Escrever na pandemia me salvou de virar alcoólatra ou ver Jesus na goiabeira, diz Reinaldo Moraes

Autor conclui o romance 'Maior que o Mundo', retorno a sua bolha erótica em que 'todo mundo quer trepar com todo mundo'

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Claudio Leal

Jornalista e mestre em teoria e história do cinema pela USP

[resumo] Aos 71 anos, consagrado como um dos mais originais prosadores brasileiros atuais, autor de “Pornopopéia” preserva em seu trabalho os excessos que a idade e um problema no coração moderaram na vida pessoal. Em entrevista, fala da estreia como entrevistador na TV, de um roteiro sobre vampiros para o cinema e da conclusão do romance “Maior que o Mundo”, “trilogia em dois volumes” em seu universo paralelo em que “todo mundo quer trepar com todo mundo”.

Na última vez em que nos vimos num boteco da Vila Madalena, em São Paulo, em fevereiro de 2020, Reinaldo Moraes descreveu uma fibrilação atrial sofrida aos 69 anos e meio. “O cardiologista disse que meu coração estava um liquidificador. De repente eu me senti com 70 anos.”

Naquela mesa de rua, de onde espiava o horizonte de prédios, as pernas anônimas e um terminal de ônibus, ele logo falaria das trepidações por sorte restritas à vida literária. Pela primeira vez, teve um livro, o romance “Pornopopéia”, traduzido para o inglês.

Um mês depois, todos os bares da vizinhança fecharam e o romancista viu-se solitário em seu ofício. Agora ele tem 71 anos e conta por celular como atravessa a pandemia do coronavírus: “Trabalhar no romance foi a minha tábua de salvação mental. Não fosse isso, eu virava alcoólatra terminal ou acabaria vendo Jesus na goiabeira. Ou coisa pior”. Disciplinado, desperta às 5h30 para finalizar a segunda parte de seu romance “Maior que o Mundo”, cujo volume inicial saiu em 2018.

Um pouco antes do início da pandemia, gravou entrevistas com 11 escritores lusófonos para a série “Destino: Ficção” em Portugal, Angola e Brasil. Dirigida por Lia Kulakauskas, com produção original do canal CineBrasilTV, a série estreou em 2018 com 13 autores brasileiros de diferentes gerações, dentre os quais João Almino, Mario Prata, Amara Moira e Joca Reiners Terron.

“Lia teve uma ideia que eu acho singela: pegar só um livro. O romance se passa numa determinada cidade ou região, em geral com a cidade aparecendo como personagem na trama, como Manaus é pro Milton Hatoum, como Salvador era pro Gregório de Mattos e, por consequência, para Ana Miranda”, explica o romancista, que viajou aos cenários literários até quando foi possível.

“Desde o começo eu queria que a literatura não estivesse num pedestal erudito, inalcançável. Com o Reinaldo é possível abordá-la na padaria da esquina, num jogo de futebol ou na mesa de bar”, diz Lia.

Ainda sem previsão de estreia, os próximos 11 episódios abordam os livros dos moçambicanos Mia Couto e Ungulani Ba Ka Khosa, do português José Luís Peixoto, dos angolanos Pepetela e Kalaf Epalanga e dos brasileiros Itamar Vieira Junior e Giovana Madalosso, entre outros. Nos programas, surge um Reinaldo Moraes talvez desconhecido para a maioria de seus leitores, na pele de entrevistador de bons ouvidos e improvisos.

Nada pavoneado em seus 1,88 m de altura —chegou a ter 1,92 m, mas o tempo lhe roubou quatro centímetros—, ele parece alérgico a conversas agudamente literárias, e até prefere, entre umas e outras, travar papos sobre culinária ortomolecular, terraplanismo satânico e sexo sob gravidade zero. “A pior coisa que tem é você ser escritor e ter a sua própria companhia. É horrível, cara”, assegura. “Está num lugar e, em vez de reparar no que o outro está falando, está pensando no que vai escrever.”

Seus planos de aproximar vivência e literatura eclodiram em “Tanto Faz”, de 1981. Aquela excitação vital convertida em estilo, marcante em sua estreia, se deslocou nos últimos anos para a busca de uma voz disposta a exceder a experiência na criação literária. Em “Maior que o Mundo – Volume 1” (ed. Alfaguara), um escritor zanza por São Paulo enquanto grava “erupções emocionais” que possam render uma boa história, quem sabe superior ao seu romance mais bem-sucedido.

O estilo de Reinaldo Moraes assimila a pulsação do desejo. Em “Pornopopéia”, de 2009, suas descrições libertinas de transas e surubas repletas de malabarismos deixam explícito não “o sexo”, mas o sexo como linguagem, recriado com voos irrealistas e picarescos.

O anacronismo desse submundo de safadeza e drogas, já apontado pela crítica, ganha novas camadas de subversão à medida que o Brasil se ajeita no colo da extrema direita. Para as tensões eróticas de seus personagens, nada mais alienígena do que a pregação de abstinência sexual pelo governo de Jair Bolsonaro. “Excita ainda mais a moçada”, adverte Moraes.

“Abacaxi”, de 1985, e “Umidade”, de 2005, reafirmaram seu talento, mas o impacto de “Tanto Faz”, coqueluche literária nos anos 80, só encontraria correspondência com o lançamento de “Pornopopéia”, que fixou Moraes entre os mais originais prosadores da literatura brasileira contemporânea, conquistando elogios dos críticos Roberto Schwarz, Alcir Pécora e Eliane Robert Moraes.

Façamos um retorno ao bar nos bons tempos pré-coronavírus. O garçom põe duas garrafas no chão e reabastece a nossa mesa com outra gelada. Moraes toma mais um gole de cerveja antes de refletir sobre o impulso erótico de seus livros. “Isso é uma coisa que eu fui percebendo em mim mesmo. É a ideia de criar um universo paralelo. Eu não sou arauto de uma realidade. Fui criando uma realidade paralela.”

“Eu uso a realidade pra criar uma irrealidade, a realidade como matéria-prima pra criar esse mundo onde as mulheres querem foder com os caras, os caras querem foder as mulheres, todo mundo quer trepar com todo mundo, os gays querem trepar com os gays. É uma espécie de bolha erótica que seria a única possibilidade de existência livre dentro da ordem capitalista.”

Paulistano nascido em 1950, Moraes estreou como escritor quando o ciclo da contracultura estava encerrado, mas a sua obra refletiria o fogo dos artistas dos anos 60 e 70, além dos expoentes da geração beat e daquele tio a quem chama de “o velho Bukowski”.

A poesia experimental enfiada em alguns momentos de sua prosa deixa vestígios de seu cânone de marginais. “Li 200 vezes o ‘Me Segura qu’eu Vou Dar um Troço’, de Waly Salomão, e o ‘Quampérius’, do Chacal, que tem uma espécie de Oswald de Andrade com muita maconha na cabeça, o que me interessava nessa época”, conta Moraes.

Canções e filmes comparecem em sua formação cultural sem hierarquias duras. Na adolescência, amava “Todas as Mulheres do Mundo” (1966), de Domingos Oliveira. “Ninguém tinha calça com camisa. Ninguém se vestia como um cara de classe média e pegava um táxi ou dirigia um fusca. Esse filme de Domingos se passa na classe média, da qual eu provinha. Mas não havia filme sobre esse estrato. Vem o Domingos, que também tinha humor, e bota Leila Diniz. Aí é foda.”

Paulo José e Leila Diniz em 'Todas as Mulheres do Mundo', de Domingos de Oliveira, de 1966
Paulo José e Leila Diniz em 'Todas as Mulheres do Mundo', de Domingos de Oliveira, de 1966 - Divulgação

Ele continua escrevendo a sequência da história de “Maior que o Mundo”, a princípio anunciada como trilogia, mas a caminho de ser encerrada no segundo volume. No primeiro volume, acompanhamos o bloqueio do protagonista, o escritor Cássio Adalberto, o Kabeto, que decide gravar ideias para seu novo romance. Na rua, descobre o manuscrito de um anão.

“Eu queria fazer uma trilogia. Acabei e vi que tinha dois pontos fortes de virada. O cara estava em bloqueio literário e, lá pelas tantas, descobre um caderno numa caçamba de lixo. Vamos acabar aí. A segunda parte é o que ele achou, o que tinha nesse caderno. Ele vai fazer uma pirateada, vai pegar aquilo que está escrito num português sofrível”, revela.

“Transcriação. Transrecriação. Cleptorretransrecriação. É disso que se trata. Literatura é fraude. O escritor assalta a vida dos outros pra escrever, a História, o próprio idioma. E é daí que vem toda a verdade que tu deita no papel”, definiu o narrador.

“Nesse agora, essa busca de estilo é elevada a um desespero, a ponto de dissolver a ideia de representação literária, porque o cara descobre que está contando uma história que é de outro cara”, diz o romancista. “Ele vai estar sob o impacto da leitura, e a leitura é uma vivência de segundo grau. Vou fazer uma trilogia de dois volumes só. E há uma lógica, porque no segundo tem um romance embutido. O marketing vai ser: pague três e leve dois.”

O romance brotou do roteiro que ele mesmo escreveu para o filme homônimo do diretor Roberto Marquez, a cuja montagem final assistiu na quarentena. “É muito legal e tem uma pegada pop-udigrudi meio maluca, sem nenhum viés sociológico ou militante. É pura curtição”, elogia, antecipando que fará um novo roteiro para Marquez.

“Trata-se de um punhado de vampiros que se metem numa eleição numa pequena cidade do interior. Meus vampiros terão uma forte tendência monarquista absolutista, bem ao gosto da atual onda predadora, reacionária, genocida e autocrática que vem sufocando o país. Não haverá nenhuma menção direta ao protótipo de tiranete que nos governa.”

As proezas da prosa reinaldiana fisgaram a sua primeira tradutora para o inglês, a californiana Jennifer Sarah Cooper. Minuciosa ao falar dos desafios da tradução de “Pornopopéia”, ela destaca “a acrobacia linguística”, “a velocidade feroz das mudanças de registros”, “a sonoridade da língua no romance”, os poemas, os trocadilhos e “a farta code-mixing”, misturas de duas ou mais línguas.

“Um desafio foi ‘buceto’, que traduzi como ‘vagino’”, conta Jennifer Sarah. Numa passagem —“como é que um gay notório daqueles ousava se deixar bagadabronhar assim pela minha Sossô?”—, criou um verbo equivalente para “bagadabronhar”, qual seja, “bagadaboner”. A “surubrâmane” para a qual foi convidado o protagonista, Zeca, acabou virando “brahmanorgy”.

Ela concluiu a tradução durante um pós-doutorado na USP e pretende apresentá-la a editoras como New Directions e City Lights.

Em inglês, “Pornopopéia” será “Pornodyssey”. A tradutora identifica a filiação de Reinaldo Moraes com as manobras linguísticas de James Joyce e Guimarães Rosa, mas gosta de associá-lo ao humor do século 13, “no qual o corpo e seus fluidos ainda não eram restringidos pelas normas cristãs”.

De volta ao bar. “Eu estou muito embalado”, diz Moraes. “Se você quer terminar um livro, tem que chutar o cansaço. Durante um tempo eu cheirava um pó. Só que aí, no dia seguinte, estava uma merda. Parei de fazer isso. À noite, às vezes pra dar mais uma ludibriada, eu fumo unzinho, que é ótimo. Vem aquela tempestade de sinapses e você bota no papel.”

Depois dos embaraços com a saúde, ele tenta pegar leve. “Sempre detonei que nem um filho da puta”, reconhece, cheio de outras esperanças. “Tem uma erotização da velhice. Espero que sim.”

O escritor Reinaldo Moraes em sua casa em sua casa, em São Paulo
O escritor Reinaldo Moraes em sua casa em sua casa, em São Paulo - Moacyr Lopes Junior/Folhapress
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