Usei minha memória do alcoolismo para criar Mank, afirma Gary Oldman

Em entrevista, ator narra como se preparou para interpretar protagonista do novo filme de David Fincher, indicado a 10 Oscars

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Ana Maria Bahiana

Jornalista da área cultural e editora-adjunta do site goldenglobes.com, é autora, entre outros livros, de "Nada Será Como Antes - MPB nos Anos 70" (Civilização Brasileira, 1980)

[RESUMO] Gary Oldman conta como seu passado de vício em bebida e os filmes da era clássica de Hollywood o ajudaram a entender e interpretar Herman Mankiewicz no registro a um só tempo naturalista e excessivo de "Mank", guiando sua composição psicológica e física do personagem, como na decisão de ganhar peso para ostentar uma "barriga de uísque". "Mank" é o filme recordista de indicações ao Oscar neste ano (10 no total), incluindo melhor filme, diretor (para Fincher) e ator (Gary Oldman). O resultado será divulgado em 25 de abril. ​

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Há uma ligação profunda e complicada entre Herman "Mank" Mankiewicz e Gary Oldman: o alcoolismo. "Não é segredo algum que sou um alcoólatra em recuperação", diz Oldman, falando de um quarto de hotel em Londres ("estamos todos em quarentena por aqui").

"Não bebo há quase 24 anos, mas me lembro perfeitamente de como eu me sentia. Usei essa memória para entender e criar Mank —ele não apenas vivia bêbado, mas também escrevia bêbado. Sua escrita está repleta de alcoolismo, seu modo de viver está repleto de alcoolismo. Eu entendo o modo de pensar do alcoólatra: a pessoa ataca quem está tentando ajudá-la."

Sua transformação física para viver Mank vem desse elemento: "Alcoólatras, principalmente bebedores de uísque, em geral têm essa barriga inchada. Eu senti que precisava daquele barrigão de bêbado de uísque para ser Mank".

Ao contrário do que aconteceu quando interpretou Winston Churchill em "O Destino de uma Nação" (2017), trabalhou que lhe rendeu o Oscar de melhor ator, Oldman resolveu ganhar peso para interpretar Mank com sua "barriga de uísque". "Liguei para meu amigo Christian Bale e perguntei como tinha sido a dieta que ele fez para engordar para o papel de Dick Cheney (em 'Vice'). Segui a dieta Bale!"

Em colaboração com o cineasta David Fincher, Oldman explorou os dois "traços inseparáveis" da personalidade de Mank: o alcoolismo e o desejo de ser alguém, respeitado, famoso. Em um loop interior de "Mank", Herman Mankiewicz e Jack Fincher (pai de David e autor do roteiro do filme) tinham em comum a progressão de jornalista para roteirista, um elemento que dá mais um nível de profundidade ao filme.

"Mank sabia escrever, escrevia bem e gostava de escrever", diz Oldman. "Mas ele sentia que tinha chegado a um platô. Ele queria escrever a grande obra americana ou talvez a grande peça americana. Para ele, como jornalista, esse era o termômetro da excelência."

Na falta de possibilidades para uma coisa ou outra, Mank respondeu aos apelos da nascente indústria de cinema de Los Angeles, faminta de pessoas exatamente como ele, com talento, ambição e pouco dinheiro.

A primeira impressão de Mank ao chegar a Los Angeles, na descrição de Oldman, foi a de "um paraíso na terra: tantos gramados, tantas palmeiras, o sol brilhando o tempo todo".

Como parte da pesquisa para a preparação do personagem, Oldman leu as cartas e telegramas de Mank para a família, amigos e colegas de trabalho. Um telegrama em especial, enviado para a sua turma de copo e labuta de Nova York, nos tempos da famosa mesa-redonda do hotel Algonquin, chamou a atenção do ator. "Ele dizia: 'Vocês têm que vir para cá, aqui pode-se ganhar milhões de dólares e a única competição são uns idiotas'."

Gary Oldman em cerimônia de premiação do Bafta - Daniel Leal-Olivas - 18.fev.18/Folhapress

Era verdade, mas até certo ponto —do outro lado do encantamento havia uma armadilha, não muito diferente daqueles papéis mata-mosca com cheiro de mel.

"Sim, os estúdios pagavam fortunas, mas o seu trabalho era dissolvido no processo em que ele escrevia e depois outra pessoa reescrevia e outra pessoa reescrevia e no final os nomes desapareciam. Ele era bem pago e podia viver bem com o que recebia, mas o reconhecimento estava cada vez mais longe do seu alcance. Os estúdios eram os donos de escritores como ele. Aliás, como dizia Billy Wilder, uma vez que você compra uma casa com piscina, os estúdios são os seus donos. Mank, como personagem, é um exercício em frustração."

O processo da criação do filme exigiu uma mistura delicada de artifício e naturalidade. David Fincher disse a Oldman que queria uma interpretação "completamente nua, sem truques, sem perucas, sem artifícios de maquiagem". "Ele não queria nem que eu engordasse", conta o ator, rindo.

Ao mesmo tempo, Oldman tinha que seguir as diretrizes para todo o elenco: uma interpretação extrovertida, quase excessiva, dos anos 1930 e 1940.

"As duas coisas levaram a uma enorme pesquisa e, ao mesmo tempo, a uma busca interior", diz Oldman. "Vi muitos filmes da época, principalmente os que são mencionados em 'Mank', mas, sobretudo, os trabalhos do irmão de Herman, Joe Mankiewicz, o diretor. Os filmes dele tinham exatamente o timbre e o tipo de representação que David queria."

"E, além disso, existem muitas fotografias de Joe trabalhando, no set, em eventos, e ele e Mank são muito parecidos, o mesmo jeito de andar. Joe foi meu trampolim para o mundo de Mank e a Hollywood da época. Por outro lado, eu me senti completamente livre para ser o meu Mank. Talvez um dos trabalhos em que me senti mais livre."

Depois de toda a preparação, diz Oldman, Fincher foi reger sua orquestra. "Ele trabalha como um maestro, em atenção absoluta a todos os detalhes, principalmente o ritmo, a noção do tempo. É um pouco como música quando se trabalha com ele. Eu tive muita sorte de trabalhar com excelentes diretores —Francis Ford Coppola, Stephen Frears, Oliver Stone, Roland Joffé— , mas nunca tinha trabalhado com David. Trabalhar com ele foi marcar mais um item na minha lista de desejos."

"Eu me senti em um time da primeira divisão. Quando se trabalha com um roteiro desse calibre, com David e com um elenco brilhante —e, além de tudo, pessoas supersimpáticas—, é uma experiência que eu não vou esquecer. E que vai ser difícil de superar."

Mank

  • Quando Em cartaz nos cinemas; a partir de 4/12 na Netflix
  • Elenco Gary Oldman, Amanda Seyfried e Lily Collins
  • Direção David Fincher
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