Descrição de chapéu Coronavírus

Celebrar conquistas ecológicas e sociais da pandemia é delírio, diz sociólogo

Para autor, coronavírus tornou vida mais artificial e aumentará níveis globais de desigualdade

José Guilherme Pereira Leite

[RESUMO] À semelhança de ficções distópicas, pandemia aprofundou artificialização do cotidiano, isolamento de pobres em moradias precárias e sentimento de angústia sobre o futuro. Previsões sobre o mundo pós-coronavírus são terreno fértil para a ficção, não para a reflexão acadêmica, diz autor.

Sobre a crise pandêmica que nos acomete, eis a única futurologia crível, porque já presente: tudo o que estamos passando aumentará os níveis mundiais de desigualdade sócio-étnico-econômica, que já eram horrorosos em perspectiva cristã ou funcional. Mas e a evidente melhora do ar e das águas, os tais ganhos ambientais que o “decrescimento” trouxe?

Nas grandes cidades, até o momento, o novo coronavírus transformou os mais ricos em meros consumidores, na linha das ficções distópicas. Estamos mais próximos dos robôs do comércio online, em nosso cotidiano privado dominado por premências fisiológicas e pela atividade turva dos encontros virtuais, das relações impalpáveis com imagens. Netos não tocam avós. Mantemos uma dieta solitária, recorrendo a aplicativos de compra que prometem agilidade na entrega e auxílio nas escolhas racionais, balanceadas, ao estilo da nutrição sideral.

Aumentamos ainda mais nosso uso de máquinas mcluhanianas que, como extensões de uma corporeidade agora verdadeiramente truncada, expandem as telepresenças e estimulam a musculatura, adiando o colapso de nossas estruturas ósseas “desenhadas” pela natureza para funcionar ao ar livre, sob sol, vento e chuva.

Sol, vento e chuva tornaram-se commodities impossíveis, cujo gozo é controlado pelas leis que regulam a fruição do espaço. O novo coronavírus, desse modo, aprofundou a artificialização da vida e impediu experiências pouco assépticas, cultuadas pelo hábito descalço e desnudo. A vida boêmia voltou a ser infecta. Compartilhar cigarro é risco.

Com luvas kubrickianas, borrifamos germicidas nas cascas de ovo, respirando por trás de máscaras. Complicou-se o contato orgânico entre mãos e alimento. Ratificou-se a telemedicina, e, mesmo para aqueles que vão a hospitais, o médico é sem rosto, como naquela cena marcante do “E.T.”, de Spielberg. No sufoco, ficamos da porta para dentro, minando-se assim a tímida porém fortuita retomada do espaço público, sobretudo pelos jovens. A maioria não fugiu para o campo. O campo é "prime", como a casa de praia.

Os pobres, até aqui, o novo coronavírus reduziu à condição de presidiários domésticos, no programa canhestro da autoconstrução e do “in-saneamento” bubônico. As habitações são exíguas e de pouca infraestrutura. São as células cínicas do morar onde grandes e complexas famílias revezam um só banheiro, tornando risível a cartilha do isolamento.

Há até aqueles que têm quintais, mas assim mesmo rezam diuturnamente pelo pão do dia, circulam à procura de caridade ou assistência na defesa da prole, não dispondo de playgrounds nem sequer em rodízio. São as periferias de sempre, onde estendem-se as filas da Caixa, onde falham as conexões de rede e o Rappi vai dormir cansado depois de abastecer o centro. São os barracos de sempre, onde netos e avós dividem a cama.

Entre ricos e pobres, algo em comum: poucos sabem seu destino na nova configuração socioeconômica que emergirá e que desconhecemos, pois está em processo. Assistentes sociais, terapeutas e psiquiatras trabalham como nunca, na urgência de fomes e angústias extremadas. Aumentou o consumo de bebidas e psicotrópicos, conforme o vaticínio de Huxley. Pipocam previsões arrepiantes a respeito do ilhamento, de um mundo sem praças ou parques, com ilusões neuronais instaladas na sala.

Em tais imaginações, se houver renda garantida, os óculos de videogame nos trarão o céu aberto, turbinado por tecnologias endodérmicas complementares que, ao estilo “Black Mirror”, restaurarão na pele a sensação perdida: sol, vento e chuva, sexo e fluidos, plantas e terra, rumores dominicais de criança correndo.

As TVs e rádios, os jornais e a internet se acham assim coalhados de charlatões do amanhã, dublês de intelligentsia preditiva externando palpites exóticos sobre o mundo porvir, arriscando-se na roleta da futurologia que consagrou Nouriel Roubini em 2008. Na Bloomberg News, Anthony Fowler alertou elegantemente os incautos: a Covid-19 é mau negócio para as ciências sociais, mas poucos ouviram.

Produzem-se assim quilos de caracteres que enrubescerão carreiras, conforme aconteceu com Giorgio Agamben: apressado em esposar os efeitos do "lockdown" e sua justa visão sobre as brutalidades biopolíticas do Estado ultramoderno, Agamben apostou na minimização constrangedora da doença e de suas consequências sanitárias, num lance de má-calibragem doravante carimbado em seu curriculum.

Essa sociologia afobada praticada igualmente por medalhões e neófitos ignora a demora do conhecimento e maltrata a lição das teorias da história: as imanências do presente são assaz imanifestas e sujeitas às muitas variações do acaso, do imprevisível e do inimaginável. A própria pandemia é exemplo disso. Portanto, os cenários de futuro não são brincadeira boa para rascunhos especulativos, mas são férteis para a ficção e a arte. Essas sim, como instâncias da livre maquinação, interessam enormemente porque apresentam insights, fobias e posições relativas.

Uma dessas ficções vulgares circulou no WhatsApp da classe média na última semana. Em um vídeo inglês, um homem louro e de rosto quadrado, com sotaque britânico, se encontra num futuro distante e conta para seu filho que o ano de 2020 foi marco de uma virada para a humanidade: vivíamos um dia a dia de equívocos, destruindo o planeta, siderados por telinhas e telonas que nos impediam até mesmo de atentar para os filhos. Foi então, diz o pai, que veio o novo coronavírus, causando transformação radical.

Moral: não foi fácil, é claro, muitos morreram, mas foi graças àquela longínqua pandemia que voltamos a viver em família, consumir menos, andar devagar, desligar os celulares, respirar fundo, cozinhar folgadamente. No “fofismo” que nos assola, pipocam carochinhas de mau gosto.

Essa é particularmente grotesca e interessante porque sintetiza o delírio oposto ao desespero apocalíptico. Sua fantasia central é a transformação da doença em cura, pressupondo que a pandemia é panaceia e fará emergir um mundo melhor. É a transformação da Covid-19 no “Emplastro Brás Cubas” para todos os desvios predatórios que andamos cometendo.

Até o momento, exceto pela desaceleração que indubitavelmente melhorou o ar e as águas urbanas, nós apenas pioramos em todos os quesitos de que o próprio vídeo trata. Há muito sabemos que toda depressão econômica resulta positiva para o meio ambiente. O desafio real, porém, não é simplesmente puxar o freio da economia, mas também encontrar formas novas de renda, desatreladas da performance produtiva, a fim de que a recuperação ambiental não se faça no lombo dos mais pobres, às custas de seu martírio e de seu extermínio, como está acontecendo.

Qualquer celebração de supostas conquistas ecológicas, elevações espirituais ou "joie de vivre" baseada nesses primeiros efeitos da pandemia é tão caricata e paralógica quanto o “fim do mundismo” e tão desgraçadamente necrofílica quanto a trampa bolsonarista do negacionismo.


José Guilherme Pereira Leite, sociólogo e ensaísta, é professor e coordenador de Relações Institucionais da Escola da Cidade.

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