Referência do conservadorismo, Scruton foi um rebelde contra a rebelião

João Pereira Coutinho sustenta que o pensamento do filósofo, morto no dia 12, tem raízes em Rousseau

João Pereira Coutinho

[RESUMO] Autor sustenta que o pensamento do conservador Roger Scruton, morto no dia 12, tem ponto de partida em Rousseau; após deparar-se com a perspectiva de hegemonia do Partido Comunista Italiano e após Maio de 68, o filósofo britânico descobriu-se do outro lado das trincheiras.

1.

O escritor Thomas Carlyle escreveu um dia que a segunda edição do “Contrato Social” de Jean-Jacques Rousseau (1712-1788) foi encadernada com a pele daqueles que se riram da primeira edição. Frase brutal para uma realidade brutal: Rousseau foi o grande precursor da mentalidade revolucionária moderna. Quem não entendeu isso acabou devorado pelos herdeiros espirituais do genebrino.

Roger Scruton entendeu isso e nunca riu de Rousseau. Aliás, se fosse possível fazer uma súmula do pensamento político do filósofo inglês (não é), poderíamos afirmar que as dezenas de livros publicados por Scruton tomam Rousseau, explícita ou implicitamente, como ponto de partida.

Irresistível: o grande propósito da obra de Rousseau foi o de mostrar como a civilização degradou a liberdade natural dos homens. Se nascemos livres e estamos aprisionados em toda parte (a famosa proclamação rousseauniana), isso deve-se à constituição da sociedade civil e a todos os artifícios por ela inventados.

As artes e as ciências degradaram a moral e o caráter dos homens. E a propriedade privada, que nasceu da soberba de alguns em se apropriarem de um mundo que a todos pertencia, foi o grande estímulo para a exploração, a duplicidade e a violência que vemos ao redor.

Confrontado com esse cenário, Rousseau não advogou um retorno ao passado distante, a esse “estado da natureza” em que a paz e a concórdia reinavam. O autor prefere olhar para um passado mais recente —o mundo clássico, onde governo e governados eram um corpo só, sem as estruturas de mediação (e de opressão) que ele observava no mundo moderno (e, em particular, na sua Genebra natal). E como recuperar essa liberdade impoluta?

Pela constituição de uma “vontade geral”, que, para Rousseau, não representa a soma de meras vontades particulares. Pelo contrário: participar na “vontade geral” implica uma renúncia a esses egoísmos privados e mesquinhos. A “vontade geral” procura apenas o bem racional, convidando os homens a cooperarem entre si rumo ao fim verdadeiro.

Roger Scruton em sua casa, no Reino Unido - Andy Hall - 28.set.2015/Getty Images

Como comentará mais tarde Isaiah Berlin, “se os homens racionais acabam por chegar racionalmente às mesmas verdades, então os homens desejam as mesmas coisas, que serão igualmente boas para todos os homens racionais”.

Uma pergunta, porém, torna-se inevitável: e se os homens, ou uma parte deles, não desejarem as mesmas coisas? E se eles discordarem do bem racional e do fim verdadeiro?

Para Rousseau, eles devem ser “forçados a serem livres”, um eufemismo delicioso e sinistro que teve na guilhotina de Robespierre, no gulag de Stálin ou nos campos de extermínio de Hitler a sua conclusão lógica. 

2.

É contra esse programa liberticida que a obra política de Scruton se ergue.

Para começar, interessou a Scruton revisitar as premissas do pensamento de Rousseau —a ideia inspiradora de que nascemos livres nesse “estado da natureza” e que somos posteriormente aprisionados pela sociedade civil.

O autor não opta pela paródia (como Edmund Burke no seu “A Vindication of Natural Society”) ou pela afirmação destrutiva, porém óbvia, de que nunca ninguém observou esse “estado da natureza” e que portanto é inútil construir castelos de areia sobre alicerces tão duvidosos (Burke uma vez mais, sobretudo nas “Reflexões sobre a Revolução na França”).

Scruton aceita essa experiência de pensamento e reconhece que a visão idílica do “estado da natureza” tem os seus encantos. Se pensarmos bem, viver sem leis, sem autoridade e sem normas morais significa, à primeira vista, desfrutar de um nível de liberdade na sua expressão máxima.

O problema, acrescenta Scruton, é que a fruição dessa liberdade termina depressa: se eu só faço o que desejo, é razoável supor que os outros só façam o que desejam. Sem surpresas, essa situação acabará por implicar um confronto de desejos, sobretudo quando estão em causa recursos limitados.

Esse confronto só irá terminar de duas maneiras, conclui o autor: pela morte ou pela dominação, isto é, pelo extermínio do rival ou pela submissão dele.

Eis o grande paradoxo: o que começa por ser uma radical ausência de constrangimentos transforma-se rapidamente no maior de todos os constrangimentos. O que permite concluir que a liberdade natural não passa de uma liberdade destrutiva e autodestrutiva.

E aqui está o segundo paradoxo: as leis, as instituições, a disciplina moral, as instituições criadas pelos homens e tudo aquilo que Rousseau via como obstáculo à libertação total são os condimentos que tornam a liberdade humana possível. 

Essa liberdade depende do compromisso —e o compromisso depende da reciprocidade: eu reconheço e respeito os direitos dos outros da mesma forma que espero ver reconhecidos e respeitados os meus direitos.

Por outras palavras: os homens não nascem livres; eles tornam-se livres, escreve Scruton. A liberdade não é uma dádiva natural, é uma conquista civilizacional que exige o sacrifício dos nossos ressentimentos.

A “cultura de repúdio”, que Rousseau inaugurou, recusa esse compromisso; e a mentalidade revolucionária, em 1789 (na França), em 1917 (na Rússia) ou em 1933 (na Alemanha), só aceita “recriar o mundo como um mundo não criado” (uma belíssima formulação de Scruton).

É o retorno ao “estado da natureza”, sem dúvida, mas é também um retorno ao medo, à violência e à barbárie, independentemente de falarmos de jacobinos, bolcheviques ou nazistas. Todos eles partilham a mesma “tentação totalitária” de abolir as instituições existentes (a lei, a propriedade, a religião) para assim cumprirem a sua utopia.

3.

Ao longo da vida, Roger Scruton teve oportunidade de se confrontar com esse espírito de repúdio. Faz parte da lenda identificar o nascimento do seu conservadorismo no Maio de 1968, em Paris, quando os revolucionários marchavam contra a moral “burguesa” e as suas instituições “reacionárias”.

Mais recentemente, em livro de entrevistas com Mark Dooley (“Conversations with Roger Scruton”, Bloomsbury), Scruton corrige a lenda: o seu conservadorismo nasceu na Itália, quando o partido comunista ameaçava tornar-se hegemônico, e só posteriormente foi reconfirmado com os “événements de mai”.

Seja como for, em Roma ou Paris, o que Scruton detectou foi o tipo de repúdio que Rousseau e os seus herdeiros já tinham recomendado ou praticado antes: uma dinâmica de rebelião contra a democracia liberal e as suas instituições mais representativas.

Nesse momento, o boêmio e romântico Scruton descobre-se do outro lado das trincheiras —“um rebelde contra a rebelião” e um defensor da liberdade e da ordem “burguesas” contra o irracionalismo da destruição.

Historicamente, podemos afirmar que a causa de Scruton triunfou: a democracia francesa perdurou e o general De Gaulle venceu as eleições de junho daquele mesmo ano com uma margem folgada.

Scruton, porém, discorda desse triunfalismo: a “cultura de repúdio” sobreviveu a 1968 e tornou-se dominante nos meios intelectuais e acadêmicos. O livro “Pensadores da Nova Esquerda”, talvez o mais polêmico dos seus trabalhos, procura mostrar como os “soixante-huitards” promoveram o espírito de repúdio no reino devastado das humanidades.

Contra esse espírito destrutivo, relativista e niilista, a função do conservador é, precisamente, conservar o patrimônio moral, legal e cultural que, sobrevivendo aos testes do tempo, mostrou a sua validade e intemporalidade.

Num contexto especificamente britânico, isso começa por significar a defesa de uma tradição de liberdades (no plural) que, pelo menos desde a Magna Carta de 1215, negava ao rei um poder absoluto ou arbitrário.

Em termos culturais, cabe ao conservador ser o guardião da “alta cultura”, entendida sem complexos como a cultura das elites (no sentido espiritual do termo) que permitirá a formação de novas elites.

Defender o que de melhor foi criado ou pensado não é apenas um imperativo estético, embora esse critério seja crucial para quem ainda aprecia a presença de beleza no mundo. Também é um imperativo ético e epistemológico: defender a tradição das grandes obras é dotar os homens de um reservatório de conhecimentos e de recursos morais que são úteis para a vida em sociedade.

Como afirma repetidamente Scruton, citando uma observação de Oswald Spengler, sem a defesa da tradição, a começar pela tradição artística do Ocidente, chegará um dia em que os quadros de Rembrandt ou as composições de Mozart deixarão de existir. Não no sentido material do verbo, mas porque não haverá mais ninguém capaz de entender a mensagem que tais obras transportam. 

4.

Que Roger Scruton se tenha assumido como o defensor da tradição e da alta cultura é algo que a sua biografia talvez não justificasse. Sobretudo se tivermos do “conservador” a ideia caricatural de que ele pertence sempre às classes aristocráticas, defensoras do status quo.

Nada mais errado: quando olhamos para o conservadorismo britânico, um dos seus aspectos mais surpreendentes é o número de autores ou políticos conservadores que não eram aristocratas. De Edmund Burke a Benjamin Disraeli, de Michael Oakeshott a Margaret Thatcher, o que essa galeria de nomes nos diz é que conservar a tradição liberal britânica é do interesse de todos os homens livres, independentemente do seu berço ou da sua conta bancária.

Scruton não é exceção. Nascido em fevereiro de 1944 em Buslingthorpe, no condado do Lincolnshire, o autor era filho de um professor do ensino básico e de uma dona de casa.

A infância não foi feliz. O seu pai Jack, nas palavras do filho, era “uma bola de eletricidade que se sentava imóvel no meio da sala”. De temperamento violento e ressentido, Jack Scruton tinha, porém, um amor pela Inglaterra rural que legou ao filho.

Aluno aplicado na Royal Grammar School de High Wycombe, acabaria por ingressar na Universidade de Cambridge onde, no primeiro dia de aulas, trocou ciências por filosofia, disciplina em que se formou.

Depois de um período de diletantismo literário pela Europa continental, onde teve a sua conversão ao conservadorismo com as sublevações de Paris, regressou a Cambridge para se doutorar com uma tese sobre estética (“Art and Imagination: A Study in the Philosophy of Mind”, sob supervisão da notável pensadora Elizabeth Anscombe).

Mas a vida acadêmica nunca casou bem com o seu temperamento e, mais ainda, com as suas inclinações políticas: professor no Birkbeck College, da Universidade de Londres, rapidamente foi olhado com desconfiança pelos seus colegas progressistas.

A desconfiança rapidamente deu lugar à hostilidade depois da publicação, em 1980, do livro “The Meaning of Conservatism”, uma defesa do conservadorismo que, ironicamente, era uma crítica ao conservadorismo da “bête noir” do momento, Margaret Thatcher.

Juntamente com o livro, as suas colunas para o jornal The Times (reunidas na antologia “Untimely Tracts”) e a direção da revista conservadora The Salisbury Review (onde escrevia vários artigos sob pseudônimo, por não encontrar conservadores dispostos a dar a cara) fizeram dele um pária. Como Scruton recordaria mais tarde, no Birkbeck College só existiam dois conservadores: ele próprio e a senhora que servia os cafés aos professores.

Privado de camaradagem acadêmica, acabaria por encontrá-la no jornalismo inglês —que foi decisivo para refinar e aclarar o seu estilo literário— e, sobretudo, no leste da Europa: a partir de 1979, Scruton iniciou uma colaboração clandestina com todos aqueles que, sob as garras do regime comunista, procuravam algum oxigênio intelectual (e ocidental).

Os seus textos sobre esse período, relatos das viagens e dos encontros que fez do outro lado da Cortina de Ferro, são, a todos os títulos, magistrais como retratos da asfixia totalitária. A exata asfixia que os seus colegas universitários defendiam no conforto e na segurança de Londres.

Com a queda do Muro de Berlim e o fim do comunismo, os ensaios de Scruton passaram a ocupar-se de matérias menos políticas, mas nem por isso menos prementes: a importância da beleza, as “intimações” da religião, os limites do cientismo, o apelo da caça e até as virtudes filosóficas do vinho.

O seu “I Drink, Therefore I Am” é uma apologia dos prazeres de Baco, tidos como necessários à vida contemplativa. A finalizar o seu tratado, Scruton escolhe algumas garrafas da sua preferência e indica quais os melhores filósofos para as acompanhar.

Immanuel Kant, um dos autores mais importantes na formação de Scruton, vai muito bem com um malbec argentino. Hegel, outro gigante do panteão, pede um Chianti Classico de Vignamaggio.

E Scruton? Qual será o líquido apropriado?

Bom, sem pretender usurpar a sabedoria do mestre, sempre defendi que os seus melhores ensaios políticos —“The Meaning of Conservatism”, “Philosopher on Dover Beach”, “The Uses of Pessimism and the Danger of False Hope”— merecem um bom tinto do Douro (um Terras do Grifo, digamos).

Já os tratados estéticos da minha eleição —“The Aesthetics of Architecture”, “The Aesthetics of Music”, “Beauty”— convidam a um vinho do Porto (Ruby, reserva).

E se o leitor vê nas minhas escolhas uma certa inclinação por vinhos do norte de Portugal, confesso a minha parcialidade: como defendia Scruton, o amor pela casa (“oikophilia”) é o princípio da aventura humana e da filosofia conservadora.

Brindo a isso.


João Pereira Coutinho, escritor, cientista político e colunista da Folha, é autor de "As Ideias Conservadoras" (Três Estrelas).

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