Descrição de chapéu Oscar 2020

'For Sama' é um dos mais terríveis e mais confortantes filmes de guerra já feitos

Documentário sírio indicado ao Oscar registra a intimidade de uma família em meio a conflito em Alepo

Rogério Simões

[RESUMO] Em ‘For Sama’, indicado ao Oscar de melhor documentário, a síria Waad al-Kateab registra a intimidade de sua família em meio ao conflito em Alepo; para o autor, o testemunho da formação desta família compõe uma das mais terríveis e mais confortantes produções de guerra já realizadas.

“Sama! Mama. Mama? Sama!” A voz ao fundo é de uma mãe, enquanto o rosto de um bebê domina a tela, nos primeiros minutos de “For Sama” (para Sama). Ouvimos a mãe interagindo com a filha, repetindo seu nome, cantando uma canção, enquanto o som de jatos militares cresce ao fundo. O bebê se assusta com um estrondo, dá um sorriso e tenta morder o próprio pé. A maternidade encontra a guerra.

Tudo neste filme produzido em meio à guerra civil na Síria é fruto do choque provocado pelo encontro de energias opostas, pelo confronto entre vida e morte. Essa extraordinária produção é um relato dramático e sensível sobre vidas perdidas, alteradas e criadas a partir dessa correlação de forças. Principalmente criadas, pois “For Sama” é um filme feminino, baseado no olhar de uma jovem mãe sobre a violência extrema de um conflito desumano.

Em 2011, Waad al-Kateab era uma estudante de economia na Universidade de Alepo —o nome é um pseudônimo criado por ela durante os protestos contra a ditadura de Bashar al-Assad, para proteger a identidade de sua família, e mantido até hoje. Com o início das manifestações contra o regime, ela começou a filmá-las e a exercer a atividade que sempre desejou: o jornalismo.

“For Sama”, filmado e narrado por Waad, que dividiu a direção com o documentarista britânico Edward Watts, é a história da batalha pelo controle da cidade rebelde de Alepo sob os olhos dessa jovem síria. Um filme íntimo, em que grande parte das cenas ocorre entre quatro paredes.

Tamanha é a intimidade que assumimos com Waad que nos tornamos cúmplices de suas alegrias, seus sofrimentos e suas decisões. Vemos como ela conheceu o médico Hamza al-Kateab (Zahed Katurji é seu nome verdadeiro), como eles se tornaram amigos próximos e como se apaixonaram.

Acompanhamos seu casamento —uma festa em meio a bombardeios— e testemunhamos Waad diante do espelho, logo após descobrir sua gravidez, ensaiando o anúncio ao marido de que em breve serão uma família. Vemos o nascimento de Sama —cujo nome significa “céu”.

Ao mesmo tempo em que nos comovemos com a maternidade, nos horrorizamos com a guerra. Não há separação entre os dois. Um momento de carinho entre mãe e filha é interrompido por uma explosão, a tensão num abrigo subterrâneo é suspensa por risos e brincadeiras. Convivência e destruição compartilham os mesmos tempo e espaço.

Nos relatos de Waad, o inimigo é o ditador Assad. Ela menciona o perigo representado por grupos fundamentalistas islâmicos apenas uma vez, brevemente, apesar de eles terem assumido o protagonismo entre os rebeldes de Alepo —o jornalista Patrick Cockburn, em “A Origem do Estado Islâmico” (2015), diz que em 2014 o regime basicamente enfrentava os extremistas Frente al-Nusra e Ahrar al-Sham na cidade.

O fato de “For Sama” —que concorre com o brasileiro “Democracia em Vertigem” ao Oscar de melhor documentário— evitar detalhes do xadrez político e militar na Síria impede uma compreensão maior do conflito, mas nos mantém imersos na realidade da família.

Num dos momentos mais trágicos do filme, o hospital que Hamza ajudou a criar é bombardeado por aviões russos aliados ao regime, matando dezenas. A Convenção de Genebra de 1949, que trata da proteção de civis em situações de guerra, determina claramente, em seu artigo 18, que hospitais civis não podem, “em nenhuma circunstância”, ser alvo de ataques. Precisam ser protegidos e respeitados por todas as partes.

O artigo seguinte, entretanto, diz que tal proteção pode deixar de existir caso o hospital seja usado para cometer atos violentos contra o inimigo. A brecha na legislação internacional é frequentemente usada como justificativa, permitindo que muitos lados de inúmeras guerras sigam bombardeando hospitais impunemente.

Waad e Watts realizaram um filme brilhante em vários aspectos, da cinematografia ousada à força de sua história. Mas o que faz dele único é sua mensagem principal: uma obra criada por uma mãe para sua filha. 

Os diretores revelaram que a decisão de transformar numa mensagem de Waad para Sama as mais de 500 horas de filmagem feitas pela jornalista ao longo de cinco anos não foi imediata, nasceu com o tempo. Era, porém, uma opção óbvia, dada a quantidade de material em que a menina é o centro das atenções, e a câmera, um canal de comunicação entre as duas.

A chegada de Sama enche Waad de alegria e esperança, mas instala dentro dela uma dose de culpa. Desde “A Escolha de Sofia” (1982), nenhum filme mergulhara tão profundamente nos sentimentos de uma mãe diante dos rumos impostos por uma guerra. “Em que vida eu a coloquei, Sama... Você não escolheu isto. Será que um dia você vai me perdoar?”, pergunta Waad.

Deve uma mãe sempre priorizar a segurança de sua filha, acima de seu compromisso com seu país e sua comunidade? A resposta de “For Sama” é “não necessariamente” —e a maneira como lida com a complexidade dessa lógica é um dos motivos pelos quais o filme merece os mais de 40 prêmios que recebeu desde 2019.

Uma coisa é ser mantido numa zona de guerra contra sua vontade, outra é optar pelo risco quando uma alternativa lhe é apresentada. Ao longo de “For Sama”, vemos que Waad não apenas defende a integridade física da filha. Ela a educa por meio de suas ações, mesmo que a compreensão de Sama só venha a ser possível muitos anos mais tarde.

Em seu livro “Fear – A Cultural History” (medo – uma história cultural)”, a historiadora britânica Joanna Bourke dedica um capítulo ao comportamento de civis alvos de bombardeios, particularmente britânicos, na Segunda Guerra.

Bourke cita pesquisas da época que identificaram uma enorme resiliência psicológica nas crianças sob ataques de aviões alemães. Acreditava-se que tal capacidade decorria especialmente da atitude das mães. “Era amplamente divulgado que as crianças só ficavam assustadas se suas mães estivessem com medo.”

Na Alepo bombardeada, Waad segue o mesmo princípio. Tanto ela como Hamza tentam manter a calma diante das mais devastadoras circunstâncias. Pai e mãe esforçam-se para se mostrar firmes e leves e proteger a filha do medo. Waad passa a Sama o exemplo de uma mulher corajosa. A possibilidade da morte, no entanto, era real e diária. 

Waad chegou a imaginar planos sobre o que fazer com o material que produzira caso não saísse viva de Alepo. Saiu, e na noite de domingo, 2 de fevereiro, recebeu em Londres (onde vive hoje) o prêmio Bafta de melhor documentário.

De sua parte, não há arrependimento. A história de Waad, Hamza e Sama decorre de escolhas feitas diante das opções disponíveis, nenhuma delas fácil. A determinação de sua família faz do filme, ao mesmo tempo, uma das mais terríveis e mais confortantes produções de guerra já realizadas. Com fortes doses de compaixão e perseverança, o documentário compensa a angústia e os horrores pelos quais nos obriga a passar.

Em “For Sama”, a combinação explosiva de forças contraditórias gera amor e esperança. A guerra que matou cerca de 400 mil pessoas criou as condições para o encontro de Waad e Hamza. A própria Sama é fruto do conflito que ameaçou sua sobrevivência. Em meio a uma ampla devastação, maternidade e vida driblaram a guerra e a morte. Venceram. 


Rogério Simões é jornalista, mestre em mídias sociais pela Universidade de Westminster e cofundador da rede social Unnon. Foi diretor de Redação da BBC Brasil.

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