Telas de Eleonore Koch refletem angústia de tempos de quarentena

Comparada a Volpi e De Chirico, artista alemã retratou paisagens desabitadas em suas obras

O ar que envolve as mesas, as cadeiras, os vasos de flores e as escadarias parece tão denso quanto a matéria dos objetos. É dura a atmosfera. Também a água do mar ou de lagoas cortando jardins tem inclinação pétrea, o ponto móvel da paisagem congelado, enraizado à revelia do mundo vivo, real.

Eleonore Koch pintou interiores domésticos, parques e praias com zero apreço pela textura, aspereza ou suavidade concreta desses espaços. Sua visão era estruturante, mas oscilava entre a rigidez de uma arquitetura que ela sabia muitas vezes ser enganosa e a teatralidade sem freios nem culpa de um cenário todo construído sob medida.

Dias antes do toque de recolher que se abateu sobre São Paulo por causa do avanço de um novíssimo vírus da gripe, uma pequena exposição numa galeria do bairro dos Jardins abriu as portas desse universo paralelo, agora próximo de todos os refugiados em quarentena.

Enquanto a doença se alastra às custas de seu agente invisível, muitos de nós estamos enclausurados dentro de apartamentos, forçados a uma intimidade sem precedentes com os objetos banais que nos rodeiam, o espelho sujo de nossas escolhas, formas que nos espreitam.

Os desejosos de contato com o mundo exterior encontram satisfação ao contemplar imagens de praças, ruas e avenidas abandonadas mundo afora, as metrópoles esvaziadas pelo coronavírus, que brilham impenetráveis nas telas de celular e na escalada dos telejornais da noite —a Times Square virou uma caixa de luz despovoada, as cidades chinesas se deixam ver livres da névoa escura do smog, a água turva dos canais de Veneza ficou cristalina, aponta o noticiário perplexo.

O mundo real se transforma em cenário inimaginável diante de nossos olhos. É a visão clean, despojada da mais histérica distopia, nossa sujeira e nosso suor varridos do mapa até que dominem só os belos objetos construídos por mãos que se foram. As cidades intocadas dos tempos da peste têm o magnetismo ímpar das telas de uma artista inscrita desde sempre no rol dos metafísicos, angustiados incapazes de vislumbrar céus que não ameaçassem desabar em tempestade violenta sobre campos e praças de solidão.

Mas não há fúria visível nessas obras, só a sua latência, paradoxo semelhante a temer um vírus que se espalha e pode matar, mas que se esconde em silêncio sob o filtro estéril de números de mortos e infectados anunciados pelos governos e das luvas e máscaras cirúrgicas dos médicos.

Mesmo a exposição na galeria Marcelo Guarnieri já não pode ser vista ao vivo, trancada atrás de uma porta metálica na alameda Lorena. Escrevo de memória e revendo as obras na luminosidade enganosa da tela do laptop.

No visor de cristal líquido, elas perdem aquilo que têm de mais acachapante —a sensação densíssima da matéria, o peso da têmpera em pinceladas que constroem cenários maciços onde luz e sombra, ar e terra, cheio e vazio se fundem numa massa espessa, indiferente à vontade ou ilusão de adentrar aquele espaço.

É a mesma ilusão de vazio cheiíssimo das telas do italiano Giorgio Morandi, naturezas-mortas em que fundo e figura parecem amalgamados por uma luz quase uniforme e se deixam ver só no roçar de campos cromáticos que se agitam num fulgor surdo.

Mas Koch, alemã que fugiu do Holocausto e viveu em São Paulo até a morte, há dois anos, foi mais comparada ao modernista Alfredo Volpi, com quem estudou. Tampouco deixaram de ver nas suas telas o mesmo absurdo inquieto das paisagens urbanas de Giorgio De Chirico, famoso por telas de praças vazias em que sombras não obedecem à incidência da luz e o tempo é natimorto, imóvel.

Nada se move nos seus cenários de asfixia cenográfica. É nítida a influência da pincelada de Volpi, com camadas de cor de bordas translúcidas e frágeis que, no entanto, constroem alicerces sólidos. Mas se o artista das bandeirinhas de festas populares chega a ser expansivo, beirando a abstração geométrica, Koch faz um movimento inverso, sem nunca descartar a figuração.

Nos pontos em que Volpi exagera para levar a forma aos limites de seus contornos, Koch faz o contrário para se ater a verdades sem lastro, objetos reais tornados cenográficos, a flor de plástico, o biombo no lugar do muro de arrimo. Sua realidade é arquitetada como aquela no palco do teatro, sem a quarta parede, mas tão verdadeira e palpável quanto a boca de cena vista da coxia, o falso que se revela exuberante nas falhas.

Koch, às vezes mais radical que Volpi, deixava finíssimas frestas em branco entre os campos de cor de seus interiores, a tela crua denunciando a construção frágil sobre sua superfície, como um grito sufocado fora de quadro.

Quem se senta àquela mesa? Para quem são as flores nos vasos? Suas naturezas-mortas falam de uma vida encerrada para o lado de fora, são arquiteturas de um deslocamento forçado. Da mesma forma, suas paisagens desabitadas se constroem como sets de filme no apagar dos refletores —é a angústia de um idílio fake, o esplendor mergulhado sem dó na escuridão.

Os estranhos pontos de fuga, as linhas horizontais inabaláveis e as faixas contrastantes de cor nas telas de Koch também lembram as fotografias do italiano Luigi Ghirri, um cronista da pós-modernidade que soube ver no banal, no gauche das nossas cidades algumas incômodas frestas de vida. O mundo visto pelo fotógrafo e pela pintora é o cenário da angústia em construção, a paisagem recortada pela lente ou reinventada pelo gesto irregular.

Talvez nos lembremos da paisagem da quarentena como esse lugar isolado tomado de assalto pelas luzes e ruídos vindos lá de fora, a paisagem mediada pelas janelas de casa, as telas de celular —estamos aprendendo a viver num escuro reluzente em plena era da informação e das fake news. E certos artistas em horas estranhas parecem proféticos.

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