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Raquel Barreto

Em data de morte de Marielle nasceram Abdias e Carolina de Jesus

Pesquisadora discute trajetórias da vereadora, assassinada há 3 anos, e de dramaturgo e escritora

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Raquel Barreto

Historiadora, mestre pela PUC-Rio e doutoranda na UFF (Universidade Federal Fluminense)

[RESUMO] Autora reflete sobre os percursos de Abdias Nascimento e Carolina Maria de Jesus, nascidos em 14 de março de 1914, e de Marielle Franco, assassinada no mesmo dia de 2018. Em sua avaliação, os três personagens revelam as condições às quais a população negra esteve submetida no Brasil, mas também os esforços para romper as amarras do racismo.

Às vezes a história se repete, na primeira vez como coincidência e na segunda como tragédia. Quis o destino que Abdias Nascimento e Carolina Maria de Jesus viessem ao mundo em 14 de março de 1914. Em contrapartida, por infortúnio, Marielle Franco foi brutalmente executada no mesmo dia de 2018.

As coincidências entre os ciclos da vida e da morte nos levam a pensar no que poderia haver em comum entre essas três personagens da história do país, figuras particularmente relevantes para a história das lutas negras. Que aspectos as suas trajetórias, com complexidades próprias, podem revelar sobre as experiências e as possibilidades de homens e mulheres negras no Brasil?

Os que chegaram

Abdias Nascimento (1914-2011) foi o primeiro senador negro do país. Sua trajetória como ativista, que atravessou quase todo o século 20, condensou parte dos movimentos empreendidos pela população negra contra o racismo e por uma cidadania plena.

Por muito tempo, ele foi uma voz quase solitária denunciando o mito da democracia racial no país, o que o levou à condição de exilado político durante a ditadura militar. No período em que esteve fora do Brasil, tornou-se uma referência importante no contexto internacional dos ativismos negros, especialmente nos círculos pan-africanistas.

Além de sua profícua contribuição política, no stricto sensu da palavra, Abdias foi homem de criação de poéticas e de linguagens. Fundou o TEN (Teatro Experimental do Negro) em 1944, um esforço pioneiro em construir um outro repertório de representações negras nas artes cênicas —o TEN promoveu a formação escolar, artística, política e cultural de seus membros. Dedicou-se à escrita como poeta, dramaturgo e teórico.

Contudo, de todas as suas inserções, talvez seja as artes visuais o campo em que ele ainda não recebeu o merecido valor, tanto na produção artística quanto no debate que constrói a respeito da própria presença negra na arte brasileira, que pode ser lido em seu conhecido ensaio "Arte Afro-brasileira: um Espírito Libertador", de 1976.

A academia brasileira ainda é bastante reticente ao pensamento do autor. Suas contribuições autorais são ignoradas até mesmo pelos acadêmicos autointitulados antirracistas, que tendem a vê-lo apenas como um ativista e não um pensador.

Carolina Maria de Jesus (1914-1977) foi a primeira mulher negra autora de um best-seller no país, "Quarto de Despejo", publicado em 1960, que se tornou um sucesso nacional e internacional imediato de vendas e foi objeto de mais de 15 traduções, que circulam no mundo inteiro até hoje.

Publicou em vida outros três livros, e a recepção da sua obra foi cuidadosamente preparada por meio de reportagens que reduziram sua complexidade autoral e pessoal e a tornaram uma personagem: a “escritora favelada”, marcada pela ausência e pela carência, em um período em que a definição de favela não havia sido ressignificada por seus moradores como um lugar também de potência.

Seu livro foi considerado por muitos um registro menor, sem valor literário, apenas sociológico, o que determinou a forma como foi lida e interpretada por muito tempo.

Os estudos literários mais recentes sobre a escritora, no entanto, feitos por uma nova geração de pesquisadores/as, vêm revelando sua autoconsciência e a existência de um sólido projeto estético-literário presente nos diversos gêneros que ela produziu, como poesia, dramaturgia, contos, romances e diários, que se encontram registrados em mais de 5.000 páginas manuscritas, a maioria inédita.

A autora, que nunca foi propriamente uma ativista, apesar de possuir uma visão politizada da realidade nacional, é referência para uma série de movimentos sociais e culturais no país. Na década de 1990, por exemplo, o movimento da literatura periférica, que surgiu confrontando as definições de quem e onde se poderia produzir literatura no país, teve a autora como um de seus pilares.

A que se foi

Marielle Franco (1979-2018) era socióloga, com mestrado em administração pública. Moradora da Maré, um complexo de 16 favelas no Rio de Janeiro, que abriga aproximadamente 130 mil moradores, teve uma trajetória bastante singular. Exerceu a maternidade bastante jovem, aos 19 anos, e conseguiu prosseguir com seus estudos.

Em 2016, venceu sua primeira contenda eleitoral e contabilizou uma expressiva votação de 46 mil votos, tendo sido a quinta pessoa mais votada para a Câmara de Vereadores. Uma vitória bastante significativa para uma candidatura como a dela, que defendia uma agenda em prol dos direitos humanos e uma plataforma política feminista, negra e popular. Naquela eleição, apenas 5% de mulheres negras foram eleitas no país todo.

No exercício da vereança, procurou concretizar uma política institucional informada pelas demandas sociais que representava. Em sua agenda, eram indissociáveis as dimensões de raça, gênero e classe. Sua grande contribuição se deu ao incorporar a presença do território, aliado a um debate sobre a segurança pública na cidade pensado a partir da perspectiva de quem realmente propunha soluções para o que conhecia na teoria e na vivência.

Os encontros

Embora bastante distintas, as trajetórias de Abdias Nascimento, Carolina Maria de Jesus e Marielle Franco permitem compor um interessante mosaico de observação do país e das condições nas quais a população negra esteve e ainda está submetida e perceber a permanência de algumas determinações de ordem estrutural e importantes mudanças alcançadas.

A aproximação entre Abdias e Carolina, ambos netos de pessoas escravizadas, permite vislumbrar a experiência da população negra nas décadas seguintes à Abolição. Suas narrativas a respeito das suas infâncias em cidades do interior do país revelam quão profundas eram as marcas e as permanências das relações sociais forjadas no período da escravidão, que se mantinham vigentes nas dinâmicas sociais, na sociabilidade e no acesso à Justiça e ao trabalho.

Os dois também convergiram na criação de suas próprias poéticas textuais, compreendendo o quão necessário era o lugar da palavra escrita como espaço-possibilidade de construção e de registro do mundo.

Os vínculos entre Abdias e Marielle se constroem na compreensão compartilhada de que, para além da atuação nos movimentos sociais, era necessário intervir nas disputas legislativas e na política partidária. Partindo da premissa de que as mudanças podem ser obtidas por meio das instituições e das leis, aqui pesaram bastante as diferenças de gerações e o próprio desenvolvimento do debate racial no país, que interferiram nas considerações acerca dos pontos centrais para suas atuações parlamentares antirracistas.

Abdias, que foi deputado federal em 1983, introduziu algumas discussões inéditas no período. É bastante elucidativo que tenha atuado na primeira proposta de implementação de ações afirmativas no país e na criação do Dia Nacional da Consciência Negra (20 de novembro).

Já Marielle, três décadas depois, estabeleceu uma agenda com um recorte mais enfático na promoção da igualdade de gênero e nas demandas urbanas. Vale ressaltar que ela exerceu o cargo por 15 meses e aprovou dois projetos de lei. Em fevereiro de 2018, assumiu a relatoria da comissão da Câmara dos Vereadores que acompanhava a intervenção federal no Rio de Janeiro.

As aproximações entre Carolina e Marielle nos permitem refletir sobre as experiências específicas de mulheres negras, considerando com especial atenção uma importante conquista obtida no período que as separam: o direito, o acesso e a permanência da população negra na educação formal, algo que Carolina e sua geração tanto desejaram e que Marielle e outras de sua geração alcançaram —a escritora teve acesso a dois anos de escolarização formal, que era o tempo médio de estudo alcançado pela população negra no período.

Um outro ponto importante de encontro é o lugar que a maternidade ocupou em suas vidas: longe de se tornar um lugar de inércia, tornou-se um lugar de ação. (Cabe lembrar que, na atual cena política nacional, os movimentos sociais mais promissores são formados por mães que tiveram seus filhos e filhas executados pelo Estado e que tornaram seu luto em luta ou que lutam pelo desencarceramento).

Entretanto, o ponto no qual talvez as duas tenham convergido profundamente seja no reconhecimento do direito à palavra e o poder desta como elemento que produz mudanças. Isso ajuda a entender por que uma das frases mais repedidas da escritora seja “ninguém vai apagar as palavras que eu escrevi”.

Não muito distante do que declarou certa vez Marielle em plenário: “Não serei interrompida. Não aturarei interrompimento de um cidadão que vem aqui e não sabe ouvir a posição de uma mulher eleita!”.

Em uma apreciação conjunta, essas três trajetórias revelam muito acerca da condição de homens e mulheres negras no país. De 1914 a 2018, durante mais de cem anos, a população negra brasileira lutou continuamente —e ainda luta— para obter melhores condições de vida material —acesso a serviços básicos, direito à moradia, à educação, ao trabalho e à própria vida.

Paralelamente, lutou também pelo reconhecimento de sua humanidade, das potencialidades de seu espírito, do direito à palavra e a sua singularidade.

Em conjunto, essas pessoas representam esforços genuínos para construir uma vida não definida pelas amarras do racismo. Obtiveram vitórias individuais e impulsionaram vitórias coletivas. Ao mesmo tempo, ainda que tenham rompido paradigmas, não conseguiram escapar de experiências compartilhadas pela população negra.

Carolina, por exemplo, morreu em uma situação econômica frágil, apesar de ter vendido milhares de livros. Marielle Franco também foi atingida pela violência que, neste país, interrompe a vida de homens e mulheres negras, com o agravamento de que se tratou da execução de uma vereadora eleita, no exercício de seu mandato, e as razões e os mandantes do crime são até hoje ignorados.

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