Descrição de chapéu Coronavírus

Coronavírus condena práticas insustentáveis do mundo da arte, diz galerista

Para Márcia Fortes, velho normal, marcado por excesso de feiras, viagens e sobrevalorização de artistas, se esfacelou

Márcia Fortes

[RESUMO]Galerista reflete sobre os efeitos da pandemia no mercado de arte, que se vê obrigado a reavaliar modelo predatório de negócio, marcado, entre outros aspectos, pela multiplicação de feiras internacionais e pela sobrevalorização de artistas.

“Ainda é cedo, amor, mal começaste a conhecer a vida”

Cartola

Tem gente acreditando que mudou para sempre, que foi o golpe fatal no capitalismo predatório. Tem gente que espera reajustes, mas lembra que a mineração vai bem. Tem gente de saco cheio dessa maçante interrupção. Tem muita gente com medo. E gente mergulhando fundo nos recursos epistêmicos disponíveis da vida com e pós Covid-19.

“Tudo se foi exceto um sentido da questão da existência, da existência como questão”, relia, outro dia, o clássico ensaio introdutório à crítica de arte “Modos de Ver” (1972) —e as palavras de John Berger, sobre um autorretrato de Rembrandt, ressoaram atuais. Berger nos lembra que olhar é um ato de escolha. A diferença é que em Berger a forma como vemos as coisas é afetada pelo que sabemos ou pelo que acreditamos, enquanto hoje só temos conjecturas e refutações a partir do que acreditamos.

Berger observa que nunca olhamos para uma coisa somente, sempre olhamos para a relação entre as coisas e nós mesmos. A relação entre a pandemia de Covid-19 e o setor em que atuo, o chamado mundo da arte, é análoga à de diversos setores da economia, nos quais a produção, a distribuição, a venda e o consumo praticamente paralisaram e agora se reconstroem sobre terreno incerto.

Público se aglomera ao redor da obra ‘Comedian’ (comediante), do artista italiano Maurizio Cattelan, durante a Art Basel Miami Beach - Eva Marie Uzcategui - 7.dez.2019/Reuters

Uma relação que se pauta numa situação pós-guerra e na perplexidade da contingência em meio às tradições esfaceladas pelo vírus global e pelo verme local.

Demissões e suspensões de contratos de trabalho abundam. Feiras de arte e exposições bienais foram canceladas ou postergadas. Museus e galerias estão fechados sem previsão de reabertura.

Ainda assim, sustentam, via plataformas digitais, uma programação intensa de conteúdo. Interessados em arte se deparam hoje com inúmeras televisitas de mostras e ateliês de artistas e infindáveis lives de debates críticos.

O tal novo normal tornou-se chavão desgastado, das falas do presidente da OMS à capa da Vogue Brasil, e soa conservador. Ecoa como a premeditação de um golpe para o antigo regime. Esqueçamos, porém, esse conceito perverso do normal e encaremos a nova realidade que demanda mudanças estruturais, estimuladas por flexibilidade radical e não por semântica tautológica.

“Daqui pra frente, tudo vai ser diferente, você tem que aprender a ser gente”

Roberto Carlos e Erasmo Carlos

O normal no mundo da arte era acumular incontáveis milhas de voos intercontinentais no rastro das inaugurações de bienais e trienais, de feiras, de museus públicos e privados. Aichi, Berlim, Dacar, Gwangju, Havana, Istambul, Liverpool, Lyon, Nova York, Oslo, São Paulo, Sharjah, Sydney, Taipé, Veneza, Xangai —um esforço alfabético de listar algumas cidades anfitriãs de bienais de arte.

Basileia, Bruxelas, Buenos Aires, Chicago, Cidade do México, Colônia, Dubai, Hong Kong, Londres, Los Angeles, Maastricht, Madri, Milão, Miami, Nova York, Paris, Rio de Janeiro, novamente São Paulo, Turim e Xangai —outro esforço para listar cidades anfitriãs de feiras de arte.

O fenômeno de ascensão das feiras começou em 2000, quando existiam 60 delas no mundo, ao passo que em 2019 eram mais de 300. “Art fair fatigue” (fadiga de feira de arte) tornou-se expressão clichê no circuito. Ninguém aguentava mais tanta viagem, tanta festa, tamanha ostentação. Galerias sofriam para sustentar os custos de manuseio, empacotamento, seguro e transporte de obras através dos mares; bilhetes aéreos e hospedagens; jantares oferecidos a colecionadores e curadores da vez.

O boom das feiras estabeleceu um modelo econômico análogo ao do capitalismo mais selvagem, em que impera a lei do mais forte e a escala blockbuster das megagalerias. Nem ouso comentar sobre as pegadas de carbono.

No encalço dos artifícios desmedidos, há os valores obscenos para obras de artistas vivos, alguns reconhecidos por anos de trabalho consistente, outros ainda tateando em busca de voz própria, porém alavancados ao estrelato precoce por encarnar um dos discursos prementes.

Vimos o interesse crescente por artistas mulheres ou afrodescendentes e LGBTQIAP+. São pesquisas essenciais e reparações urgentes. Resultou em arte e antiarte. Contexto acima do conteúdo. O discurso coletivo tragando a forma original. Saturno devorando seu filho.

E os profissionais do setor fundindo suas células numa multiplicidade de vidas simultâneas, num insalubre projeto de ubiquidade, sem dia de folga, sem tempo para pensar a arte no negócio de arte.

A ideia de se fazer milhões sobre a sensibilidade artística, a miséria emocional, a cobiça obsessiva ou a aptidão filantrópica das pessoas muito ricas sempre me incomodou, ao passo que agregar valor a algo tão maravilhosamente absurdo como a arte sempre me impulsionou.

Deposito aqui a crença na necessidade vital do absurdo para a nossa existência, daquilo que difere e provoca o status quo. Isso é raro e tem seu valor —um alto valor autêntico que não precisava ser especulativo como se tornou.

Semana passada a megagaleria Gagosian (16 espaços pelo mundo) postou a oferta de uma “pintura histórica” de 2001 de Cecily Brown por US$ 5,5 milhões, uma “oportunidade” nesse momento em que a busca por obras da artista “atinge novos patamares”. Se esse é o discurso em plena crise da Covid-19, imagine se o curso das coisas estivesse no modo “normal”.

A negação freudiana é um costumeiro mecanismo de defesa e a primeira fase de um processo evolutivo para a aceitação. A Art Basel (com edições na Basileia, Miami e Hong Kong) sustentava a transferência da feira de junho para setembro, até quando nos surpreendeu positivamente ao adotar um tom de humildade perante o implacável efeito da pandemia, em carta na qual admitia não garantir a realização de suas feiras neste ano e prometia 100% de reembolso, como “apoio às nossas galerias e seus artistas”.

A Frieze Art Fair (Londres, Nova York e Los Angeles) havia sido a primeira a abraçar a comunidade e garantir reembolso integral pelo cancelamento da feira de Nova York, prometendo o mesmo no eventual cancelamento da edição londrina, a rigor em outubro.

A solidariedade é factual e uma boa nova no circuito. A megagaleria David Zwirner lançou o “Platform”, um espaço dentro do seu site que abriga 12 galerias menores de Nova York. No Brasil, 52 galerias uniram-se para estabelecer diálogo com a direção da SP-Arte —a maior feira nacional, que decepcionou ao comunicar a retenção de dois terços dos pagamentos feitos para o evento, cancelado no mês passado. A negociação acontece numa hora que demanda empatia social e econômica, e o emprego de fórmulas, ainda que erráticas, pelas quais os componentes compartilham perdas mútuas.

Há, todavia, dezenas de feiras agendadas para o segundo semestre, dentre elas Art Basel, Frieze London, Fiac, Artissima, ArtRio, Tefaf e Art Basel Miami Beach. Mas é unânime a convicção de que, sem vacina, não há impulso coletivo para deslocamentos de avião com o objetivo de conglomerar-se ao redor de obras de arte. Pelo sim, pelo não, o mercado aposta suas fichas na edição online da Frieze NY, inaugurada na última quarta (6) e aberta até o dia 15.

“O experimento do mundo da arte com feiras online poderia forçar um saudável repensar?”, questionava reportagem do Financial Times na sexta (1º), em matéria alinhada com a insustentabilidade do negócio de arte. Vislumbra-se um cenário no qual mais e maior não será o melhor, com foco em qualidade e não em quantidade, menos exposições com maior duração.

Ufa! Com a retração de visitações estrangeiras, maior relevância local de artistas e galerias, afinal arte não é um objeto e sim uma experiência.

Quanto às bienais, a Manifesta, evento nômade ancorado em Marselha em 2020, postergou a abertura para outubro. A Prospect, trienal de Nova Orleans, transferiu sua edição de 2020 para 2021.

A Bienal de São Paulo adiou sua inauguração de 5 de setembro para 3 de outubro. Há certo consenso de que é pouco tempo, mas, com o tema “Faz Escuro mas Eu Canto”, a Bienal reafirma que “a arte, com sua capacidade de estabelecer conexões e emocionar, é, agora, mais necessária do que nunca”.

Como numa obra de Felix Gonzalez-Torres, a presença humana está ali, mas ausente num estado latente, querendo chegar... ou ainda quente porque acaba de partir.

“E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música”

Friedrich Nietzsche

Para além da situação global, estamos no Brasil, onde sorvemos doses outrora inimagináveis de sadismo e burrice e confusão, além da disparada do dólar, da falta de recursos e de fundamentos —enfim, uma encrenca sem tamanho.

A economia criativa —que abarca cerca de 20 setores, como música e literatura, artes cênicas e visuais, arquitetura, publicidade, moda e gastronomia— sobrevive sob sérias pancadas.

São muitos os golpes sofridos pela cultura no país, desde que o Plano Nacional de Cultura apareceu lindo no papel ao final do governo Lula e foi atropelado ainda infante pela crise político-econômica, pela radicalização religiosa no país, pelas ceifadas da censura, pela difamação arquitetada por interesses políticos, pela extinção em 2019 do ministério que nos representava, substituído por uma secretaria especial inserida no Ministério da Cidadania e realocada no Ministério do Turismo, onde lá esteve um secretário psicopata que aspirava ao nazismo, substituído por Regina Duarte, que, ensandecida, não vai agir por nós, pois sente-se “tão leve” e não quer “desenterrar os mortos”.

Órgãos culturais são comandados por lunáticos e bolsonaristas sem o menor preparo, como a turismóloga nomeada coordenadora técnica do Iphan no Rio. Só nos resta chorar pelo patrimônio histórico e artístico nacional.

A grave problemática das altas taxas de importação, de ICMS na circulação interestadual de bens culturais e das cobranças extorsivas do processo aduaneiro na entrada de obras precisa ser reconsiderada, bem como as leis jurássicas que tributam duplamente o artista e seu representante. Um mínimo incentivo seria a isenção de ICMS na importação de arte —que existe por decretos durante as feiras— passar a valer no ano inteiro. Por hora, “perfer et obdura”! (aguente e resista!)

Enorme é a amplitude do desamparo em que estamos, sem que uma nota oficial lamente a morte de alguns de nossos mais virtuosos criadores —Rubem Fonseca, Moraes Moreira, Aldir Blanc, Flavio Migliaccio.

Como nas palavras finais de Scott Fitzgerald em “O Grande Gatsby”: “Eles eram uma gente indiferente, Tom e Daisy, quebravam e esmagavam coisas e criaturas e, então, se escondiam atrás do seu dinheiro ou sua vasta indiferença ou seja lá o que os mantinha juntos enquanto deixavam que outras pessoas limpassem a sujeira que haviam feito”. Pois que se danem Tom Jair e Daisy Regina, nós vamos limpar essa merda, encontrando formas de manter vivo o prazer de ter prazer.

A revalorização de artistas, esses “vagabundos da Lei Rouanet”, começa agora por meio de filmes, romances, poemas e pinturas que hoje entretêm nossa vida cotidiana e salvam nossa sanidade. A arte sobreviveu a todas as guerras e pragas. Seu papel social mudou muito no decorrer da história, mas a arte sempre teve uma função. A arte, metafísica ou ontológica, irá reconstruir seu papel social.

Hans Ulrich Obrist, diretor das galerias Serpentine em Londres, nos relembra do Artist Placement Group, a utopia da artista conceitual britânica Barbara Steveni, na qual as indústrias empregariam artistas como agentes de mudança.

Há muitas reflexões para que o mundo da arte não retorne como um espectro de si mesmo. Para que nós, agentes do ecossistema da arte, possamos conjugar com vigor duas forças aparentemente antagônicas: o voo da imaginação criativa e a lógica da razão cartesiana, e assim ter coragem para reinventar nosso negócio sem perder seu propósito.


Márcia Fortes é sócia-fundadora da galeria de arte Fortes D’Aloia & Gabriel.

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