Descrição de chapéu
John Freeman

Nova York pós-Covid lembra cenas da crise dos anos 70

Pandemia acirra desigualdades e evidencia as várias faces da cidade

John Freeman

Escritor e jornalista, é autor de autor de “Dictionary of the Undoing” e “The Park”

[RESUMO] Sob os efeitos da pandemia do novo coronavírus, a grande metrópole americana assiste a um agravamento das desigualdades. Situações como o aumento de moradores de rua saltam aos olhos quando se anda por alguns bairros; escritor, que vive há décadas na cidade, evoca cenas dos anos 1970 para descrever um pouco do quadro que tem observado no dia a dia.

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Este outono é o trigésimo que passo em Nova York. Vivi aqui quando era pequeno, nos bons e maus velhos anos 1970, como a cultura pop nos incentiva a encarar essa época. Táxis amarelos com motores irregulares, calças boca de sino, poppers [droga inalada], casacos de lã. Metrôs cobertos de pichações.

Você já conhece as imagens. Meu pai trabalhava em Gramercy Park e ia para o trabalho a pé, atravessando o bairro no qual eu hoje vivo, que na época devia ser cheio de galpões, floriculturas atacadistas e lojas desocupadas. E abandono.

Moradores de rua em Nova York - Eduardo Munoz Alvarez/AFP

É o visual presente também agora, sete meses depois do início da pandemia. Metade das lojas está fechada, com as fachadas cobertas por tábuas. A maioria nunca voltará a abrir.

Nunca cheguei a me apegar ao meu quarteirão e à aparência dele, pois ele tem tão pouco charme e oferece tão pouco prazer visual. Os prédios mais antigos datam dos anos 1880 e são tão aconchegantes quanto lápides de túmulo.

Cortiços mais baixos, de três andares, erguem-se como árvores velhas e raquíticas nos espaços entre as sepulturas sombrias. Mais pessoas dormem a seus pés hoje em dia —sobre folhas de papelão ou sacos de lixo, às vezes um homem ou dois juntos. Um abrigo para moradores de rua nas proximidades fecha suas portas com força todas as noites, sempre deixando algumas almas penadas perambulando pelas ruas.

É possível que algumas delas prefiram dormir ao relento. No outono passado, quando os dias estavam ficando mais curtos, e o vento assinalava a aproximação do inverno, conversei com um dos homens que se instalara diante da estação de metrô na esquina.

Ele me contou histórias do que lhe acontecera no abrigo, relatos terríveis e assustadores de um hospício. Mesmo que fossem irreais, seria impossível ignorar seu medo. Por isso mesmo, ao longo de quase todo o outono, eu passei por seu local uma vez por dia para lhe levar um café, às vezes um dólar, até que um dia ele não estava mais lá.

Tudo isso, essa desordem, o senso crescente de precariedade, as pichações —não muito belas— seriam um pouco mais fáceis de absorver se outras partes de Manhattan não estivessem prosperando tão febrilmente agora. Virando a esquina e descendo a avenida, depois de passar por duas ou três quadras de mercadinhos de bairro fechados, as coisas melhoram de repente.

Restaurantes estão com as portas abertas e mesinhas nas calçadas. Névoas cuidadosamente cronometradas refrescam os clientes. Ontem a turma do brunch estava presente em peso, as pessoas rindo e tomando coquetéis de US$14 cada. Praticantes de corrida correm parados nas esquinas enquanto aguardam os semáforos mudarem de cor, escutando o que vem de seus fones de ouvido e sorrindo diante do pouco trânsito nas ruas.

Se você continuasse em sentido sul até a ponta de Manhattan, poderia caminhar até o Oz que produz essa desigualdade histérica. O índice Dow Jones, da Bolsa de Nova York, já recuperou quase todas as perdas que acumulou desde o crash de março.

Direcionar fundos de investimento para a compra de ouro e para uma série de compras de ações a preços baixíssimos significa que os ricos enriqueceram tremendamente, espantosamente, nos últimos meses.

Uma boa crise é uma ótima hora para garantir retornos de 200% ou 300%. Enquanto muitas empresas fechavam as portas, a Amazon foi devorando seus clientes, de modo que Jeff Bezos, que comprou mais de US$ 100 milhões em imóveis no Madison Square, viu sua fortuna crescer.

Quarenta milhões de americanos deram entrada em pedidos de seguro-desemprego durante a Covid-19, e enquanto isso as fortunas dos bilionários aumentaram em meio trilhão de dólares.

A violência dessa transferência de renda é visível hoje em quase toda parte de Nova York. Em agosto, 61 mil pessoas se registraram como estando em situação de rua —outra estatística digna da Grande Depressão.

A situação ficou tão ruim durante o verão que algumas dessas pessoas foram encaminhadas para hotéis vazios, especialmente no Upper West Side, provocando gritos de protesto dos residentes da área, muitos dos quais são brancos, sendo que 86% dos sem-teto da cidade em abrigos para moradores de rua se identificam como negros ou latinos.

A resistência à conversão de hotéis chegou a contratar o ex-vice-prefeito da administração de Rudolph Giuliani para encabeçar sua campanha. Giuliani foi, entre outras coisas, proponente da construção de residências de luxo em locais antes ocupados por dezenas de unidades habitacionais de famílias de baixa renda e hotéis para solteiros de baixa renda.

O espaço público produzido por essa barbárie financeira deslavada é estranho e lancinante. Alguns meses atrás eu estava caminhando por um bulevar no Midtown, conversando com um homem que emergira das sombras onde outros dormiam. Ele queria dinheiro para comprar um sanduíche no McDonald’s da esquina.

Eu lhe dei US$ 3 e continuei andando em direção ao centro, parando num farol. Enquanto aguardava, percebi que estava diante de uma conhecida loja de mobília modernista com vitrines de vidro de 7,5 cm de espessura.

Atrás delas, em tons de rubi, aveia e marfim, estavam alguns dos arranjos de móveis e algumas das peças da loja, próprias para lofts, com preços superiores a US$ 100 mil. Era abril e o lockdown ainda não estava em pleno vigor, mas quase mil pessoas estavam morrendo por dia, e a loja estava aberta.

Quem é que compra um sofá por US$ 100 mil durante uma pandemia? Bom, ao que parece, algumas pessoas podem, e mais recentemente acho que elas estão podendo comprar dois.

Com o trânsito desorganizado e os mercados voltando a subir irregularmente de maneiras que beneficiam quem tem dinheiro vivo nas mãos, os veículos comprados por financistas com seus abonos da temporada estão sendo ostentados em toda parte em Manhattan.

Lamborghinis e Dodge Demons de 700 CV parecem muito populares e são vistos estacionados nas ruas, já que a polícia está mais ansiosa por proteger a propriedade privada que as pessoas. Nas noites quentes deste verão, eu via esses carros fazendo rachas pela Sexta Avenida. Ninguém nos edifícios reclamava. As pessoas tinham deixado seus apartamentos para ficar em suas segundas residências.

Por dois meses neste verão, vi meu país, e às vezes minha cidade, apenas através do espelho convexo da TV estrangeira. Eu tinha ido à Inglaterra cuidar de minha sogra, que estava doente e acabara de sair do isolamento total das pessoas em alta situação de risco.

Ali, ensanduichados entre reportagens sobre futebol britânico e discussões intransigentes com Bruxelas, se viam vídeos alarmantes de supostos “policiais” não identificados colocando pessoas em vans e carros civis à força. Filas de pessoas de classe média em bancos de alimentos.

Protestos do movimento Black Lives Matter e a continuação sufocante e agoniante de ainda mais violência policial. Mais assassinatos flagrados em vídeo. A campanha de desinformação do presidente sobre o voto sendo noticiada, mas não experimentada ali.

Talvez seja porque movimentar-se a pé leva tempo, e o tempo não é dramático, mas nada que vi me produziu a inquietação menos intensa de uma simples caminhada por Manhattan. Percorrer quarteirões para cima e para baixo é sentir uma cidade estremecendo.

Após seis meses de Covid, a cidade não tem certeza de como os estudantes vão voltar à escola, suas verbas estão acabando, e o governo federal mandou as cidades se catarem. O sistema de transporte público está prestes a fechar grandes trechos de suas linhas se não for socorrido em muito pouco tempo.

Ao longo desta primavera toda, milhões de pessoas protestaram pacificamente contra a brutalidade e os excessos da polícia em Nova York. O policiamento desses protestos valeu às forças locais mais de US$150 milhões em horas extras. No mês passado, a polícia agradeceu aos habitantes —e quase 80% dos habitantes votaram em Clinton—, endossando Donald Trump para presidente em 2020.

Tradução de Clara Allain

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