'Dr. Caligari' influenciou de Hitchcock a Tim Burton

Estética revolucionária do filme de 1920 mudou a história do cinema

Donny Correia

 

Cem anos depois, "O Gabinete do Dr. Caligari", um filme modesto e pensado para ser um manifesto antibélico provou-se o marco zero de um estilo autoral e profundo de se fazer cinema.

Sua estética revolucionária —marcada por cenários que pareciam pintados nas paredes de um estúdio, geometria irregular, portas e janelas alongadas e pontiagudas, figurino extravagante e maquiagem pesadíssima—  foi absorvida e ressignificada infinitas vezes na história do cinema.

Confira abaixo alguns dos mais ilustres filhos de "Caligari" e do expressionismo alemão no cinema.

Nosferatu (1922)

De  F.W. Murnau

Cena do filme "Nosferatu" (1922), de Murnau
Cena do filme "Nosferatu" (1922), de Murnau - Divulgação

Adaptação não oficial de "Drácula", de Bram Stoker, o filme se vale do clima onírico e do contraste entre luz e sombra para criar um novo modelo de terror.

O Pensionista (1927)

De  Alfred  Hitchcock 

Cena do filme "O Pensionista", de Alfred Hitchcock de 1927
Cena do filme "O Pensionista", de Alfred Hitchcock de 1927 - Divulgação

O mestre do suspense aprendeu com os alemães os ângulos inusitados de câmera e o clima soturno que utilizou em seus primeiros filmes, na Inglaterra.

O Homem que Ri (1928)

De  Paul Leni

Leni importou para os EUA a estética que lhe serviu para moldar um personagem icônico, que inspiraria a criação do Coringa.

Monstros (1932) 

De  Tod Browning

Cena de "Freaks", filme de Tod Browning (1932)
Cena de "Freaks", filme de Tod Browning (1932) - Divulgação

Considerado escandaloso demais, o filme explora um mundo de aberrações humanas e trapaças. Esteticamente, remete-nos a obras de Wiene e Murnau.

Cidadão Kane (1941)

De Orson Welles

Cena do filme "Cidadão Kane (1941) ", do diretor norte-americano Orson Welles
Cena do filme "Cidadão Kane (1941) ", do diretor norte-americano Orson Welles - REPRODUÇÃO

Welles estudou com afinco "Dr. Caligari" para compor a iluminação, cenários e angulações de câmera do filme tido como o mais importante da história do cinema.

Eraserhead (1977)

De David Lynch

Lynch estreou no cinema explorando a narrativa fragmentada, a fotografia intimista e o enredo grotesco a exemplo da estética expressionista.

O ator Jack Nance em cena do filme "Eraserhead", de David Lynch
O ator Jack Nance em cena do filme "Eraserhead", de David Lynch - Divulgação

“Batman, o Retorno” (1992)

De Tim Burton

Michael Keaton (Batman) e Michelle Pfeiffer (Mulher Gato) em cena do filme "Batman, o Retorno"
Michael Keaton (Batman) e Michelle Pfeiffer (Mulher Gato) em cena do filme "Batman, o Retorno" - Divulgação

Além da evidente marca estética expressionista em seu trabalho, Burton tomou o  sonâmbulo Cesare de  "O Gabinete do Dr. Caligari"  como modelo de seu Pinguim, vivido por  Danny DeVito.


Donny Correia, doutor em estética e história da arte pela USP, é professor de linguagem cinematográfica e autor de,  entre outros, “Cinefilia Crônica, Comentários sobre o Filme de Invenção” (2018).

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