamento e com as queimadas na Amazônia.

Ideias ainda contam. 


João Biehl é professor titular do Departamento de Antropologia e diretor do Brazil LAB na Universidade de Princeton.

Rodrigo Simon é jornalista, doutorando em teoria e história literária na Unicamp, atualmente pesquisador visitante na Universidade de Princeton.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.