'Islamoesquerdismo' motiva caça às bruxas em universidades francesas

Acadêmicos criticam uso do termo e denunciam intervenção em liberdade científica

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Juliana Sayuri

Jornalista e historiadora, com doutorado pela USP e pós-doutorado pela UFSC. É autora de “Paris – Palestina” (Appris), entre outros livros

[RESUMO] A França, país com o maior número de muçulmanos no mundo ocidental, vem fechando o cerco contra o que autoridades chamam de islamismo radical ao aprovar novas leis e sinalizar intenção de abrir investigações nas universidades do país. O fenômeno recente levanta o véu de discussões antigas, embaladas por dois neologismos caros a intelectuais franceses: islamoesquerdismo e islamofobia.

“O que se observa nas universidades é que existe gente que aproveita a aura de seu título para defender ideias radicais ou militantes.” Sem contexto, alguém poderia imaginar que a frase foi dita por um político brasileiro de extrema direita esbravejando contra moinhos do “marxismo cultural” nos campi.

Desta vez, porém, a frase ecoou a mais de 8.000 quilômetros das federais brasileiras: foi Frédérique Vidal, a ministra responsável pelas universidades na França, quem fez a declaração no fim de fevereiro, ao sinalizar a intenção de abrir investigações para identificar supostos focos de “islamoesquerdismo” nas cátedras francesas.

A ministra da Educação Superior, Pesquisa e Inovação da França, Frédérique Vidal, em reunião com estudantes universitários em Poitiers, no oeste da França - Guillaume Souvant - 23.fev.21/AFP

Vidal pediu dados ao CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Científica) para passar a régua entre o que seriam estudos “científicos” e “militantes” —um capítulo da guerra cultural que se entrincheira mundo afora. No Brasil, o espectro que rondaria os campi é o marxismo; na França, o islamismo.

Dias antes das declarações, a Assembleia Nacional francesa aprovou um projeto de lei para combater o “islamismo radical”, que teria tentáculos de uma hidra, na expressão do presidente Emmanuel Macron. Segundo o governo, o texto seria uma resposta a uma ameaça jihadista, ante um histórico de atentados no país.

Um dos mais recentes foi o assassinato de Samuel Paty, em outubro de 2020. Professor de um colégio de Conflans-Sainte-Honorine, a 30 quilômetros de Paris, Paty mostrou em uma aula sobre liberdade de expressão caricaturas de Maomé publicadas na revista satírica Charlie Hebdo (cuja Redação também foi alvo de atentado, em janeiro de 2015).

Islã, islamismo radical1 e islamoesquerdismo estão longe de serem sinônimos. Entretanto, as palavras são muitas vezes lançadas como coringas intercambiáveis que servem a fins políticos.

Lideranças acadêmicas criticaram duramente as declarações de Vidal, tidas como tentativa de intervenção na liberdade científica nas universidades. “O islamoesquerdismo, slogan político, não corresponde a nenhuma realidade científica”, cravou um comunicado do CNRS.

“Não existe assunto proibido ou tabu na universidade. Nós temos o direito de estudar e revisitar a história do país, o colonialismo, a não integração dos filhos de imigrantes que continuam não sendo tratados como franceses”, criticou o reitor da Universidade Sorbonne, Jean Chambaz, à rádio France Info.

A França concentra o maior número de muçulmanos no mundo ocidental, principalmente devido aos fluxos migratórios de países do Magreb, da África Ocidental e do Oriente Médio. De acordo com dados do Pew Research Center, muçulmanos constituem 8,8% da população da França, totalizando 5,7 milhões de habitantes. Um bom punhado de cidadãos cujo processo histórico de integração à sociedade francesa se tornou pivô de dois neologismos caros a intelectuais: de um lado, o islamoesquerdismo; de outro, a islamofobia.

O islamoesquerdismo indicaria um elo ideológico entre a extrema esquerda e o islã na França. A expressão foi alavancada pelo acadêmico francês Pierre-André Taguieff, autor de “La Nouvelle Judéophobie” (a nova judeofobia), livro de 2002 que argumenta a existência de uma fobia contra judeus.

O argumento foi catalisado durante os protestos pró-Palestina de Paris diante da segunda Intifada (2000-2005), uma revolta civil no conflito Israel-Palestina. Para Taguieff, acadêmicos e ativistas da esquerda francesa da época estariam flertando com radicais partidários do fim de Israel2.

O islamoesquerdismo, assim, nasceu em um berço frágil. Quase duas décadas depois, tampouco há consenso sobre até que ponto se trata de um fenômeno real ou imaginário (“puramente polêmico”, como definiu o cientista político Olivier Roy recentemente). A torto e à direita, utiliza-se a expressão para deslegitimar quem defende direitos de minorias muçulmanas no país, acusando-as de certa complacência com radicais jihadistas. Contudo, o termo também divide intelectuais de esquerda.

Foi o caso, por exemplo, do prestigiado Le Monde Diplomatique, em que por muito tempo se confrontaram duas alas políticas sobre a presença do islã na França: nos termos do historiador Nicolas Harvey, de um lado estariam intelectuais republicanos, pró-laicidade; de outro, antigos comunistas, ateus, mas mais inclinados a uma perspectiva progressista da cultura muçulmana.

Ao longo das décadas de 2000 e 2010, o núcleo de intelectuais (todos de esquerda) teve divergências sobre assuntos como a publicação de caricaturas de Maomé no diário dinamarquês Jyllands-Posten e no Charlie Hebdo; a abertura a artigos do filósofo franco-suíço e muçulmano Tariq Ramadan no próprio Diplô; e, principalmente, a proibição de símbolos religiosos (o véu islâmico) nos colégios franceses. Seguindo França, Bélgica e Áustria, a Suíça aprovou uma proposta para proibir véus no dia 7 de março.

No centro dessas controvérsias estava o contraste entre islã e laicidade. Enquanto a República francesa privilegiaria o Estado laico (a religião não deveria interferir na política), o islã preconizaria um sistema jurídico-religioso total, a "shari’a", que incorpora a religião a todas as esferas da vida, incluindo a política.

Intelectuais como Bernard Cassen, à época diretor-geral do Monde Diplomatique, consideravam que a laicidade deveria prevalecer. Outros como Alain Gresh, editor especializado no Oriente Médio, defendiam a liberdade religiosa e ponderavam que o islã progressista poderia constituir um aliado às esquerdas nas lutas contra o imperialismo.

Este é o ponto capital que despertou discussões sobre islamoesquerdismo dentro da esquerda, ideia aproveitada ao máximo pela extrema direita: um flerte com o islã que, se idealizado como braço forte para revolucionar o mundo, carregaria consigo um risco de relativizar radicalismos —“passar pano”, dir-se-ia em bom português, para atentados terroristas a depender do alvo.

Antes de voltar às manchetes europeias com as declarações de Frédérique Vidal, a expressão foi tão surrada ao longo de duas décadas que é difícil desapaixonar disputas ao redor dela. É o que acontece com islamofobia também.

O termo nasceu nessa época. Foi o título de um artigo de Alain Gresh publicado nas páginas do Monde Diplomatique em novembro de 2001.

Para Gresh, islamofobia indica um racismo cultural, de agressões a discursos discriminatórios amalgamando islã, islamismo e terrorismo a ponto de cristalizar o estigma de muçulmanos como ameaça, como se fossem todos terroristas, radicais, bárbaros.

“Quando dizemos islã, estamos condensando 15 séculos de história, 1,5 milhão de pessoas, que formam a maioria em 50 países e vivem em 100 países. E dizemos: ‘Isto é o islã’”, disse-me Gresh, durante uma entrevista no café La Liberté, em Paris, em maio de 2018.

Segundo o jornalista Thomas Deltombe, autor de “L’islam imaginaire” (o islã imaginário), três momentos-chave marcaram a construção dessa associação entre islã e terrorismo na mídia francesa. Primeiro, na década de 1970, tempos da Revolução Iraniana (1979), rascunhou-se o islã como elemento “incompatível” à França, responsabilizando imigrantes pela “difícil” integração no país europeu.

O segundo foi a "fatwa" do aiatolá iraniano Ruhollah Khomeini, pedindo a morte do escritor Salman Rushdie, autor de “Versos Satânicos”, em 1989. A "fatwa", um decreto religioso, foi retratada como contraponto incontornável à laicidade e à liberdade de expressão. Na época, diz Deltombe, a mídia francesa passou a tipificar os muçulmanos: de um lado estariam os “bons” (moderados, de elite, de um islã das luzes); de outro, os “bárbaros” (extremistas e arcaicos, confinado às periferias francesas).

O último foi pós-11 de Setembro. Internacionalmente, deflagrou-se a guerra ao terror e intensificou-se a segunda Intifada. Nacionalmente, passou-se a discutir intensamente o véu islâmico, alçado a símbolo da “incompatibilidade” com a laicidade francesa.

Em 2003, duas alunas muçulmanas foram expulsas por se recusarem a retirar os véus no liceu de Aubervilliers, Lila et Alma Lévy. Em 2004, a Assembleia Nacional aprovou a Carta da Laicidade, lei que proibiu signos religiosos “ostensivos” nos colégios públicos do país.

Depois, tudo ficaria mais complicado após a escalada de atentados desde 2015 e a ascensão de lideranças de extrema direita, como Marine Le Pen, da Frente Nacional. É nesse contexto que os neologismos islamoesquerdismo e islamofobia (já não tão “neo” assim) vez e outra voltam à baila.

Gresh e Ramadan, acusados de islamoesquerdistas, contribuíram para a difusão da palavra islamofobia, também alvo de contestações à direita e à esquerda. Para alguns, não seria o caso de versar sobre islamofobia ou judeofobia, mas de intolerância religiosa e racismo, estes, sim, fenômenos inegáveis.

Um dos críticos ao termo era Stéphane Charbonnier, o cartunista Charb, uma das vítimas do atentado ao Charlie Hebdo. No manifesto póstumo “Carta aos Escroques da Islamofobia que Fazem o Jogo dos Racistas” (Leya, 2015), Charb cita Gresh e atribui ao termo uma cumplicidade imbecil contra a liberdade de expressão.

Entre criticar demais o islã (sob risco de martelar estereótipos islamofóbicos) ou criticá-lo de menos (e talvez minimizar episódios de terrorismo), uns e outros à esquerda se acusam de fazer o jogo da direita e da extrema direita. Estariam os dois certos?

1 A expressão mais radical do islã é o fundamentalismo, que envolve um novo tipo de ativismo político. No entanto, como bem lembra o historiador Peter Demant, fundamentalismo muçulmano é um neologismo impróprio. Na verdade, fundamentalismo se refere a um movimento religioso surgido no fim do século 19, no protestantismo norte-americano contra o modernismo —mas, atualmente, é versado para movimentos paralelos de outras religiões. No livro “O Mundo Muçulmano” (Contexto, 2004), Demant diz que há diferentes termos para se referir a esse tipo de radicalismo, não muito melhores, mas considera islã político e radicalismo islâmico alternativas aceitáveis.

2 Nota óbvia, mas necessária em tempos de caça transatlântica às bruxas: criticar a violência de Israel contra a causa legítima da Palestina não quer dizer ser antissemita, como assinala a filósofa norte-americana de ascendência judaica Judith Butler no livro “Caminhos Divergentes: Judaicidade e Crítica do Sionismo” (Boitempo, 2017). Butler lembra que Israel foi fundado com base no que foi compreendido como necessidade histórica para proteger o povo judeu após a Segunda Guerra Mundial, mas que, sob esse argumento, há quem equivocadamente assuma que quaisquer críticas a Israel contribuiriam para o antissemitismo. Ou que tal argumento poderia legitimar a ocupação militar israelense de territórios palestinos.

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