Leia conto de Martinho da Vila sobre tempo de pandemia

Em 'Efeitos de uma Virose', cantor e escritor satiriza crise sanitária brasileira

Martinho da Vila

[SOBRE O TEXTO]Martinho da Vila cria neste breve conto uma sátira da crise sanitária brasileira, na qual um país chamado Bruzungo é atacado por uma virose gripal menosprezada pelo presidente.

Um dos problemas das grandes cidades é o trânsito, principalmente na parte da manhã, período em que os trabalhadores se deslocam para exercer seus ofícios, e da mesma forma no fim da tarde, na volta para suas casas.

Isso mudou quando uma virose gripal assolou Bruzungo, um país imaginário de dimensões continentais, e houve uma ordem do Ministro da Saúde que suspendeu todas as atividades de lazer, a começar pelos eventos artísticos, e, mesmo sem o aval do chefe do Poder Executivo, a determinação foi cumprida.

Alegria e lazer são necessidades vitais, mas teatros, cinemas, boates, casas de show, bares com música ao vivo, lanchonetes e restaurantes cerraram as portas. Estabelecimentos comerciais em geral tiveram de interromper suas atividades, com exceção de farmácias, supermercados e postos de combustíveis. Hospitais só recebiam pacientes em casos de emergência.

Cinco duplas de pessoas se abraçando
Ilustração para a Ilustríssima - Lívia Serri Francoio/Folhapress

O decreto determinava que todos os cidadãos e cidadãs deveriam permanecer em suas casas, com exceção dos trabalhadores de serviços essenciais, obrigados a usar máscaras —e a maioria usava as de pano branco.

Riacho de Janeiro, a alegre cidade capital cultural de Bruzungo, vazia, ficou triste. Em casa, a maioria evitava falar de coisas desagradáveis e privilegiava a alegria nas conversas. Se alguém ligava para um amigo ou amiga, e perguntasse como estava passando, mesmo se não estivesse bem a resposta era positiva.

O prefeito de Riacho, capital do estado fantasioso, praticamente não tomou nenhuma providência com relação à virose. Evangélico por conveniência política, entrevistado por uma jornalista disse que o momento era propício para meditações e que todos deviam fazer como ele: orar de manhã, de tarde e de noite.

A maioria dos habitantes era adepta de religiões de matriz africana e, ao invés de orar, cantava um ponto de umbanda: “O sino da igrejinha fez belém-bem-blam / À meia-noite o galo vai cantar / Seu Tranca Rua que é o dono da gira, / Vai correr gira quando Ogum mandar”.

Tudo que acontece de ruim tem algo de bom. Por exemplo, a reclusão proporcionou a união de uma família composta por pais e filhos adultos que praticamente não se comunicavam e, graças ao recolhimento, se integraram.

Os filhos estudavam em horário noturno, chegavam em casa quase sempre pela madrugada, dormiam até a hora do almoço e comiam sem desjejuar. Cada um arrumava a sua cama ao acordar e, harmoniosamente, dividia os afazeres domésticos.

A boa dona de casa deixava, diariamente, os almoços pré-cozidos, e o marido, que também gostava de cozinhar, fazia os jantares. A filha lavava louças, mantinha a cozinha limpa, e o rapaz faxinava com satisfação.

A mãe, médica, clínica geral, saía bem cedo para atender seus pacientes, e antes aprontava o desjejum, tomava e deixava a mesa preparada para o marido que dormia até mais tarde e não era incomodado para tomar o café da manhã, a primeira refeição que os portugueses chamam de pequeno almoço, os americanos, de breakfast, os franceses, de petit dejeuner, e os angolanos, de mata-bichos.

Aos domingos, dia de churrascaria em família, não jantavam. Faziam um bom lanche e preenchiam o tempo com jogos de cartas nos divertidos “mexe-mexe, crapô e tranca”, este mais difícil que a canastra, popularmente chamada de buraco.

Buraco? Por que é chamado assim? Ah! Lembrei. É devido à intenção de terminar o jogo em contagem alta e deixar o parceiro ou parceira bem embaixo, no buraco.

O marido gostava muito de disputar uma canastra de tranca de cara a cara com a mulher, mas ela nem tanto. Então ele ficava mexendo nas cartas sozinho ou rachando a cuca nos jogos de paciência no computador.

Com o passar do tempo, veio em todos a impressão de que os dias se tornaram mais longos, sem graça. As noites também. Tudo foi ficando muito chato, os ânimos foram se alterando e algumas discussões aconteciam.

As necessárias reclusões domiciliares geraram neuroses, em uns de histeria, em outros de angústia. As providências preventivas prejudicaram a todos, até aos mendigos que viviam de esmolas.

Atores ficaram depressivos com as interrupções das suas interpretações nas peças, e os cantores, entristecidos pelo cancelamento dos seus shows. Estes mais sentiram porque foram impedidos de viajar e raramente ficavam um final de semana em casa.

Quando bombardeada por um antídoto, a virose se esvaiu, mas deixou sequelas na sociedade. Muitas mulheres ficaram com mania de limpeza e higienizavam suas casas em excesso, lavavam as mãos demasiadamente, passavam álcool nas palmas depois de lavadas com sabão e exigiam que o marido e os filhos também agissem assim

Amigos não se encontravam como antes da pandemia e se divertiam brincando de vídeoconferência e evitavam falar de política, religião... Pessoas de vida social intensa viraram caseiras, amantes deixaram de fazer amor e os namorados custaram a voltar aos beijos.

Por terem permanecido muito tempo juntos, pais, filhos e irmãos se evitavam. Esposas iam para os salões de cabeleireiros e manicuras e por lá permaneciam o máximo de tempo possível, e maridos saíam e só retornavam em altas horas, com a esperança de que elas já estivessem dormindo. Em consequência, a falta de bom relacionamento, inclusive sexual, resultou em muitos desenlaces, e o mandatário de Bruzungo, também separado de sua família, dormia na residência governamental.

Político hábil, logo que se certificou do fim da epidemia, para tirar proveito da situação, apareceu no principal noticiário da televisão, fez um pronunciamento agradecendo a população por ter seguido as instruções governamentais e enalteceu o SUS, o Serviço de Urgência Sanitária, pelas providências tomadas.

Era comum, durante a sua fala, acontecer um panelaço em todas as capitais do estado, mas desta vez não houve. O povo não estava irritado, e em alguns municípios eclodiram aplausos.

Os habitantes de Riacho de Janeiro, bem-humorados e gozadores, bateram panelas festivamente, em ritmo de marcha carnavalesca, e ao mesmo tempo gritavam: ”Viva o SUS! Palhaçôoo! Vai tomar no SUS!”.


Martinho da Vila é cantor e escritor.

Ilustração de Lívia Serri Francoio, ilustradora e animadora 2D.

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