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Andre Pagliarini

Alucinações de Trump vão continuar assombrando política dos EUA

Após invasão do Capitólio, democratas se dividem entre virar a página e acertar contas com trumpismo

Apoiadores de Donald Trump durante invasão ao Congresso dos Estados Unidos  Saul Loeb - 6.jan.21/AFP

Andre Pagliarini

Professor de história da América Latina moderna no Dartmouth College, em Hanover (New Hampshire, EUA), está preparando um livro sobre o nacionalismo brasileiro do século 20

[RESUMO] O tom mais ameno de Trump após incitar o assalto ao Capitólio não conserta o estrago e não indica conciliação. Suas alucinações vão continuar assombrando os EUA e o Partido Republicano, enquanto os democratas se dividem entre ‘virar a página’, como sugeriu Joe Biden, e um acerto de contas sem trégua com seus oponentes.

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Não foi a primeira vez que o Congresso dos Estados Unidos serviu como palco para a violência. Como mostra a historiadora Joanne B. Freeman, nas décadas anteriores à Guerra Civil ocorriam frequentemente embates entre políticos a respeito das grandes questões que a nação enfrentava, como escravidão, industrialização e desigualdade econômica —mas os conflitos eram rotineiramente acobertados pela imprensa.

Isso porque, enquanto muitos deputados e senadores se moviam ainda por um código de honra pelo qual supostas ofensas deveriam ser respondidas fisicamente, a sociedade como um todo tomava medidas para conter a violência do dia a dia. Várias cidades implementavam leis contra duelos armados. A agressividade dos parlamentares deu no que deu. As tensões políticas no Congresso desaguaram no conflito mais sangrento da historia do país.

Se naquele caso a violência derramava de dentro para fora da casa legislativa, na última quarta-feira (6) aconteceu o contrário: o Capitólio foi tomado pela violência externa. Cenas chocantes mostraram servidores públicos, deputados e senadores sendo evacuados às pressas diante de uma multidão tumultuosa que avançava como uma matilha de lobos.

A tropa de choque trumpista havia se reunido pela manhã para assistir a um discurso do presidente. Trump reclamava de fraude na eleição presidencial de novembro passado, alegando que o processo de certificação dos resultados, marcado para acontecer à tarde, seria o último ato de um golpe orquestrado contra ele e seus apoiadores.

O presidente então conclamou os espectadores a caminhar em direção ao Capitólio para pressionar deputados e senadores a rejeitar o resultado da eleição. A despeito do que dizia o presidente, membros do Legislativo não têm o poder de reverter uma eleição. Mesmo assim, ele acendeu o pavio e foi embora.

O que aconteceu a seguir revela alguns traços importantes da essência do trumpismo. Em primeiro lugar, a capacidade do presidente de usar seus seguidores como massa de manobra aterrorizante é real e, provavelmente, não desaparecerá quando ele deixar a Casa Branca em pouco mais de dez dias.

Alguns analistas especulam que Trump poderá lançar a sua própria rede de notícias para tentar dominar o ecossistema conservador, mantendo assim a sua influência política. Considerando que o Twitter suspendeu permanentemente a conta do presidente na sexta-feira (8) e o Facebook pode fazer o mesmo (o bloqueio permanece temporário na plataforma), essa estratégia garantiria a circulação ininterrupta de perspectivas pró-Trump.

Em segundo lugar, o trumpismo não é um fenômeno sem precedente na história dos Estados Unidos. Já houve vários movimentos baseados no culto à personalidade, na paranoia, no racismo e no autoritarismo —enfim, na negação da democracia. A pergunta que se coloca hoje é como lidar com tamanha divisão social, em um ambiente caracterizado pela pandemia, pela crise econômica e pela descrença generalizada no governo e na mídia tradicional.

O resultado das urnas foi claro: Biden ganhou com 7 milhões de votos de vantagem sobre o presidente, mas Trump tem uma relação profunda com uma parcela significativa da população. Entre os que votaram no republicano, 77% acreditam que a eleição de Biden foi ilegítima, de acordo com uma pesquisa feita no mês passado.

Os trumpistas mais ferrenhos, aqueles dispostos a abraçar medidas extremas em seu nome, vão continuar tendo impacto nos próximos anos, influindo sobre a trajetória do Partido Republicano em manifestações e eleições futuras. Como lidar com os abusos do presidente e seus seguidores daqui para a frente?

Depois de um sucesso estrondoso no estado de Geórgia na semana passada, o Partido Democrata terá poder decisivo em Washington, com maioria efetiva no Senado, controle da Câmara dos Deputados e da Casa Branca. Existem basicamente duas posições dentro do partido sobre como prosseguir.

A primeira, defendida consistentemente pelo presidente eleito, Joe Biden, enfatiza a necessidade de virar a página do governo Trump, dando aos republicanos “de bem” uma oportunidade para retomar uma abordagem política mais construtiva e responsável. É certo que Biden denunciou de forma inequívoca a invasão do Capitólio, atribuindo responsabilidade direta ao presidente, mas ele é cuidadoso ao tratar do papel do Partido Republicano como um todo.

Durante a campanha presidencial, Biden caracterizou a corrida como uma batalha pela alma da nação. Na sua visão, os problemas que assolam o país são resultado quase que unicamente das ações de Trump, que seria uma anomalia política. Com a derrota do republicano, as coisas voltariam mais ou menos ao “normal”. Em vez de cutucar feridas, Biden quer deixar o quadriênio 2016-2020 para trás.

A segunda posição almeja um acerto de contas mais agressivo com o partido, que não só lançou a candidatura de Trump como ainda reluta, em grande medida, em condená-lo. Defendida por setores democratas mais progressistas, essa posição coloca o presidente como consequência natural dos devaneios conservadores das últimas décadas e não como exceção.

O contraste entre essas duas posições se torna mais nítido quando se compara a reação aos eventos da última quarta-feira. Vários democratas declararam apoio imediato ao impeachment do presidente, colocando o episódio na sua conta.

Muitos também defendem invocar os procedimentos previstos na 25ª emenda da Constituição, que prevê que o presidente possa ser deposto pelo vice-presidente e pela maioria dos ministros. Alguns, ainda, foram adiante, tentando punir outros políticos, além de Trump.

Enquanto se refugiava em uma sala segura durante a invasão, a deputada recém-eleita Cori Bush, por exemplo, preparou um projeto de lei para cassar republicanos responsáveis por incitar o que ela chamou de ataque terrorista doméstico. Outro deputado recém-eleito, Mondaire Jones, de Nova York, logo apoiou a iniciativa.

Os novos progressistas não hesitaram em responder firmemente sem esperar a chancela dos líderes partidários, que evitavam qualquer ação que pudesse ser considerada agressiva demais e que apelasse ao “nós contra eles”.

Bush e Mondaire são jovens negros que chegam ao Congresso buscando justamente combater o preconceito endêmico que sustenta o trumpismo, mas a sua estratégia não é puramente geracional. O senador Ed Markey, de Massachusetts, por exemplo, tem 74 anos e indicou que não vai permitir que a página dos excessos republicanos seja virada. Esses congressistas buscam reconhecer, mesmo com pouca chance de sucesso, que o ímpeto antidemocrático não vem só do presidente, mas da sua sigla como um todo.

O Partido Republicano também está em uma encruzilhada. Até que ponto valerá a pena se associar a um presidente que, embora tenha obtido um resultado respeitável nas urnas, foi o primeiro a não conseguir se reeleger em quase 30 anos?

É um dilema clássico: para o partido como um todo, seguir nos trilhos colocados por Trump é um caminho para o abismo eleitoral, mas para um ou outro político ambicioso essa estratégia talvez ainda possa render votações expressivas em eleições pontuais. Não há outro motivo a explicar por que os senadores Ted Cruz, do Texas, e Josh Hawley, do Missouri, ambos candidatíssimos para a nomeação republicana em 2024, continuem a insistir em apontar falhas imaginárias no processo eleitoral de 2020, mesmo depois da invasão ao Capitólio.

Com os olhos na próxima eleição, esses senadores não querem se queimar com o eleitorado fiel a Trump. Dessa forma, interesses eleitoreiros individuais vão se sobrepondo aos interesses do partido —para não falar dos anseios da nação.

Talvez fosse de se esperar que o fim do governo Trump lembrasse em certa medida o fim de experiências autoritárias em outros contextos. No fechamento do ciclo de ditaduras militares na América Latina, havia vozes expressivas pregando a união nacional, enquanto outros buscavam responsabilizar publicamente os agentes por trás do estrago social, político e econômico.

No caso do Chile, por exemplo, a prisão do ditador Augusto Pinochet em Londres, em 1998, tornou mais difícil a defesa incondicional do regime pelos militares, permitindo uma análise mais completa, ainda que bastante contestada, do passado. A Argentina revogou as leis de Obediência Devida e Ponto Final no início dos anos 2000, abrindo caminho para novos inquéritos. No caso brasileiro, prevaleceu a tendência de virar a página. O custo dessa escolha tem sido alto para o país, como pode ser para os EUA pós-Trump.

Em “O que Resta da Ditadura: a Exceção Brasileira” (Boitempo, 2010), Edson Teles e Vladimir Safatle reparam que “a história é implacável na quantidade de exemplos de estruturas sociais que se desagregam exatamente por lutar compulsivamente para esquecer as raízes dos fracassos que atormentam o presente”.

Não é necessário medir as sequelas da experiência ultrapassada pela “contagem de mortos deixados para trás”, eles lembram, “mas através das marcas que ela deixa no presente, ou seja, através daquilo que ela deixará para frente”.

Os Estados Unidos se encontram na incerteza que sempre se coloca após um atentado. Em momentos assim, depois de experiências traumáticas, é preciso tratar justamente do que permanece daquilo que foi atingido. A democracia requer cuidados reparadores.

Não se sabe ainda exatamente como a situação vai evoluir. É certo que Trump logo sairá de cena, tornando a união nacional um ideal fora do alcance de seu sucessor. A despeito da narrativa otimista de Biden, o partido de Trump permanecerá com figuras expressivas alimentando e se sustentando nas alucinações pregadas pelo presidente derrotado.

A invasão do Capitólio é fruto de vários demônios americanos. “Muitos desses demônios são imaginários, mas todos possuem verdades para nos contar,” escreveu Jesse Walker em “The United States of Paranoia: a Conspiracy Theory”, uma história das teorias da conspiração nos Estados Unidos.

Muitas vezes perigosas, tais crenças dizem “algo verdadeiro sobre as ansiedades e as experiências das pessoas que acreditam nelas e as repassam, mesmo que não digam nada verdadeiro sobre os objetos da teoria em si”, sustenta o autor.

Na noite de quinta-feira (7), Trump finalmente foi ao ar condenar de forma inequívoca —a seu modo— o que chamou de ataque hediondo ao Congresso. Deixou de falar sobre fraude na apuração das urnas, bem como da necessidade de resistir à transição pacífica.

O estrago, porém, evidentemente estava feito. Basta olhar para o Brasil. Jair Bolsonaro, por alguma razão um defensor inabalável do presidente americano, reiterou seu alinhamento a Trump, dizendo saber que houve fraude na eleição e que o mesmo poderia acontecer no Brasil em 2022.

O ministro das Relações Exteriores foi ao Twitter “lamentar e condenar” o acontecido, mas também “reconhecer que grande parte do povo americano se sente agredida e traída por sua classe política e desconfia do processo eleitoral”. Qual a necessidade deste adendo?

Fica claro que os casuísmos trumpistas continuarão assombrando o Brasil mesmo com um democrata na Casa Branca. Enquanto Bolsonaro estiver no poder, não será impensável que, um dia, milicianos tomem à força a Câmara dos Deputados e o Senado, como aconteceu em Washington. Afinal, o presidente representa as ideias mais extremistas desse grupo e tem a chancela do voto popular —ao contrário de Trump, que perdeu essa credencial com a derrota em novembro.

Lembremos as palavras do presidente brasileiro em abril do ano passado, discursando do alto de uma caminhonete para dezenas de simpatizantes que defendiam intervenção militar em Brasília: “Nós não queremos negociar nada. Nós queremos é ação pelo Brasil... acabou a época da patifaria. É agora o povo no poder”. Que povo e que poder são esses? A serviço de projetos pessoais autoritários, fanáticos se confundem com o povo, imaginando um amplo respaldo que simplesmente não existe.

Não há dúvida que, para muitos, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, as teorias da conspiração atualmente servem para explicar aspectos-chave do mundo moderno e nosso momento confuso, áspero e incerto. O que elas nunca revelam de forma confiável, no entanto, é o futuro, que está, afinal, nas mãos de líderes eleitos e de todos nós.

Tendo isso em mente, decisões importantes sobre o caminho a seguir haverão de ser tomadas neste ano que inicia. Ao tragar incessantemente de um poço conspiratório, a bolha trumpista, como a bolsonarista, se desloca do mundo real. Isso custa caro a todos.

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