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Oscar 2020

Imersão de '1917' na guerra segue tradição de Homero e T.S. Eliot

Filme de Sam Mendes, assim como a 'Ilíada', medita sobre conflito que sela o fim de um período histórico

soldado atravessa ponte destruída

George MacKay em cena do filme "1917", de Sam Mendes Divulgação

Dionisius Amendola

[RESUMO]Virtuosismo técnico de ‘1917’, que confere ao filme a aparência de ser constituído de um longuíssimo plano-sequência, provoca imersão nos horrores da guerra, na tradição dos épicos poéticos de autores como Homero e T.S. Eliot.

Escrita por volta de 700 a.C., a “Ilíada” de Homero fundou aquilo que chamamos de literatura ocidental. A obra também lançou os fundamentos da relação entre beleza e tragédia, glória e sangue, horror e eternidade, guerra e arte, que desde então são algumas das marcas distintivas que sustentam as civilizações, ou marcam seu fim. 

O conflito que opôs aqueus, argivos e dânaos (ou, simplesmente, os gregos) aos troianos já se iniciara dez anos antes dos eventos narrados na “Ilíada”. Homero nos leva ao centro do episódio crítico da guerra, quando Aquiles se rebela contra o rei Agamemnon, sem se preocupar em nos dar os pormenores das causas que levaram os gregos às portas de Troia.

O que importa, na obra, é este episódio específico do longo conflito. Diante de uma tragédia civilizacional, Homero parece querer que enxerguemos algo da tragédia íntima daqueles personagens —não à toa, muitos dos confrontos narrados são quase pessoais, duelos violentos que resultam sempre em sangue e tripas espalhadas no solo troiano (salvo quando algum deus interfere na contenda).

Assim como a “Ilíada” (e sua continuação, a “Odisseia”) retrata uma guerra e suas consequências, sendo a principal delas o princípio de uma nova era, o esplêndido filme “1917”, de Sam Mendes, também é uma meditação acerca de um conflito, a Primeira Guerra Mundial, que sela o fim de um período e o início de outro, no qual nos encontramos hoje. 

Como marca dessa ruptura, constatam-se o fim de velhas fronteiras e impérios, da ordem hierárquica europeia; o fortalecimento do sentimento nacionalista; o avanço tecnológico e científico capaz de impulsionar maravilhas —e horrores— inimagináveis; a ascensão de novas formas de entretenimento tais como o rádio, o cinema e os quadrinhos.

Vencedor de três Oscars, “1917” tem início com dois jovens soldados, Blake (Dean-Charles Chapman) e Schofield (George MacKay), deitados na grama verdejante. Logo são acordados e convocados a se apresentar ao comandante da tropa. A missão será atravessar a “terra de ninguém” até um outro contingente militar que está prestes a cair em uma armadilha preparada pelos alemães, a qual pode resultar em mais de 1.600 mortes. 

O diretor Sam Mendes lança um olhar íntimo para a vida daqueles soldados. Não se preocupa em contextualizar o conflito, o que levou aqueles homens aos campos franceses para lutar.

O que importa a Mendes é a amizade dos dois personagens, que compartilham notícias de casa e um sanduíche de presunto, amizade esta que irá marcar a longa travessia que farão —cheia de tribulações, ratos, terrores, compaixão, perda e dor—, a qual acompanharemos ao longo de quase duas horas de um filme construído para nos dar a sensação de participar em tempo real desta provação.

Como já comentado exaustivamente, Mendes, seu diretor de fotografia, Roger Deakins, e seu montador, Lee Smith, tentaram dar ao filme a aparência de ser constituído por um único e longuíssimo plano-sequência, imersivo e surpreendente. O virtuosismo da empreitada foi encarado por muitos como mero exibicionismo tecnicista que aproximaria o filme de um videogame e transformaria a guerra em um parque temático. 

Escapa a estes terraplanistas culturais que a intenção de Mendes é criar uma fluidez poética para seu filme, algo que lembre a leitura de um longo poema, como “A Terra Devastada”, do escritor anglo-americano T.S. Eliot.

Se os gregos tiveram a “Ilíada” e a “Odisseia” para rememorar os horrores que acompanham o nascimento de uma civilização, nós talvez possamos buscar em Eliot a obra equivalente: “A Terra Devastada”, poema publicado em 1922, que se inicia com os clássicos versos “ Abril é o mais cruel dos meses, concebendo /  Lilases da terra entorpecida, confundindo /  Memória com desejo, despertando / Lerdas raízes com as primeiras chuvas", na tradução de  Ivo Barroso.

O poema de Eliot, com toda a sua erudição, suas referências literárias elusivas, sua reinvenção poética, é um dos mais belos e intrigantes de toda a literatura ocidental. Seu poder imagético e simbólico vem justamente de sua “mistura de tradições e culturas, e da imaginação histórica que torna o passado contemporâneo”; assim o poema revela que “nenhuma tradição pode digerir tamanha variedade de materiais, e o resultado é o romper de formas e a irreversível perda do senso do absoluto que parece necessário a uma cultura robusta”, escreveu o crítico literário britânico F.R. Leavis.

“A Terra Devastada” elabora uma dolorosa reflexão sobre aquilo que se perdeu com a Primeira Guerra Mundial e o que restou do conflito. Carregado de imagens assombrosas, é também uma prova de que dos frutos apodrecidos nascem belas cerejeiras, como bem nos lembra o soldado Blake em um dos mais belos diálogos do filme de Sam Mendes.

Paul Nash, nascido em Londres em maio de 1889, filho mais velho de uma família de classe média, integrou a geração que seria colhida pela Primeira Guerra. Em 1906, sem ideia do que seguir como profissão, conversou com o pai e lhe disse que pensava se tornar ilustrador ou algo do gênero, uma proposta inusitada, visto que, até então, Nash não parecia particularmente atraído pelas artes.

Seu pai concordou e então, com 17 anos, o jovem Nash começou seus estudos artísticos, que o levariam a se tornar um dos grandes pintores ingleses da primeira metade do século 20. No início, suas pinturas tinham um tom neorromântico, também muito ligado às paisagens naturais da Inglaterra.

Nash alistou-se no Exército durante a Primeira Guerra e, depois de um período servindo dentro do país, foi enviado para a França, aonde chegou em fevereiro de 1917, com o posto de segundo-tenente no regimento de Hampshire. Lá, seu olhar é atraído pelas belezas naturais, que florescem mesmo em meio a devastação —"flores primaveris espalhando-se por todos os lados, brotos verdes nascendo em um destruído tronco de árvore ainda fedendo a gás venenoso, onde canta um rouxinol", conforme escreveu David Boyd Haycock no livro “Paul Nash”.

Então, na noite de 25 de maio, uma semana antes de uma ofensiva preparada pelos ingleses, Nash cai em uma trincheira e quebra uma costela. É enviado de volta a Londres. A guerra continua sem ele, e em 15 de junho seus homens atacam a posição identificada como Hill 60; muitos deles morrem. Ele carregaria para sempre a culpa por ter sobrevivido ao massacre. 

Enquanto se recuperava dos ferimentos, Nash produziu uma série de desenhos, trabalhando com esboços feitos enquanto esteve na França. Exibidos em exposição, foram bem recebidos por crítica e público. Nash então solicitou que se tornasse um artista oficial de guerra, e em novembro de 1917 voltou à França. 

Era inverno, as trincheiras estavam em lama e gelo. Ataques com gás mostarda eram frequentes, e os homens sofriam com piolhos, ratos e frio. Depois de seis semanas, trabalhando em ritmo frenético e assumindo riscos frequentes para se aproximar o máximo possível da ação, Nash surgiu com o que descreveu como “50 desenhos de lugares barrentos”.

Suas recordações, em uma carta de 16 de novembro de 1917, nos colocam dentro daquele pesadelo:
“Todos temos uma vaga noção dos terrores de uma batalha... mas nenhuma caneta ou desenho pode transmitir o cenário normal das batalhas que ocorrem dia e noite, mês após mês. Somente o mal e o demônio encarnados podem ser os senhores desta guerra, e nenhum vislumbre da mão de Deus é visto em qualquer lugar”, escreveu.

“As bombas caem do céu, arrancando os tocos de árvores podres, quebrando as estradas de tábuas, derrubando cavalos e mulas, aniquilando, mutilando, enlouquecendo, afundam no túmulo que é a terra; um túmulo enorme, e sobre ele os pobres mortos. É inexplicável, sem Deus, sem esperança.”

Em quadros, tais como “Wire” (1918) e “We Are Making a New World” (1918), Nash revela todo o ultraje daquele conflito, todo o pesadelo criado pelo homem contra si mesmo e contra a criação. Basta comparar “Wire” ao visual de terra arrasada de “1917” para perceber que obra do pintor tornou-se referência na iconografia do período. 

Desde então, a Primeira Guerra Mundial já inspirou uma imensa gama de obras de arte, da tetralogia de romances “Parade’s End”, iniciada em 1924 por Ford Madox Ford, e “Adeus às Armas” (1929), de Ernest Hemingway, ao recente “1914” (2012), do francês Jean Echenoz, e também filmes assombrosos, como “Sem Novidade no Front” (1930), de Lewis Milestone, “Cruzes de Madeira” (1932), de Raymond Bernard, e “Sargento York” (1941), de Howard Hawks, obras inescapáveis, ainda chocantes em seu realismo dantesco. 

A história segue agora com “1917”, de Sam Mendes, que apresenta uma cinematografia única e explora os aspectos oníricos da história daqueles personagens. Se há momentos de puro pesadelo e tensão, há outros de cândida beleza e intimidade. No fim da travessia, do outro lado do Jordão, podemos talvez encontrar uma breve paz. Nunca devemos nos esquecer, contudo, de que os deuses da guerra fundam civilizações enquanto sacrificam seus filhos. 

Dionisius Amendola

Crítico, criador do canal Bunker do Dio, dedicado a literatura, quadrinhos, cinema e cultura em geral

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