Descrição de chapéu

Biografia premiada erra ao afirmar que Susan Sontag é a real autora de livro de ex-marido

Benjamin Moser não apresenta provas objetivas que contestem a autoria de clássico estudo sobre Freud, avalia escritor

Martim Vasques da Cunha

Doutor em ética e filosofia política (USP), é autor de "Crise e Utopia - O Dilema de Thomas More", "A Poeira da Glória - Uma (Inesperada) História da Literatura Brasileira" e "A Tirania dos Especialistas" (Civilização Brasileira)

[resumo] Escritor contesta tese polêmica, defendida por Benjamin Moser em biografia premiada com o Pulitzer, de que a ensaísta americana Susan Sontag seria a verdadeira autora de um livro clássico atribuído a seu ex-marido, Philip Rieff. Equívoco seria fruto da incompreensão do biógrafo acerca do sentido da obra de Rieff e da trajetória intelectual do casal após a separação.

O que Susan Sontag (1933-2004) e Philip Rieff (1922-2006), dois obcecados pelas moléstias do corpo e da alma, diriam desta nova peste do momento, o coronavírus?

Essa é a pergunta que surgiu quando, no último 13 de maio, dois meses depois de a OMS (Organização Mundial de Saúde) ter classificado a Covid-19 como pandemia, um grupo de intelectuais —os americanos Carl Rollyson e Lisa Paddock, a chilena Magdalena Edwards e a brasileira Nádia Gotlib— escreveu uma carta aberta a Benjamin Moser, vencedor de um Prêmio Pulitzer neste ano pela biografia “Sontag - Vida e Obra” (Companhia das Letras), sobre a ensaísta norte-americana.

A biografia apresenta uma suposta descoberta escandalosa: Sontag seria a verdadeira autora do livro “Freud: A Mente do Moralista” (1959), atribuído ao célebre sociólogo Philip Rieff, de quem foi aluna e depois esposa de 1950, quanto tinha apenas 17 anos, a 1958. Segundo Moser, teria cedido o crédito para poder ficar com o filho do casal após o divórcio.

A carta dos intelectuais, não menos polêmica, diz que tal afirmação é, “na melhor das hipóteses, uma má compreensão da noção de autoria e, na pior delas, uma distorção calculada dos fatos no intuito de angariar publicidade”. Dois dos autores do documento, Rollyson e Paddock, são autores de uma biografia de Sontag lançada em 2000.

Há outras reclamações. O biógrafo também teria se apropriado, sem dar créditos, do trabalho de outras pessoas, como seria o caso da brasileira Nádia Gotlib, uma das autoras da carta aberta. Ela escreveu uma biografia pioneira sobre Clarice Lispector (“Clarice, Uma Vida que se Conta”, de 1995), que teria sido a base para o primeiro e bem-sucedido livro de Moser, também uma biografia da autora brasileira, “Clarice,”, publicada em 2009.

Esse assunto espinhoso foi abordado, com provas e exemplos, em texto da pesquisadora Márcia Lígia Guidin publicado no Rascunho em dezembro de 2017. Ela mostra que Moser foi apenas um divulgador pouco talentoso da obra de Lispector para o mundo anglófono.

A carta aberta diz ainda que Moser tratou de forma desrespeitosa qualquer outra pessoa que tentasse intervir no seu nicho literário —no caso, a divulgação internacional dos livros de Clarice. A tradutora Susan Bernofsky, por exemplo, escreveu em sua página no Facebook que Moser era “um valentão que me agrediu e ameaçou fisicamente”. Diante de tudo isso, concluem os autores da carta, o júri que concedeu o Pulitzer a Moser deveria rever sua decisão.

Os fatos são sérios e merecem ser investigados. Todas as supostas vítimas estão vivas para dar suas versões. Há, porém, uma injustiça oculta nesse emaranhado de nomes, da qual padece a memória de Rieff.

Com raríssimas exceções, como uma resenha de Janet Malcolm na revista The New Yorker, quase ninguém da grande imprensa resolveu averiguar se o que Moser afirmava sobre Rieff-Sontag era verdadeiro. A maioria das pessoas realmente acreditou que Sontag foi a única autora de “Freud – A Mente do Moralista”.

Qual é a importância disso para as nossas vidas já angustiadas por uma pandemia? Simples: Moser dificultou qualquer possibilidade de conhecermos um grande autor que nos ajudaria a entender o que ocorre nesta era do coronavírus.

Moser não apenas despreza Rieff; ele o odeia com todas as suas forças. Justiça seja feita: o livro também não edulcora a sua protagonista. Ela é retratada, especialmente no final, como intelectual vaidosa, imprevisível, verdadeira “prima donna” das letras americanas, capaz de usar suas relações amorosas para subir na carreira profissional. Se, no início da narrativa, Moser mostra uma evidente admiração pelo seu objeto de pesquisa, no final fica nítido que já não o suporta mais.

Há uma vantagem nessa perspectiva. Moser consegue encontrar um fio comum na obra dispersa e variada de Sontag: a tensão entre o real e a sua representação, na qual o perigo de se transformar em uma “metáfora” nos leva a atuar no mundo como se ele fosse uma abstração. O problema é que, nos esclarece a biografia, a própria Sontag se tornou essa “metáfora” —a notoriedade de seus escritos se deve muito mais ao mundo da publicidade do que ao da vida intelectual.

A revelação de que Rieff teria se apropriado do trabalho de sua então esposa surge desse impasse. Apesar de ter sido uma divulgadora talentosa, Sontag, em seus ensaios e romances, não chega a ter a profundidade do que foi produzido pelo seu ex-marido após o lançamento de “Freud: A Mente do Moralista”.

Não à toa, Rieff influenciou as obras de Christopher Lasch —em especial os clássicos “A Cultura do Narcisismo” e “A Revolta das Elites”—, de Alasdair MacIntyre (no essencial “Depois da Virtude”) e da própria Sontag, sobretudo um de seus grandes textos dos anos 1960, “Uma Cultura e a Nova Sensibilidade”.

É comum que intelectuais que se casam exerçam uma grande influência mútua em seus respectivos trabalhos. Não seria diferente com Sontag e Rieff. Estudiosos reconhecem há décadas que ela seria coautora não oficial do livro do ex-marido. Moser não apresenta, contudo, nenhuma evidência objetiva de que Rieff não tenha escrito seu livro. Simplesmente diz que Sontag seria a verdadeira autora da obra.

Para isso, se vale de uma carta de Sontag para sua irmã, Judith, na qual escreve, em 1950, que era “ghost-writer” do marido. Há também o depoimento de Sigrid Nunez, uma ex-namorada do único filho de Sontag e Rieff, David, que seria a última palavra sobre o assunto.

Contudo, Moser não menciona o adendo feito pela própria Nunez em suas memórias sobre a ensaísta, “Sempre Susan” (2011): ao ouvir Sontag se dizer autora do trabalho do ex-marido, relembra que ela era dada a criar “exageros sobre si mesma”.

Logo, por que o ataque direto à reputação de um homem que, uma vez morto, não pode se proteger? Para isso, precisamos entender qual foi a conclusão perturbadora a que chegou Rieff ao final de seu primeiro e tão polêmico livro —expandida depois em “O Triunfo da Terapêutica” (1966) e “Fellow Teachers” (1973).

A partir do estudo de Freud, ele registrou três tipos de comportamento e de cultura que determinaram, direta ou indiretamente, três períodos —ou mundos, na sua terminologia— da história.

No primeiro mundo temos o homem político, fundamentado nos fatos brutos do paganismo, dissecados depois pela razão dos filósofos gregos. Para o religioso, há o segundo mundo, inspirado pela fé que orientava a revelação judaico-cristã. E, para o terapêutico, o terceiro mundo, falsificado pelas ficções do relativismo moral e pela revolta contra qualquer tipo de ordem sagrada, em contraposição ao totalitarismo das ideologias políticas.

Na base dessa análise, Rieff expõe a tensão entre poder e autoridade. Para ele, os dois termos nunca foram sinônimos. O primeiro existe para quem respeita, antes de tudo, a hierarquia objetiva de valores na estrutura do real. O segundo ocorre para quem não há quaisquer limites em suas ações.
A autoridade equilibra a arrogância do poder —aquilo que os gregos chamavam de húbris, a rebelião que caracterizaria o mundo moderno.

A descoberta feita no final de “Freud: A Mente do Moralista” é que estamos imersos no terceiro mundo, simbolizado por “trabalhos de morte”, objetos estéticos que defendem os valores de uma anticultura, a qual, ao recusar a autoridade, prefere o poder absoluto e ilimitado, vivendo somente de acordo com o desejo do homem terapêutico.

O verdadeiro ponto cego da biografia de Moser é que tanto o seu trabalho como a trajetória de Sontag se encaixam perfeitamente nessa cultura terapêutica —e daí vem o seu rancor implícito pela obra de Rieff.

Porém, ao insistir nesse tópico, Moser põe um obstáculo para que o grande público reconheça a compreensão adequada em torno da peste da Covid-19, uma vez que Rieff foi um dos poucos autores a prever com exatidão o surgimento de uma quarta cultura, na qual o fato e a ficção se tornam indistinguíveis. Ou seja: ele viu, antes de todos, o nosso mundo contaminado pelas fake news.

Assim, é irônico observar que, enquanto sua ex-mulher ia para a ribalta, Rieff praticamente se escondeu, escrevendo seus livros para um público restrito, aprofundando os insights já feitos na sua estreia literária. Isso, todavia, mostra o oposto do que Moser quer provar, uma vez que eles seguiram por caminhos diversos em suas trajetórias intelectuais após a separação.

Como bem demonstram Kevin Slack e William Batchelder em outro artigo sobre a polêmica, se Rieff se tornou um defensor da cultura orgânica, orientada pela autoridade e não pelo poder, Sontag foi o exemplo da “anticultura”, a nova sensibilidade que defendia uma arte plural, contraditória e que, por isso mesmo, evita encontrar um sentido pleno em epidemias a serem tratadas como “metáforas” de algo maior.

No mundo do coronavírus, os pontos de vista de Rieff e de Sontag precisam ser vistos não como opostos, mas sim complementares. Infelizmente, a biografia de Moser não contribui para isso.

Parece que ele não compreende que, em uma história de amor, por mais triste que seja, quem tinha razão era Ortega y Gasset. Para o filósofo espanhol, a mulher vale pelo que ela é, enquanto o homem se mostra em seu fazer.

Nessa relação, um molda a personalidade do outro, e talvez tenha sido isso que Rieff entendeu quando fez, à beira da morte, a seguinte dedicatória na abertura de sua derradeira obra, "Sacred Order/ Social Order" (um detalhe mencionado por Moser como se fosse algo irrisório): “Susan Sontag, em memória”.

Se essa declaração já indica um arrependimento público, por que menosprezar isso no relato da vida de uma das maiores intelectuais midiáticas do Ocidente? É de supor que, ao fazer a biografia de Sontag, Moser também escreveu o panorama de uma época que não existe mais — de um terceiro mundo que seria ultrapassado em breve, sem saber como lidar com essa transição, e que nele só lhe resta uma nostalgia a ser premiada com um Pulitzer e com os apupos do quarto mundo literário.

Neste crepúsculo dos deuses, ocorrido durante um flagelo, a acusação injusta de Moser referente à grande obra de Rieff é o indício de uma outra doença que nos atingirá no futuro, depois que a Covid-19 sumir: a de que, como diria o poeta W. H. Auden, estaremos enredados em “ardis mecânicos”.

Nesse novo normal, tudo o que foi celebrado no passado será apenas uma “nota erudita”, a ser desprezada por uma “geração mecanizada”, que trocará a sabedoria por grunhidos.

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