Descrição de chapéu Coronavírus

No final dos anos 60, a peste nos EUA era outra, lembra Silviano Santiago

Crítico e escritor, que ensinou Camus para americanos, diz que acaso da pandemia mostra capacidade de renovação humana

Silviano Santiago

[RESUMO] Crítico literário e escritor reflete sobre a possibilidade de maior compreensão da vida em tempos de pandemia e lembra quando ensinava literatura francesa nos EUA no final dos anos 1960, relacionando "A Peste", de Camus, aos problemas da época.

Durante os anos que ensinei literatura francesa contemporânea aos norte-americanos, sempre arranjei um jeito de abrir lugar, na ementa do próximo curso, para o romance "A Peste", de Albert Camus. A eleição obsessiva se explicava menos pelo tema, já desgastado às vésperas da iminente Guerra Fria e distante do futuro vírus da Aids. Explicava-se mais pelo estilo.

Brasileiro a ensinar literatura francesa a povo voltado para as quatro operações da matemática e a estudante universitário doutrinado para o julgamento imparcial e a negação da subjetividade, julgava eu que a epígrafe de Daniel Defoe não era apenas a boa chave de leitura para o romance.

Era também a ferramenta que romperia o bloqueio de gente pragmática e objetiva. Depois do título e do nome do autor, lá está ela: "É tão válido representar um modo de aprisionamento por outro, quanto representar qualquer coisa que de fato existe por alguma coisa que não existe".

Símbolos desenhados em quadro-negro após início dos protestos de estudantes da Universidade Columbia, em Nova York, em abril de 1968 - Neal Boenzi/The New York Times

Em virtude do conhecimento que já tinham de literatura anglo-saxã, sabia que os estudantes acatariam com maior docilidade a autor/idade do britânico Daniel Defoe que a de um autor francês, então pouco conhecido. Esqueço a autoridade do brasileiro, altamente problemática.

Estudantes e professor partiam da epígrafe para a leitura interpretativa do livro. No quadro-negro, como um silêncio, pairava uma ordem, que de tão licenciosa seria um absurdo chamá-la de ordem: não se ater exclusivamente ao tema concreto do romance. Aliás, a ordem de debandada interpretativa era complementada por elogio ao romance.

O tema, a não ser esquecido, é importantíssimo e está exposto e tratado maravilhosamente bem pelo autor, como veremos. Primeira intenção: convidar o leitor neófito a embarcar pela primeira vez em Camus e a perceber que, durante a travessia, haveria liberdade para se enxergar as múltiplas possibilidades de leitura da calamidade que (não) aconteceu em Orã, na Argélia, e dos muitíssimos personagens que viveram naquela cidade durante a peste.

Não é essa a função básica da literatura e das artes quando o objeto singular é entregue a um fruidor que não é especialista? Alargar e ampliar as perspectivas do bom e indispensável conhecimento disciplinar do estudante (ou do cidadão) e do coletivo (ou da comunidade).

Notei que jovens letrados e povo pragmático são imediatamente ativados pela eletricidade, quando se fala de comparação, analogia, metáfora, alegoria e símbolo. Ficam como a ver filme de ficção científica.

Por conta própria e individual, ou coletivamente, descobrem caminhos interpretativos que os demais não conseguem enxergar e passam a acreditar ser possível enveredar por trilhas diferentes e diversas, ou pela sua própria trilha. A epígrafe do monstro Daniel Defoe permitia a invenção. E a feliz escrita romanesca de Albert Camus albergava os iniciantes, os nutria e os instigava, sem dúvida.

Estamos em fins dos anos 1960 e começo dos anos 1970. A maioria dos estudantes pertencia ao famoso "baby boom", posterior ao fim da Segunda Grande Guerra e consequência do regresso ao lar dos pracinhas ávidos de sexo.

Iniciantes não são iniciantes, falta-lhes o empurrão. Todos —menos o professor— traziam de casa mil e um relatos verídicos sobre a guerra contra o nazifascismo. Todos —inclusive o professor— traziam da produção hollywoodiana de filmes mil e uma versões artísticas da invasão de várias nações pelas tropas nazifascistas.

A mais óbvia das metáforas para "A Peste" estava a descoberto fora da vida acadêmica, na memória nacional e em casa, nos relatos dos pais e das mães e de seus colegas passageiros de farda militar. A marca concreta da guerra era mais viva que a metáfora da peste. Tanto melhor, tínhamos as duas. E outras nos esperavam.

O fato de o acontecimento histórico estar à vista não quer dizer que sua compreensão entra facilmente olhos adentro da consciência do leitor ou do ouvinte. Alguns me diziam que, ao desembarcar do navio/literatura, que o levara e o trouxera da metáfora argelina, tinham prazer em reabrir a porta do lar e conversar com os pais.

Muitas vezes —e sempre, acrescento eu— você compreende melhor um acontecimento e seus atores sociais ao compelir sua força de saber, altamente subjetiva, a assumi-los na leitura de livro, ou seja, no modo como eles são narrados e dramatizados por outro e se tornam semanticamente seus. São também de responsabilidade sua, de uma maneira diferente e notável.

Compete a você dar nome e sentido à fazenda e aos bois, não importa onde ela esteja instalada e onde eles tenham sido criados. Isso nem chega a ser uma máxima. É o lugar-comum que o romancista nos apresenta ao inventar, dramaticamente, diferentes e múltiplos participantes da luta contra a peste no norte da África e ao afirmar que é tão válido representar um modo de aprisionamento por outro, quanto representar qualquer coisa que de fato existe por alguma coisa que não existe. Participantes, perdão, personagens devem estar bem estofados, como se diz de poltrona conveniente para a boa leitura. Todo romancista iniciante sabe que não é tarefa fácil estofar personagem.

Se o estilo conta mais que o tema, torna-se capital direcionar os olhos para os diálogos de "A Peste". Todos são a priori extremamente ricos e, mais importante, de densidade dramática tão explosiva quanto o acontecimento. Estão a dar voz a subjetividades fortes em confronto, até radicais.

Combatem o outro a favor de pontos de vista diferentes, contraditórios e até opostos. No romance, bombas de hidrogênio prenunciam o lançamento da bomba atômica.

Vamos a exemplo corriqueiro de diálogo dramático. Conversam o padre Paneloux e o médico Rieux (à semelhança de... e de... —as identidades estão sempre em aberto, diz a epígrafe). A alma e o corpo dialogam e se questionam. São personagens bem estofados. Os argumentos a favor da salvação da alma (salut) e da saúde do corpo (santé) digladiam e se contradizem.

Igrejas e hospitais são tomados por fiéis e/ou doentes na cidade tomada pela peste. Belos duelos dramáticos saltitam em torno da salvação e da saúde de um e de todos os cidadãos, sem preconceito de qualquer espécie. Pano pra manga não falta ao leitor que queira recoser o romance com sua visão de mundo.

Não tarda. Fronteiras nacionais se fecham. Tudo se fecha em ordem decrescente. No país, no bairro, em instituição, no trabalho, na casa, no quarto. Enclausuram-se no lar e onde o dinheiro e a lei permitem. A agorafobia domina por movimento crescente do confinamento.

Como agir se não se pode pôr o pé no espaço público? De repente, um exemplo menos corriqueiro de diálogo dramático ganha a altitude da grande literatura de Dostoiévski. O padre e o médico estão diante do corpo morto de uma criança. A peste mata um inocente. É tão cruel quanto a guerra.

À beira do leito de morte, o padre entra em dúvida, não entende os desígnios de Deus. Também o médico, é fútil a luta da ciência. O padre enlouquece, a energia do médico arrefece. Igreja e hospital desabam. Mas não só os dois prédios desabam. Há muitos outros, de caráter institucional, que estão a ruir.

O drama humano traz mistérios que são recobertos e requentados pela ironia ou pelo acaso. A ironia avança pela trama do romance. O padre é infectado pela peste. Um padre pode consultar um médico? Não foi ele quem, do alto do púlpito, fez dois sermões espetaculares, colocando a salvação dos moradores nas mãos de Deus?

A peste não é castigo de Deus contra os maus costumes dominantes em Orã? A ira de Deus não teria de ser aplacada só com orações? O médico, no hospital, volta a sorrir com os bons resultados.

Infectado, o padre Paneloux é radical. Recusa-se a consultar o médico, embora sejam amigos e companheiros de luta. De cama, escreve o diário dos últimos dias. Descreve sua decisão —sem lhe apor o nome correto— pela morte lenta e gradativa. O diário não tem final. Ou melhor, seu ponto final é a constatação de que, sozinho, o padre se suicidou.

Deliciem-se também com a descrição da cidade, afinal é sempre agradável e enriquecedora a visita, por palavras ou por imagens, a cidade desconhecida, bela e exótica.

Camus é novo exemplo de romancista na literatura francesa, dominada até então pelo récit (narrativa curta e em primeira pessoa) e às vésperas de entrar no intrincado "nouveau roman", de autores tão complexos quanto Alain Robbe-Grillet, que é conhecido dos brasileiros por ter sido roteirista do filme "O Ano Passado em Marienbad" (1961), de Alain Resnais.

Camus é contemporâneo dos grandes romancistas norte-americanos da primeira metade do século 20, de autores como Ernest Hemingway, Scott Fitzgerald e Dashiell Hammett, lidos em outros cursos.

As observações de caráter psicológico do primeiro récit, "O Estrangeiro", não agradam mais a ele. Prefere representar ação e sentimentos através dos gestos e das palavras dos participantes.

Behaviorista. Repare como a fala de cada personagem, no diálogo com dois ou mais, o pinta tão bem quanto Rembrandt. Como se Camus não fosse também o ótimo dramaturgo, autor da peça "Calígula".

Muitas vezes é melhor avançar a ação pelo diálogo. Se avançar pela descrição de sentimentos e emoções, está a dar carta-branca ao narrador. Pelo uso do diálogo dramático, carta-branca ao leitor. Produza sentido! Ele cria como que uma cena no palco (da vida), com humanos falantes e pensantes.

Algo é exposto ao leitor num cenário preciso e de duas, três ou mais perspectivas. O sentido do drama humano sai engrandecido e, paradoxalmente, mais obscuro.

Em livro tão rico em diálogos, a palavra se impõe, impõem-se o cuidado na apreensão de sentido da palavra, o cuidado na apreensão de sentido que lhe dá o sujeito que a diz, o cuidado na apreensão desse sentido em oposição ao sentido que outro sujeito a usa, o sentido que eu, leitor, dou a elas e o que outros leitores lhe dão.

Tudo isso é, simplificadamente, o tecido mínimo da leitura. Está à mão de qualquer cidadão letrado. Pena que não sejam tantos os letrados no Brasil...

Disse o suficiente. Interrompo-me.

Minha proposta de leitura interpretativa não era tão bondosa quanto venho descrevendo-a. O professor está também fora da sala de aula. Num espaço mais público que o da universidade, embora esse espaço continue acadêmico. Corrijo-me: somos todos letrados, cada um tem o letramento que a vida lhe deu.

Para ousar, digo que a bondade didática esconde a perversidade de leituras de outros e fantásticos livros, que escapam tanto às narrativas ficcionais, ou não, que são calcados em fatos reais, ou não, e se apresentam como simbólicos, ou não.

Ao final dos anos 1960, a leitura interpretativa bondosa me permitia aproximar o romance "A Peste" de questões sociais e políticas que eram lidas como peste, à diferença que o vírus era, no entanto, instilado no corpo individual e social pelo próprio ser humano.

Essas questões estavam sendo problematizadas, ao mesmo tempo que a leitura bondosa, fora da realidade histórica mais à mão (a guerra), ou da atualidade simbólica (a peste). Pertenciam ao espaço e ao tempo da reflexão de ponta contemporânea e, por isso, não eram de fácil introdução a qualquer iniciante.

O filósofo francês Michel Foucault - Reprodução

Assumida a perversidade, a proposta de leitura encaminhava (no caso, os estudantes) à leitura de grandes pensadores contemporâneos, ainda pouco conhecidos, entre eles Michel Foucault, que pesquisavam as instituições modernas de confinamento. Refiro-me só a Foucault por questão de espaço.

Não teria sido por casualidade que ele começa a carreira com o livro "História da Loucura" (1961), onde põe em questão não só a transformação do leprosário em manicômio como ainda a clínica psiquiátrica que dele derivou e nele se montou. Segue-se o "Nascimento da Clínica" (1963).

Não é acaso se interrompe a prática para refletir sobre a teoria, como se fosse o médico Rieux estudante. Retoma o fio da meada: em 1975, publica "Vigiar e Punir". Nele, põe à vista do leitor o modo de o ser humano exercitar tanto sua concepção de justiça quanto recursos coercivos para instituir a prisão como isolamento de certos cidadãos da boa sociedade.

Num diálogo dramático de romance, dividem-se os sujeitos e suas respectivas vozes para que a sociabilidade seja construída sem exclusões tacanhas, amedrontadas, amedrontadoras, odiosas. Foucault falava e ainda fala de outra forma de divisão.

Você sempre dividiu, senhor analítico, mas para separar. Para se encaminhar à desvalorização, ao desdém, ao horror, ao asco... do grupo separado.

O leitor de Foucault dá conta do modo como, mundo afora, o isolamento de responsabilidade do vírus humano, demasiadamente humano, é tão cruel e pandêmico quanto a peste bubônica que surpreende a tranquila e bela Orã, na Argélia. Com uma diferença, as partes separadas dos confinados, se somadas, estão pondo a humanidade a salvo do lado de fora dos confinamentos.

A leitura bondosa, retomo, estava encaminhando o aluno gringo a bater à porta das excelentes bibliotecas de que felizmente dispõe, mas a fim de se instruir naquela erudição em que o mais é o mesmo.

Teria saído da sala de aula em busca de um repertório cada vez mais vasto de guerras que se sucederam no correr dos séculos e de um elenco cada vez mais completo das pestes que são registradas pela história.

O convite à leitura perversa espera deles a invenção, pela pesquisa e pelo estudo, de temas sociais, políticos, econômicos, culturais afins, que existem, têm resistência própria (padecem de ignorância) e estão à espera da curiosidade, perspicácia, inteligência e imaginação de cada leitor de "A Peste".

Quem sabe se no adubo de "A Doença como Metáfora", extraordinário ensaio escrito por Susan Sontag em 1978, quando explode a Aids, não esteja discretamente escondida uma velha leitura perversa de "A Peste". O vírus é produto de circunstâncias obscuras, mas são humanos o peso e o valor que lhe são conferidos em sociedade.

Leia-se um romance escrito à beira da genialidade, "Morte em Veneza". A doença como metáfora da decadência. A série de infectados pelo vírus da metáfora humana preconceituosa é infinita: epilépticos, tuberculosos, cancerosos, aidéticos... coronários. São todos metaforizados para explicar a decadência do corpo social.

Nos dias de hoje, seria recomendável fazer uma leitura literal de "A Peste" e aplicar essa leitura diretamente, sem mediação, à análise da complexa e absurda situação social, política, econômica em que vivemos?

Ou não seria melhor aproveitar a oportunidade dos impecáveis diálogos dramáticos que o romance apresenta para buscar, na inédita experiência de confinamento comunitário dos terráqueos, um modus vivendi e operandi mais rentável e corajoso de conhecer para valer as diferentes forças (sociais, políticas, humanas, econômicas...) que estão em jogo no quadro nacional e mundial?

Não se trata de querer conhecer forças diferentes para tirar da algibeira do próprio pensamento o band-aid ideal, o prêt-à-porter socioeconômico e político, já bem assentado comercialmente e à beira do lugar-comum em matéria de reflexão, e usá-lo para endossar, comentar ou rejeitar uma ou duas das figuras dramáticas em jogo. Não se divide, para separar. Ou se divide para separar ainda mais.

Trata-se antes de conhecer a todas as figuras em estado de laboratório (se me permitem a metáfora em nada metafórica nestas semanas), quando todas as figuras se exibem afirmativas, sabidas, informadas... Nuas e donas da verdade. Como agem, se comportam, pensam, instruem e governam.

Em estado de laboratório, a pesquisa funciona a grande vapor para todo e qualquer ser humano confinado. Cada um tem o letramento que lhe coube ter. Não há divisão, não há separação.

Alarga-se o campo da crítica às indecisões, às decisões e às conquistas do passado como também o da autocrítica diante dos equívocos e erros cometidos.

Pelo acaso da pandemia, conhece-se melhor a capacidade de ruptura, renovação e invenção humana. Amplia-se e se alarga cada universo estreito de participante da experiência vital de sobreviver. Sobreviveremos numa sociedade mais feliz, mais justa e igualitária.


Silviano Santiago, crítico literário e escritor, foi professor associado no departamento de francês da Universidade Estadual de Nova York, entre os anos de 1959 a 1976.

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