Descrição de chapéu
Perspectivas

Reação de deputados conservadores escancara o forte poder da arte

Imagem de parlamentar quebrando quadro com charge bem que poderia ter sido uma performance

Daniel Rangel

A imagem de um homem de terno e gravata arrancando da parede de uma exposição e quebrando ao meio o quadro com uma charge do artista Carlos Latuff bem que poderia ter sido uma performance. Seria como uma metacrítica à própria violência retratada, em uma soma de eventos: o desenho que denuncia visualmente e a performance que ativa a obra e evidencia o assunto abordado. 

No entanto o engravatado não era um artista nem seguia um roteiro predeterminado pelo autor da obra. Era o deputado federal Coronel Tadeu (PSL-SP), representante eleito por milhares de pessoas, enfurecido pela charge de Latuff

placa quebrada
Placa com charge que fazia parte de uma exposição sobre o Dia da Consciência Negra na Câmara foi quebrada pelo deputado Coronel Tadeu (PSL-SP) - Pedro Ladeira/Folhapress

Provavelmente alguns dos eleitores do deputado concordaram e mesmo vibraram com sua atitude. O desenho retratava um militar fardado, de costas e com uma arma na mão, e um jovem negro sangrando deitado no chão, enrolado na bandeira brasileira, supostamente vítima da violência policial. 

É fato que o Coronel Tadeu deva possuir inúmeros eleitores que são policiais e que não comungam com a cena representada pelo cartunista. Não hesito em afirmar, ainda, que a maioria dos agentes de segurança e militares, bem como os policiais ou agentes públicos do país, como os deputados, em geral, são pessoas honestas, que cumprem a lei. 

No entanto, creio que o parlamentar tenha quebrado o decoro ao atacar a liberdade de expressão —ainda mais grave, no âmbito do espaço da Câmara dos Deputados, local onde esse direito foi promulgado. 

O acontecimento, contudo, parece já ter sido superado, assim como tantos outros que o precederam ou sucederam no meio cultural. Foi difícil processar todos os acontecimentos no setor da cultura no último ano: uma notícia surpreendente foi rapidamente substituída por outra, ainda mais absurda.

Há cerca de um ano, logo após a eleição do presidente Jair Bolsonaro, escrevi neste mesmo espaço a respeito de rumores que surgiam com relação à política cultural que seria adotada pelo novo governo. 

Naquele momento, apesar de uma desconfiança interna, levantei a possibilidade de as notícias serem parte da enxurrada de fake news das eleições: o fim do Ministério da Cultura; a diminuição de verbas públicas e dos editais federais; os ataques deliberados à classe artística; e, sobretudo, a inacreditável volta da censura. 

Infelizmente, durante o primeiro ano do governo tudo isso aconteceu com as diferentes áreas da cultura, incluindo as artes visuais. O ministério virou secretaria, primeiro alocada no Ministério da Cidadania e recentemente transferida para o do Turismo. Gestores foram trocados com frequência, deixando artistas e produtores atônitos, talvez até como uma estratégia para fazer a máquina não funcionar para o setor.

Nesse ambiente, a censura se tornou tema recorrente, alvo de debate diário, das redes sociais ao Congresso. Instituições culturais e galerias estão em constante alerta quanto ao tipo de conteúdo exposto em seus espaços, com receios de possíveis ataques de conservadores. 

Pior ainda é o impacto que isso possa ter na produção artística, suscitando uma autocensura nos criadores, ao pensarem suas obras. Felizmente, a maioria da classe está atenta e vem utilizando a própria arte e visibilidade como armas de defesa, correndo o risco, algumas vezes, de confrontar seu público consumidor —muitas vezes, paradoxalmente, conservador.

Em um passado relativamente distante, em termos de história da arte, as temáticas daqueles intitulados artistas, pintores ou escultores, eram controladas pelas elites dominantes. 

As obras plásticas estavam restritas à busca pela reprodução da realidade, a chamada mimese, e por interpretações visuais de cenas sagradas da Bíblia. A realidade retratada deveria ser apenas a vida nos palácios e igrejas, imagens da nobreza ou reproduções de naturezas mortas. Naquele período, artistas podiam criar, de certa forma, apenas quando interpretavam as tais cenas bíblicas —e mesmo assim, respeitando certas “diretrizes sagradas”. 

Somente no século 18, em consonância com os primeiros sopros republicanos e democráticos, os artistas começaram a experimentar liberdade de criação e puderam expandir seus temas. A mimese, no entanto, se mantinha como regra e começou a ser questionada apenas no século seguinte, com o impressionismo. O movimento é considerado marco fundamental das vanguardas modernas, que tinham entre suas principais características a valorização da liberdade artística.

Desde então, os artistas se tornaram, gradativamente, investigadores livres, em busca de originalidade, de novas formas, composições, abordagens e materiais. Nesse âmbito, entre os vários gênios que surgiram no período das vanguardas, como Claude Monet, Pablo Picasso e Piet Mondrian, acredito que o francês Marcel Duchamp tenha sido o mais radical deles. 

Duchamp rompeu com a tecnicidade no meio artístico, abrindo o campo para aqueles que não sabiam pintar ou esculpir, mas que possuíam ideias artísticas. A incorporação do objeto comum como obra de arte, o ready-made; do conceito como elemento-chave de criação; e ainda a participação do público na ativação das obras estavam no cerne das teorias duchampianas. 

Nessa perspectiva, o deputado rompedor de quadros poderia até ser perdoado e percebido como um performer, que participou do processo de criação do artista mesmo sem querer. O policial não atingiu apenas o menino ali desenhado: resolveu sair do quadro e atacar a própria obra em que estava representado. 

Uma reação que amplificou o assunto abordado no desenho, escancarando a força da obra e o poder da arte, que, mesmo ameaçada durante todo esse ano que passou, seguiu pulsante e combativa. 

Daniel Rangel

É curador e mestre em artes visuais pela USP.

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