'Mank' é como retrato de 'Quixote' feito por Sancho Pança

David Fincher apresenta um roteirista louco que denuncia a ilusão da indústria do cinema em filme indicado a 6 Globos de Ouro

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Martim Vasques da Cunha

Doutor em ética e filosofia política pela USP, é autor de "A Tirania dos Especialistas" (Civilização Brasileira) e "O Contágio da Mentira" (Âyiné)

[RESUMO] Filme mais maduro de David Fincher, "Mank" apresenta intenso estudo sobre um personagem que, embora conhecido como alcoólatra fracassado, manteve a pureza interior em meio a mentiras políticas que o rodeavam e, como uma espécie de releitura moderna do fiel escudeiro de "Dom Quixote" ou do tolo de "Rei Lear", denunciou os poderosos e as engrenagens nefastas da indústria do cinema. "Mank" é o filme com mais indicações (seis no total) ao Globo de Ouro. O resultado será divulgado neste domingo (28).​

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“Mank”, de David Fincher, é o “Dom Quixote” feito sob o ponto de vista do fiel escudeiro Sancho Pança. A referência não é mero preciosismo. O famoso romance espanhol de Miguel de Cervantes é citado duas vezes no filme —e, por coincidência, nas suas cenas mais importantes.

A primeira é quando o personagem-título, Herman Mankiewicz (um Gary Oldman pleno de sutileza), roteirista de cinema genial e genioso, decide consolar a amante do magnata William Randolph Hearst (Charles Dance, implacável), a atriz em decadência Marion Davies (uma adorável Amanda Seyfried), em um passeio nos jardins do castelo de San Simeon, especialmente construído pelo milionário para sua concubina.

Ela está irritada porque queria interpretar Maria Antonieta na tela prateada, mas é considerada uma “mera comediante” pelos produtores que, ironicamente, bajulam o seu patrono (ele também, por sinal, a despreza em relação às suas pretensões artísticas).

A conversa entre o roteirista e a atriz tem como pano de fundo uma série de animais enjaulados. Regados a bebida barata, Mank e Marion revelam ao espectador quem é quem na “cidade das redes”, do pulha Louis B. Mayer (chefão da MGM, o maior estúdio da época) ao pusilânime Irving Thalberg (garoto prodígio, produtor para Mayer de vários sucessos cinematográficos, morto precocemente em 1936).

Quando ela pergunta se poderia interpretar a rainha de Versalhes, Mank hesita e sai-se com uma resposta idiossincrática: “Não, você seria perfeita como Dulcinéia”, referindo-se à donzela que Dom Quixote tenta salvar das agruras do mundo.

A segunda sequência é o clímax do filme. Alguns anos depois, na sala de jantar de San Simeon, um Mank ainda mais bêbado e enfurecido —pois descobriu uma trama de mentira e enganos, criada por Hearst e Mayer, para fraudar a campanha estadual na Califórnia, o que ajudou o republicano Frank Merriam a derrotar o democrata Upton Sinclair— decide confrontar o mecenas de Marion Davies com a única arma de que dispõe: a palavra.

Do nada, vende a ideia de um filme para Mayer. A história seria sobre um novo tipo de Dom Quixote, um empresário das comunicações, que teria um ideal a seguir, mas se corromperia com o passar do tempo e se transformaria em tudo o que odeia. A proposta não causa boa impressão: no arremate da sua fala, Mank vomita na frente dos convidados, observando jocosamente que “o vinho branco saiu junto com o peixe”.

Para quem conhece um pouco da história do cinema, fica evidente que esse enredo sobre o Quixote dos anos 1930 daria origem depois a “Cidadão Kane” (1941), o primeiro longa-metragem de Orson Welles, coescrito por Mank.

Durante anos, críticos e cinéfilos colocaram Welles como o Dom Quixote desta mítica película que teria enfrentado o poderoso Hearst, uma vez que o longa seria inspirado em sua biografia, inclusive com referências picantes ao relacionamento com Davies.

Tido como o maior filme da história do cinema, “Cidadão Kane” foi o início de uma sombra amaldiçoada sobre a filmografia de Welles, que passou o resto da sua vida tentando recuperar a independência de que desfrutava na criação do seu longa de estreia.

Novato em uma indústria em que imperava o modelo de “o gênio do sistema”, centrado na figura inescrupulosa do produtor, ele nunca mais teve em Hollywood a autonomia que o estúdio RKO lhe concedera no começo de sua carreira. Welles morreu em 1985, deixando, por uma série de problemas de financiamento, vários longas inacabados, entre eles, ironicamente, uma versão de “Dom Quixote”.

Em “Mank”, David Fincher, a partir de um roteiro de seu pai (Jack Fincher), revisita a parceria do roteirista e de Welles na confecção de “Kane” por um caminho ousado e surpreendente. Pai e filho evitaram o polemismo da crítica de cinema Pauline Kael, que, em longo ensaio na revista New Yorker em 1971, “Criando Kane”, afirmava que o verdadeiro responsável pelo filme seria Mank, e não Welles. Contudo, Fincher transcende todas essas fofocas de bastidores e faz um intenso estudo de personagem a respeito de quem sobrevive à lógica do controle e da ilusão que a sustenta.

Desde o maravilhoso filme “Zodíaco” (2007), passando pelas séries que produziu com a Netflix (“House of Cards” e “Mindhunter”) e a chamada trilogia da incerteza —“A Rede Social” (2010), “Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres” (2011) e “Garota Exemplar” (2014)—, Fincher se aprofundou em um tema que ainda era incipiente em seus clássicos da década de 1990, como “Seven: Os Sete Crimes Capitais” (1995) e “Clube da Luta” (1999): a vinculação macabra entre verdade e poder.

“Mank”, neste sentido, é seu filme mais maduro, não só por lidar com o assunto cinematográfico por excelência, a ficção, mas por apresentar, ao contrário do que ocorre em suas obras anteriores, alguém que, a despeito da mentira que o rodeia, consegue manter uma pureza interior —e vencer, mesmo que uma única vez, os potentados de Hollywood.

Daí a referência ao “Quixote” de Cervantes. Mank não se vê como o Cavaleiro da Triste Figura de seu roteiro porque, no fundo, apesar de ser um bêbado irresponsável (palavras do próprio), ele nunca se vendeu.

Temos aqui o Sancho Pança que denuncia as atrocidades de um Hearst ou antevê a arrogância fatal de um Orson Welles. Sob a aparência de um mero “bobo da corte” (como seu irmão, o cineasta Joseph Mankiewicz, o chama), Mank, na verdade, é muito mais próximo do “tolo”, do “louco” obrigado a contar o que de fato acontece nas engrenagens de um reino estéril e devastado pela insanidade de seus governantes.

O Mank dos Fincher e o Mank real são parte de uma longa tradição literária e filosófica, celebrada por Erasmo de Roterdã em “Elogio da Loucura” (1509).

Neste pequeno livro que fez a cabeça de vários escritores humanistas —entre eles Cervantes, que o tomou de inspiração para o seu “Quixote”—, a personagem principal, Moriae (loucura, em latim), trajada em trapos e guizos, apresenta-se em um palco e anuncia que tudo que se encontra no mundo está sob seu domínio.

Poucas vezes alguém conseguiu captar tão bem aquilo que Camões chamava de “o desconcerto do mundo” em uma figura simbólica palpável, na qual Erasmo permite que sua Dama Loucura, tal como Mank, fale sem pudores sobre os estúpidos de sua época, em especial os sábios que proferiam antiquadas fórmulas escolásticas, e também sobre o clero, despido de qualquer função em uma era em que a crise espiritual já se instalara por completo, sendo vista como uma banalidade.

Um século depois, a figura do “tolo” se cristalizaria na tragédia de William Shakespeare, “Rei Lear” (1606). Apesar de Mank se assemelhar mais ao Sancho Pança espanhol, o roteirista fracassado é, no fundo, a releitura moderna desse personagem antológico da peça inglesa.

Afinal, em Hollywood, os poderosos estão completamente ensandecidos, imitadores perfeitos do velho Lear. São os Quixotes que lutam a favor dos moinhos de vento, e não contra eles, ao contrário do que narra o clássico de Cervantes.

E de nada adianta ter um Sancho ao seu lado, pois os avisos do escudeiro serão sempre ignorados. Não à toa que vemos, maravilhados, Mank como o louco apto a denunciar o mecanismo de submissão que movimenta a magia do cinema.

O drama escrito por Mank que resultou no filme de Orson Welles foi seu derradeiro ataque contra esse sistema nefasto. A ironia é que os mesmos poderosos que o rejeitaram foram obrigados a premiá-lo com um Oscar de melhor roteiro, em 1942.

Afinal, eles sempre souberam que Mank foi o único que “farejou quando um sujeito pleno de poder está fedendo de podre”. Eis aí a beleza do filme de David Fincher, feito em homenagem ao seu pai e também a um personagem aparentemente marginal na história do cinema: provar que a única verdade que importa, a da ficção, supera qualquer mentira política.

Mank

  • Quando Em cartaz nos cinemas; a partir de 4/12 na Netflix
  • Elenco Gary Oldman, Amanda Seyfried e Lily Collins
  • Direção David Fincher
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