VAR leva ao cúmulo o primado dos idiotas da objetividade

Frieza do árbitro de vídeo foi preparada pela ampliação da tática no futebol

Francisco Bosco

Vivo estivesse, Nelson Rodrigues estaria estrebuchando de ira na TV, todas as noites de domingo pós-rodada. Seria formidável assistir ao embate do mais épico dos cronistas do futebol com a mais objetivista transformação de suas regras. Nunca antes nesse país o repeteco teria sido tão vilipendiado.

Pois o videoteipe, outrora mantido fora dos limites da fervura do jogo, confinado aos comentários sobre a peleja, ou no máximo a verificações em tempo real (o tira-teima é o ancestral do árbitro de vídeo), a que contudo os árbitros não tinham acesso —pois bem, o videoteipe agora invadiu o gramado, faz parte do jogo, mudou a sua economia. 

Para começar, ele tornou frequente a antes excepcional "falsa euforia de um gol anulado", como cantava o samba. Os torcedores do Flamengo, na partida de ida da semifinal da Libertadores, contra o Grêmio, gritaram, pularam e se abraçaram por três vezes... Apenas para se sentarem de novo, murchos e atônitos, após a revisão dos lances pelo VAR. 

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Monitor do VAR é carregado para jogo no Itaquerão, em 2018 - Daniel Vorley/Agif/Folhapress

Boa parte da antipatia gerada pela novidade, é claro, vem daí: o jogo de futebol é como uma música mais ou menos caótica, fragmentada, que às vezes forma uma tensão harmônica, e quando essa tensão se anuncia a pupila do torcedor logo dilata, a tensão se aprofunda, a espinha se apruma, o gol se descortina, a música vai desaguar, a gente sente o grito irrompendo desde o pulmão —e meio que goza dentro sem saber se podia. 

Quase todo gol agora tem um pouco de dúvida. O gozo foi como que escalonado. A gente comemora a primeira vez, desconfiado. E aí espera, mais ou menos tempo, às vezes tempo demais, para confirmar a alegria. Mas, como sabem melhor que ninguém os narradores, tem algo de frustrante na alegria confirmada.

O VAR, portanto, alterou drasticamente a experiência do momento máximo do jogo. Isso não é pouco, mas tampouco é tudo. Ele dispara um tiro pela culatra lá onde menos se esperaria: na dimensão da justiça.

Os atributos definidores da justiça são a universalidade e a proporção. A universalidade é a parte da lei: a garantia de que as regras valem, da mesma maneira, para todos. Isso, é claro, o futebol cumpre. Mas a justiça é também equivalência, proporção, justeza entre dois acontecimentos. Fazer justiça a um acontecimento é procurar instaurar outro acontecimento com a mesma medida.

Por isso a dosimetria é um aspecto fundamental da justiça: não se pode condenar a anos de prisão alguém que rouba um frango do supermercado. São coisas muito diferentes. Há aí um erro de medida, de proporção.

Ora, o uso do VAR tem ferido frequentemente esse aspecto da justiça no futebol. Sobretudo nos pênaltis marcados por bola na mão. José Miguel Wisnik, em seu "Veneno Remédio: O Futebol e o Brasil", observa que, diferentemente do que acontece em outros esportes coletivos, no futebol a "performance não é contabilizada". Ou seja, um time pode dominar o jogo, conquistar avanços territoriais, escanteios, acumular finalizações ao gol adversário, ter 70% de posse de bola —e ainda assim perder o jogo.

O gol é um episódio excepcional num mar de "possibilidades não cumpridas". Já a penalidade máxima é, como se diz, meio gol. Ela deveria ser aplicada, portanto, a infrações graves, proporcionais à raridade do evento gol. Infrações que efetivamente tenham impedido um gol em sua iminência.

O que temos visto, entretanto, são pênaltis marcados por bolas na mão acidentais, desferidas de perto do defensor, sem que a mudança da direção da bola tenha impedido uma chance clara de gol.

Essas marcações têm sido revoltantes porque ferem o princípio da proporcionalidade: elas acabam contabilizando lances menores, transformando em iminência de acontecimento máximo, e assim decidindo muitos jogos, o que eram apenas fragmentos irrelevantes da peleja que deveriam voltar para o caos de onde emergiram. E segue o jogo.

Note-se que esse é um uso brasileiro do VAR. Na Inglaterra, por exemplo, ele tem sido usado com maior discrição e fidelidade mais restrita às regras da Fifa. Note-se que, quanto à infração por mão na bola/bola na mão, as regras do jogo são tão precisas quanto talvez possam ser.

Elas estabelecem em primeiro lugar o princípio do caráter ativo do gesto: será necessariamente falta se o jogador levar a mão na bola para desviar sua direção. E será geralmente falta se a bola bater na mão ou braço de um jogador em posição tal que ampliou o espaço de seu corpo "de forma antinatural".

A linha de baixo explica o que seria isso: quando o braço e a mão do jogador estão acima da linha de seu ombro, mesmo que o jogador esteja em posição horizontal.

O texto é bastante claro, e contudo temos visto uma série de pênaltis em que a bola é cabeceada por um jogador e bate acidentalmente no braço de outro, sem que este último veja, sem que o leve até a bola, sem que seu braço esteja acima do ombro, e sem que a bola desviada tenha impedido uma chance clara de gol. São lances irrelevantes, transformados em momentos máximos.

Fosse no tênis, no basquete ou no vôlei, esportes em que cada jogo tem centenas de pontos, vá lá, ok. Mas no futebol, onde tudo é sempre por tão pouco, é profundamente desproporcional. 

Aqui, a culpa parece ser mais do uso à brasileira do VAR do que do próprio VAR. Afinal, a regra de mão na bola/bola na mão toma o cuidado de restringir as situações em que isso deve ser considerado infração. O excesso da aplicação da lei, até mesmo a sua distorção para mais, soa como sintoma de fundo cultural: no país em que a lei não pega, em que a lei sofre para se afirmar, exagerar o seu uso é uma espécie de denegação. Onde a lei é uma instituição mais sólida, pode-se usá-la com maior discrição.

Apesar disso, é preciso lembrar que o VAR foi instaurado após anos de progressivas ilegalidades no jogo. Melhor dizendo, ilegalidades sempre houve, mas o avanço tecnológico foi tornando cada vez mais flagrantes os erros da arbitragem. Hoje há dezenas de câmeras filmando cada ângulo do jogo. Nada passa batido. Nem mesmo o som que não se ouve: os jogadores passaram a conversar em campo com as mãos sobre a boca, para não caírem na malha fina da leitura labial. 

Sob essa espécie de panóptico, as ilegalidades do jogo começaram a berrar, e a situação se tornou insustentável. Evidentes muitas vezes, os erros de arbitragem violavam a justiça no futebol. A Fifa, sempre conservadora em face a mudanças de regras, acabou cedendo. Sua resistência entretanto é reveladora. A entidade sabia estar diante de uma mudança que atingiria dimensões fundamentais do jogo.

Só os verdadeiros idiotas da objetividade alguma vez supuseram que, com o VAR, acabariam as suspeitas de ilegalidades numa partida. O ex-árbitro Arnaldo Cezar Coelho popularizou o bordão "a regra é clara". Bordão infeliz, porque lhe falta o complemento transfigurador: mas o jogo é turvo.

Há certamente um rigoroso esforço de clareza semântica nas famosas Regras do Jogo do Ifab (International Football Association Board). Todavia, como sabe a vã epistemologia, a linguagem é uma coisa, o real é outra. 

A regra estabelece, tintim por tintim, o que é falta. Mas o jogo mistura o que a regra separa, turva o que a regra esclarece. Há inúmeros lances em que nossa dúvida, ou a dúvida entre nós, permanece irredutível a 800 câmeras. Mesmo o impedimento, que deveria ser totalmente objetivável, não o é. No limite, precisaríamos de uma câmera ou programa de computador com superaproximação para flagrar eventuais milímetros de diferença. As recentes linhas vermelha e azul permanecem insuficientes.

Um pouco mais cética que Arnaldo Cezar Coelho, a Fifa determinou que o uso do VAR se desse apenas em casos de erros evidentes, flagrantes, incontestáveis. Mas até nisso houve excesso de otimismo: são incomuns esses casos. A grande maioria dos lances de jogo se situa nessa zona cinzenta dos corpos que se tocam e em que seria preciso calcular intensidades, velocidades, fatores não objetiváveis. 

Pior, o VAR às vezes pode até levar a enganos. Daí a expressão "pênalti de VAR", por exemplo. Ela designa uma interpretação de falta que o juiz de campo —desprovido do auxílio das câmeras, mas munido da proximidade que permite avaliar melhor as tais variáveis incontroláveis— jamais daria.

E possivelmente com maior razão. O "pênalti de VAR" é a forma principal da desproporção de que tratei acima. Um juiz de campo tinha maior sensibilidade para a irrelevância, respeitava mais a excepcionalidade do gol, embora estivesse mais sujeito a erros flagrantes.

Com tudo isso, apesar de todas as limitações, o VAR diminui a margem de ilegalidade dos jogos. E contudo ele no máximo angaria resignação moral —em nome do ganho no aspecto universalista da justiça— mas não propriamente simpatia. Sua recepção se divide entre os conformados pacientes ("com o tempo o uso será aperfeiçoado") e os revoltados offline ("quero meu futebol de volta!", "VAR pra merda!"). 

Há mais nessa antipatia do que o "coitus interruptus" e as penalidades desmedidas. Seu gatilho tem a ver com o célebre bordão do grande reacionário, evocado mais acima: "os idiotas da objetividade".

Nelson Rodrigues o cunhou no contexto da assimilação da função do copidesque na imprensa brasileira. Antes dele, "quem redigia um atropelamento era um estilista", cada repórter um "pavão enfático". Diante do regicídio de 1908, em Portugal, o nosso Correio da Manhã estampou cinco manchetes. A última, conta Nelson, compungia-se desabridamente: "Horrível emoção!". 

Os idiotas da objetividade seriam, ao contrário, os que percebem a vida de maneira fria, destituída da riqueza de seus sentidos e de seus afetos. Transportada para o futebol, a lógica designa as abordagens racionais, analíticas, estatísticas, em suma, objetivas. Pois bem, pode-se fazer uma história da objetividade no futebol. Ela tem relação com o VAR e seus impactos na experiência do jogo.

Pedindo licença para incorrer em alguma imprecisão, em nome da correção do sentido geral da coisa, é possível afirmar que o futebol das décadas de formação e dos anos dourados (do começo do século 20 até os anos 1980) era um jogo de amplos espaços.

A relativa baixa condição atlética dos jogadores e a também relativa baixa consciência tática (com exceções, sobretudo a partir dos anos 1970) davam ao jogo uma maior instabilidade, uma vasta margem narrativa, cheia de alternâncias. Os jogos permitiam mais velocidade, o drible e o improviso eram mais decisivos. 

Nos termos de Pasolini, a poesia tendia a se impor sobre a prosa. Daí a hegemonia dos jogadores brasileiros nesse período áureo: somos os poéticos "donos da bola", em oposição aos europeus táticos e prosaicos "donos do campo", na tipologia de Chico Buarque. Entre 1950 e 1990, foram três Copas do Mundo vencidas, mais uma final perdida, e grandes seleções desafortunadamente derrotadas. 

Chamo esse período de áureo porque prevaleceram nele os traços da invenção, da instabilidade e das oscilações narrativas. Invenção: os dribles, as mudanças de direção, os passes varando a defesa por uma linha tênue e até então invisível, as quebras surpreendentes de paradigma (de repente um drible instaura um novo conjunto de possibilidades, inexistente havia um segundo atrás). Instabilidade: as perdas sucessivas da posse de bola, os espaços abertos, a alternância entre ataques e contra-ataques.

Oscilações narrativas: o jogo mais aberto, sob todos os aspectos, era mais propício ao lírico, ao drama, ao épico e ao trágico.

A partir dos anos 1990 vai se formando uma mentalidade mais securitária do jogo. A marcação se acirra, a consciência da ocupação dos espaços se desenvolve, a defensividade prevalece sobre a ofensividade. Os espaços começam a diminuir. Assoma a figura do cabeça de área, meio-campista exclusivamente combativo, sem capacidade técnica para construir o jogo, que a sensibilidade popular, ainda definida pelo período áureo, logo tachou de cabeça de bagre. 

A tediosa Copa do Mundo de 1990, bem como a excelente seleção brasileira de 1994 são exemplos dessa inflexão. O período entre 1990 até meados dos anos 2000 foi marcado por essa mudança no sentido de uma maior consciência da necessidade de ocupação de espaços, com espírito defensivista, mas num estágio tal que ainda permitia ao drible e à qualidade técnica dos jogadores (medida pelas características do jogo no período áureo), imporem-se e revelarem-se decisivos.

A última grande transformação do jogo do futebol, propriamente, deu-se no fim dos anos 2000, e teve como protagonistas Guardiola e o Barcelona de 2008 em diante. Ali, a consciência da ocupação dos espaços foi levada ao paroxismo, ao mesmo tempo em que seu espírito foi invertido.

Pep privilegiou como nunca a posse de bola. Para isso, estabeleceu um jogo apoiado, baseado em meio-campistas de excelente passe e deslocamentos constantes dos demais jogadores para lhes servir de opção. E estabeleceu marcação alta e pressão em todos os setores do campo para retomada da bola. 

Guardiola quebrou o antigo paradigma times ofensivos versus times defensivos. Seu Barcelona praticava um futebol total (houve quem, por isso, o chamasse de futebol fascista), era ao mesmo tempo o mais defensivo, porque não dava a bola ao adversário, e o mais ofensivo, porque ocupava os espaços para recuperar a bola e atacar, passando a maior parte do jogo no campo do adversário.

Tal mudança de sentido da ocupação dos espaços foi muito benéfica ao futebol. Na Europa, sobretudo, os jogos recuperaram, sob novos termos, a beleza, a invenção e até a velocidade. (Pois a intensidade dos jogadores, produzindo maior ocupação dos espaços, tende a subtrair a velocidade do jogo, não a aumentá-la). 

Essa a um tempo longa e breve história foi necessária para construir o seguinte argumento: a objetividade científica do VAR foi precedida, preparada, e talvez até propiciada pela escalada da objetividade dentro do jogo de futebol.

Nas últimas décadas, a tática prevaleceu sobre o improviso individual. Seria errado dizer "sobre a técnica", já que o sentido da técnica mudou: um meio-campista moderno, desses que a gente andou tendo dificuldade de fazer, "et pour cause", nos últimos anos, é tão técnico quanto um Neymar. 

O futebol se tornou mais legível. Em consequência, também a sua abordagem mudou. No lugar da escola rodriguiana, dos comentaristas espontâneos, não especializados, surgiu toda uma geração de analistas táticos sofisticados, cujo patrono é Paulo Vinicius Coelho (para mim não um idiota, mas um mestre da objetividade, embora não destituído de certa "hybris" positivista).

Nesse sentido, o VAR participa de um zeitgeist futebolístico, de um espírito racional, esclarecido, objetivo do futebol —a que portanto ele não deixa de corresponder. 

E, entretanto, persiste no velho esporte bretão certo arcaísmo, irredutível a toda objetividade. No futebol o tempo é contínuo, transcorre como a vida; não é fragmentado como nos demais esportes. Suas regras são mais concisas, joga-se num elemento natural (a grama), há choques físicos com os adversários. Não por acaso Wisnik refere-se ao jogo como um magma, e Nuno Ramos o compara a um rio catastrófico e um mar que ruge.

Há uma espécie de negatividade no futebol que é bastante singular. Tostão, que entende tudo da dimensão objetiva do jogo, nunca deixa de evocá-la, o que aliás o torna o mais equilibrado, mais perfeito entre os comentaristas.

Essa negatividade é o ponto cego da objetividade. É o acaso, por exemplo. Aquele quase imperceptível desvio que fez a bola entrar ou não entrar no ângulo. Aqueles centímetros que anularam um gol por impedimento. Aquele massacre que não se converteu em gol —e o time muito superior acabou perdendo o jogo numa bola vadia.

São os afetos: aquele xingamento que fez o herói perder a cabeça e investir como um bizarro aríete sobre o defensor italiano, desperdiçando uma Copa do Mundo. Aquele nervosismo do time superior diante de um adversário aguerrido, catimbeiro, que torna o jogo exasperante e equaliza superiores e inferiores.

É a torcida, o décimo-segundo jogador. É o torcer, essa mera arbitrariedade imaginária, resultante de identificações e contraidentificações acidentais, contudo convertida em necessidade absoluta ("hei de torcer até morrer", diz a letra do mais belo dos hinos). 

E eram, até outro dia, os erros da arbitragem, as decisões infelizes e irreversíveis. 

Se Nelson Rodrigues tem se revirado no túmulo, é porque o VAR levou ao paroxismo a lógica da objetividade. Com ele, à racionalidade do jogo (ocupação dos espaços, desenvolvimento da tática) e à racionalidade de sua abordagem (estatísticas, mapas de calor, análises de posicionamento) veio se juntar a racionalidade da arbitragem (o assistente científico). É, como mostrei, a última etapa de um processo. 

A antipatia que desperta é o grito atávico da grama e da lama, da sorte e do azar, do tempo inconsútil, das possibilidades não cumpridas, da cera, da cotovelada escondida —em suma, de todo o caldo de negatividade em que se formou a sensibilidade do futebol desde 40 minutos antes do nada.


Francisco Bosco é ensaísta, autor de "A Vítima Tem Sempre Razão?" (Todavia).

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