Descrição de chapéu Eleições EUA 2020

Em diálogo ficcional, Sidarta Ribeiro discute sangria de Trump e jogo sujo na eleição

Personagens de neurocientista também debatem Brasil e elogio de Mourão a Ustra

Sidarta Ribeiro

Neurocientista e fundador do Instituto do Cérebro da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), é autor de "O Oráculo da Noite: A História e a Ciência do Sonho" (Companhia das Letras)

[RESUMO] Em novo diálogo ficcional entre Sagredo, otimista incorrigível, e Simplícia, pessimista contumaz, cujos nomes ecoam personagens de Galileu Galilei, autor comenta temores de ruptura institucional nas eleições dos EUA, enquanto no Brasil Bolsonaro decreta o fim da corrupção, a milícia neopentecostal vende o país na xepa e resta lembrar o poeta Manuel Bandeira.

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Boteco virtual de Sagredo e Simplícia, amigos do milênio passado, na última sexta-feira, 16 de outubro de 2020, Brazil.

Sagredo
Fala Simplícia, como vai essa força? Bora molhar a palavra? O Salviati não confirmou que vinha, mas tenho esperança. Vamos dar início aos trabalhos?

Simplícia
Rapaz, acho que hoje vou tomar chá de boldo. A realidade está negra.

Sagredo
Preconceito teu com negras e negros, que junto com índias e índios são responsáveis por quase tudo que presta neste país. A realidade está é branca, muito branca, alvíssima de supremacia branca e patriarcado decadente. Mas abre tua cevada aí porque o dia de glória se aproxima: Trump está quase perdendo a eleição. E quando ele perder, os neofascistas espalhados pelo mundo vão ser postos pra correr a golpes de cédulas e urnas eletrônicas.

Donald Trump em frente a microfone
O presidente dos EUA, Donald Trump, discursa em comício em Greenville, na Carolina do Norte - Brendan Smialowski - 15.out.20/AFP

Simplícia
Cê tá delirando, bicho, pare de beber aí porque já deu. Se liga no que vou te dizer: apesar de tudo que aprontou, o Trump ainda tem grande chance de vencer a eleição. Ele mantém o apoio de mais de 40% do eleitorado e está empregando várias estratégias para prejudicar a votação nos locais em que os democratas são prevalentes. O jogo é muito sujo.

E mesmo que o Trump perca, tem grande chance de continuar presidente, por causa das leis esdrúxulas que os gringos criaram nos séculos 18 e 19 e que nunca revogaram, verdadeiros alçapões jurídicos que na prática, hoje em dia, favorecem os republicanos no Colégio Eleitoral.

Sagredo
Balela. O Trump está é ferido de morte. Predador perigoso, claro, mas sangrando diariamente em todas as telas do mundo, cada vez mais assustado e agressivo à medida que seu poder se esvai, rosnando, babando e defecando ideias podres, cada vez mais em pânico por sua morte política iminente. Pegar Covid na reta final da campanha eleitoral simplesmente acabou com ele.

Simplícia
Imagina, ele se deu foi bem. Quando o New York Times publicou a bomba dos impostos federais que ele nunca pagou, Trump subitamente se declarou doente e a mídia toda mudou de assunto e falou da doença dele. Superexposição grátis nos meios de comunicação, repentina e conveniente mudança de assunto e Trump no centro de tudo como sempre. A Covid está para o Trump como a facada está para o Bolsonaro.

Sagredo
Você quer dizer que é uma fraude?

Simplícia
Talvez sim, talvez não, sei lá. O que estou querendo dizer é que o evento do contágio permite a ele entortar a narrativa para dizer que é vítima e ao mesmo tempo super-homem, um campeão nato, um sobrevivente predestinado, vencedor contra tudo e contra todos que não se dobrou nem ao coronavírus, capaz de emanar o que ele vem chamando de “aura de imunidade”. Um Benito Trumpolini, duce pós-moderno revigorado pelo caríssimo coquetel imunológico que ele propagandeou, vendido com exclusividade por uma empresa da qual ele inclusive tem ações.

Sagredo
Mas não está colando. Não colou. Nas últimas semanas, grandes contingentes de eleitores mais idosos abandonaram o Trump, pois está se consolidando a percepção de que seu governo sabotou o acesso da população à prevenção e ao tratamento. Grande parte do povo pobre dos EUA se sente traído por Trump, e isso não mudará nas próximas semanas.

Simplícia
Vamos ver, vamos ver. Lembre-se de que os republicanos costumam vencer no tapetão, litigando localmente nos distritos eleitorais e depois levando os casos até a Suprema Corte, que no passado já deu a Presidência a eles de bandeja, na disputa Bush versus Gore em 2000.

Pra piorar, a morte da juíza progressista Ruth Bader Ginsburg, a menos de dois meses das eleições, abriu mais uma vaga na Suprema Corte, que o Trump está tentando preencher a toque de caixa com Amy Coney Barrett, uma juíza religiosa extremamente reacionária, escolhida a dedo para torpedear o programa de saúde da época do Obama e o direito ao aborto seguro e legal, conquistado há quase 50 anos.

Do jeito que a novela está se desenrolando, a eleição vai ser contestada na Suprema Corte, e a juíza Barrett vai poder votar a favor do seu chefe imoral.

Sagredo
Isso só vai acontecer se o resultado for parelho. Se o Biden confirmar a preferência demonstrada nas pesquisas deste mês, a derrota do Trump será inquestionável.

Simplícia
Como eu gostaria de ver o mundo com seus óculos cor-de-rosa, Sagredo... Ao contrário do que você imagina, o cenário lá é totalmente distópico. Trump é do mesmo naipe do Putin, quer ficar 30 anos no poder. As milícias supremacistas estão se preparando para provocar o caos se o Trump perder. A população está quase toda armada e extremamente polarizada, são os ingredientes clássicos de uma guerra civil sangrenta.

Sagredo
Mulher, você precisa tratar essa paranoia. Talvez devesse trocar a birita por algum fitoterápico, uma passiflora, um óleo de cânabis, sei lá. Coloca um canabidiol no teu coração e pensa comigo: a democracia é imperfeita, mas é concreta, é real. A maioria contra o Trump está se firmando inexoravelmente, ele está prestes a ser defenestrado do poder —e a queda vai ser retumbante.

Ele ferrou o povo norte-americano além de qualquer limite aceitável. O que ele fez tem nome: alta traição. Sim, o coronavírus é virulento e letal, mas não era preciso ter morrido quase 220 mil pessoas no país mais tecnológico do mundo. Isso é 75% das mortes norte-americanas em combate na 2ª Guerra Mundial, Simplícia! E sem luz no fim do túnel!

Nesta semana, tiveram o recorde de novos casos desde agosto. A epidemia está acelerando em 44 dos 50 estados norte-americanos, o país está indo para a terceira onda de contágios. É um desastre de proporções históricas, para sempre célebre. Como no poema do Bandeira: “A vida inteira que podia ter sido e que não foi”.

Simplícia
Muita hipérbole pro meu gosto.

Sagredo
Realismo, minha cara, realismo. Dessa vez o Trump sifu. Depois de negar a doença completamente, contraí-la foi o fim de linha para a narrativa dele. E não foi só ele que pegou, foi toda a entourage da Casa Branca: a esposa Melania, altos comandantes militares, conselheiros, assessores, senadores, políticos, estafe de comunicação, seguranças... é um mico espetacular, um desastre administrativo sem precedentes na história dos EUA, uma enorme humilhação nacional.

O homem ficou andando sem máscara pelo corredores, um espectro contagioso de líder patético a somatizar a miséria intelectual e afetiva que seu governo representa. Parece um filme de zumbis dirigido pelo George Romero e protagonizado pelo Martin Sheen.

Simplícia
Pode ser, pode ser... mas no Brasil não foi nada disso que aconteceu. O Bozo pegou Covid, e pouco depois a popularidade dele aumentou, aliás, está no caminho de se reeleger. O auxílio emergencial acabou levando à maior redução da desigualdade da história do Brasil, tal como medida pelo índice de Gini.

Sagredo
Mas o efeito do auxílio emergencial na opinião pública já está passando. Transitório o auxílio, transitória a redução da desigualdade, transitória a popularidade.

Simplícia
Não sei de onde você tira tanto otimismo. Presta atenção, raciocina comigo. Bozo é um animal político bem adaptado ao ecossistema de relações do centrão-MDB-DEM, a legião herdeira da Arena, tanto na genética quanto na epigenética. A turma dos péssimos hábitos. O Bozo tá quase entrando no MDB, Sagredo! Se as investigações da rachadinha não forem adiante, ele se reelege fácil.

Sagredo
Só se o Lula não for candidato.

Simplícia
Mesmo que seja, vai ser páreo duro, duríssimo. O Bozo se deu bem como político de envergadura nacional porque conseguiu sintonizar a rádio calhorda que toca no coração de tantos compatriotas. Cresce a brutalidade policial, crescem as mortes por arma de fogo, cresce o suicídio. A Amazônia está em chamas, o Pantanal está ardendo, os indígenas estão em risco de extinção —e diante disso tudo, o gado aplaude.

Sagredo
Verdade. Ele faz sentido pra esse povo todo justamente por sua boçalidade, essa é a base da empatia recíproca que liga o Bozo aos seus minions. É difícil desconstruir um político escroto que é amado justamente por seus piores defeitos!

Simplícia
Nisso concordamos. E não percamos de vista que o sucesso atual do Bozo em se equilibrar no poder também tem a ver com o hábito que ele e sua turma têm de intimidar as pessoas. É justamente por isso que estou tão preocupada, Sagredo. O Brasil está sendo desmanchado e vendido barato na xepa pela milícia neopentecostal de Rio das Pedras, cujo líder decretou na semana passada o fim da corrupção e é isso aí, talkei?

E quem discordar vai pra vala, seja jurídica, como o João Paulo Cuenca e o Márcio Astrini, seja à bala, como a Marielle Franco e o Anderson Gomes. Nesse contexto faz todo o sentido a declaração recente do Mourão, de que o Ustra “era um homem de honra e um homem que respeitava os direitos humanos de seus subordinados”. Ok, tá certo então... que tristeza.

Sagredo
Calma que o futuro vem aí. O Bozo está em alta, mas com viés de baixa. As contradições estão se acumulando. Conhecereis a verdade e ela vos libertará. Por que o vice-líder do governo no Senado e amigão do Bozo, Chico Rodrigues, do Democratas, foi apanhado com dinheiro no traseiro? Por que o Queiroz depositou R$ 89 mil na conta da Michelle?

Simplícia
Até tu, Sagredo?

Sagredo
Claro, uai. Já dizia Sérgio Mallandro: “O povo quer saber! Glu glu, glu glu...”.

Simplícia
Rapaz, hoje tá difícil aguentar o teu senso de humor sofisticado... o Salviati não vem mesmo não?

O papo é subitamente interrompido pelo pontual panelaço das 20h30. Como acontece todos os dias às 20h32, o vizinho à direita de Simplícia inicia a veiculação em 90 decibéis dos hinos à bandeira e do soldado e “eu te amo meu Brasil, eu te amo”. Quando o som arrefece o papo recomeça.

Simplícia
Cadê o Salviati, não vem não?

Sagredo
Deixa eu ver aqui no zap... ih, não vem mesmo não. Tá de buena em casa com o namorido, curtindo um Miles Davis.

Simplícia
Então tá melhor que nós...

Sagredo
Olha só, acabou de mandar um zap: “Amo vocês, infinitamente!”. Fofo!

Simplícia tosse de repente.

Sagredo
Que tosse é essa, minha amiga? Já fez o teste de Covid?

Simplícia
Neste mês ainda não... o que eu digo e repito é que o Trump não sai nem a pau. Ele tem o comando real ou simbólico da Suprema Corte, das Forças Armadas, da polícia, das milícias neofascistas e de grande parte da população. E ainda por cima tem o botão atômico.

Sagredo
Ok, você venceu. Meu otimismo pede arrego. Socorro! Passo pra cachaça e invoco o axé da Clementina de Jesus.

Simplícia
Saravá Clementina!

Sagredo
Saravá Mãe Preta! E você, minha amiga, vai tentar o pneumotórax?

Simplícia
Vou não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

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