Feminismo neoliberal deixa os 99% para trás, diz Heloisa Buarque de Hollanda

Professora emérita da UFRJ critica discurso de empoderamento individual e discute teoria queer na América Latina

Nesta semana, o Ilustríssima Conversa recebe Heloisa Buarque de Hollanda, professora emérita de teoria crítica da cultura da UFRJ.

Com uma extensa produção acadêmica, que abarca campos como a poesia, as relações de gênero e raciais e as culturas marginalizadas, Heloisa organizou quatro volumes da coleção “Pensamento Feminista Hoje”, publicada pela editora Bazar do Tempo —“Sexualidades no Sul Global” é o mais recente deles.

​Os livros dão um panorama da história do feminismo nas últimas décadas —das autoras que criaram as principais noções sobre o tema aos desdobramentos mais recentes dos estudos de gênero e de sexualidade, como o feminismo decolonial e a teoria queer.

Na conversa com o repórter Eduardo Sombini, a autora situou as tendências que mais chamam a sua atenção no feminismo contemporâneo. Com 81 anos, ela diz que o seu DNA é da geração de 1968 e admite um estranhamento com algumas propostas da teoria queer, que defende uma ruptura dos binarismos de sexo e de gênero.

Heloisa Buarque de Hollanda de perfil, com fundo rosa
Heloisa Buarque de Hollanda, professora emérita da UFRJ e organizadora da coleção 'Pensamento Feminista Hoje', em mesa da Flip de 2016 - Keiny Andrade - 2.jul.16/Folhapress

A pesquisadora falou sobre a influência de Paul Preciado na evolução do pensamento queer latino-americano e se mostrou alinhada ao diagnóstico do filósofo espanhol de que o mundo vive hoje batalhas interpretativas que vão levar ao colapso das ideias que sustentam as sociedades heteronormativas e patriarcais.

"Não dá para parar essa revolução epistemológica. Você tem que mudar as regras, porque esse é um edifício muito bem-construído. Você mexe com uma, mexe com tudo. Se você tirar a mulher daquele lugarzinho dentro de casa, o que cai? Cai um pedaço da igreja, caiu um pedaço da economia, cai um pedaço da educação, cai para todo lado. Se você mexer com raça, cai mais um pedaço. Se você falar de sexualidade fluida, como ele [Preciado] quer, aí cai de vez."

Heloisa também contou o seu interesse pela ideia de feminismo para os 99%, capitaneada por Nancy Fraser. Para a filósofa norte-americana, um feminismo neoliberal, pautado em políticas identitárias, estimula o empoderamento individual das mulheres, mas esvazia estratégias coletivas de transformação social.

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O podcast entrevista, a cada duas semanas, autores de livros de não ficção e intelectuais para discutir suas obras e seus temas de pesquisa.

Já participaram do Ilustríssima Conversa Ilona Szabó, que discutiu as ameaças à democracia no Brasil, Luiz Simas, que apontou os conflitos do Brasil institucional e da brasilidade, Malu Gaspar, que descreveu os escândalos de corrupção e a derrocada da Odebrecht, Flavia Rios, coorganizadora de coletânea da intelectual Lélia Gonzalez, Karla Monteiro, biógrafa do jornalista Samuel Wainer, Vinicius Torres Freire​, que tratou de medidas econômicas durante a crise do coronavírus, Muryatan Barbosa, pesquisador da história do pensamento africano, e Júlio Delmanto, autor de livro sobre a história social do LSD no Brasil, entre outros convidados.

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