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Felipe Motta Veiga

Ninguém se torna assediador por ver desenho com Pepe Le Pew na infância

Cancelamento do personagem, associado à cultura do estupro, menospreza senso crítico de crianças

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Felipe Motta Veiga

Mestrando no Programa de Pós-graduação em Literatura, Cultura e Contemporaneidade da PUC-Rio

[RESUMO] Acusado de “naturalizar o assédio sexual e o estupro”, o gambá Pepe Le Pew, da série de desenhos Looney Tunes, pode ser excluído de futuros projetos do estúdio Warner Bros. Autor avalia que patrulhas paranoicas que pedem o cancelamento do personagem menosprezam a capacidade mental e de discernimento das crianças e revelam imensa incompreensão a respeito do papel da ficção na vida de todos nós.

O recente cancelamento de Pepe Le Pew, o gambá da série de desenhos animados Looney Tunes, da Warner Bros., vem sendo endossado por um coro de revisionistas que enxergam nas investidas românticas do personagem, sempre patéticas e frustradas, uma espécie de apologia do machismo e do assédio sexual. Acusam-no, em resumo, de contribuir para naturalizar a visão da mulher como objeto disponível ao bel-prazer do homem.

Para começo de conversa, esse raciocínio revela incompreensão acerca do papel da ficção e, particularmente, dos desenhos animados na vida humana. Além do mais, indica menosprezo pelo modo de ser da criança e representa uma ofensa às suas capacidades mentais.

Por trás do entretenimento infantil, avisam os politicamente paranoicos, há sempre um espírito mal-intencionado a fim de introjetar preconceitos de toda sorte na cabeça dos nossos filhos. Sob o verniz da diversão e da fantasia, esconde-se uma fábrica de estereótipos que envenena as novas gerações e produz cidadãos abjetos. Nenhum desenho é inocente, as crianças é que são. Os desenhos são inteligentes, sim: administram a técnica da lavagem cerebral.

Grafite do artista francês STRA em Londres retrata Pepe Le Pew preso por estupro, assédio sexual e invasão de domicílio 
Grafite do artista francês STRA em Londres retrata Pepe Le Pew preso por estupro, assédio sexual e invasão de domicílio  - Carsten ten Brink/10b Travelling

Ora, sejamos honestos. Não é porque assiste a um desenho animado com personagens supostamente depravados que a criança vai se tornar um adulto depravado. Não é porque o protagonista do desenho mata um vilão que a criança vai querer matar seus desafetos, um ou dois coleguinhas de colégio.

Se um sujeito que, na infância, assistiu a Pepe Le Pew é hoje um assediador ou um tarado inveterado, a culpa certamente não é do desenho.

Personagens de ficção não precisam encarnar teorias edificantes. Não se limitam a mostrar para nós as imagens de como a humanidade deveria e não deveria ser. Tampouco estão somente a serviço de magnatas ciosos de doutrinar criancinhas incautas. E, ainda que admitamos existirem canalhas do tipo, a liberdade inventiva dos pequenos os supera infinitamente.

Deixemos o compromisso com a construção de uma sociedade ideal para a política, para os círculos das academias de sociologia e para os que acreditam em um sentido unívoco da história. A ficção joga no terreno lábil das contradições, extrai a sua força das incongruências, constrói a realidade a partir de paradoxos. Daí que ofereça a possibilidade de experimentarmos formas de vida tão discrepantes da nossa, daí que nos seduza com a promessa de que poderemos vestir a pele de quem não somos.

Do ponto de vista de alguém que passou parte importante da infância diante de uma televisão ligada no Cartoon Network e na Nickelodeon, confio que os desenhos animados são capazes de estimular o senso crítico das crianças. Naturalmente elas se identificam com alguns personagens, mas, em igual medida, aprendem a se distanciar deles e a colocá-los em questão, pois percebem desde cedo que o desenho não é a única (e nem de longe a principal) autoridade a que têm de recorrer para buscar modelos de virtude e lições sobre o pecado. O desenho participa de seu cotidiano, mas não se confunde com ele.

A opinião dos que defendem o cancelamento de Pepe Le Pew, alegando que as crianças podem acabar reproduzindo à letra o comportamento inadequado observado no desenho, ignora que, ali onde os adultos veem sobretudo machismo, a criança vê uma cornucópia de cores e texturas mirabolantes, um universo repleto de fenômenos que transcorrem fora da ordem comum. A criança vê mais do que gostaríamos de admitir. Não vê apenas o que nós vemos.

No momento em que dá de cara com sua própria ignorância, o trunfo genial do homem encurralado é acusar a ignorância dos outros. Missionários jesuítas no século 16 descreveram os indígenas brasileiros como um “papel em branco” no qual era possível imprimir à vontade os dogmas da fé. Inversamente, e não sem ironia, os ateus costumam classificar os crentes como supersticiosos, obscurantistas, perdidos na ilusão do “ópio do povo”, portanto, à espera de serem acordados pelo lume da razão.

Em todos os casos, pintam-se figuras ingênuas com as cores desbotadas da passividade. Suscetíveis a manipulações, são incapazes de pensar e agir com autonomia crítica.

As crianças repetem no dia a dia vários nomes de personagens e lugares estranhos e, volta e meia, nos surpreendem com referências às coisas que conhecem por meio dos desenhos. O desenho em suas vidas é um evento tão espantoso, embora tão trivial, que só lhes resta mesmo carregar consigo, aonde quer que vão, o repertório caleidoscópico de imagens e sons apreendidos no espaço ficcional da animação.

Sabem, porém, fingir, fazem de conta, brincam, testam algumas palavras. Repetem para aprender e, durante a repetição, elaboram as informações transmitidas pelo desenho. Espectadores ativos, remodelam a matéria sensível —as cores, as vozes, o enredo— que a televisão displicentemente despacha nos lares.

É verdade que os desenhos animados ocupam atualmente boa parcela do dia de uma criança e que, vistos em excesso, associam-se a graves distúrbios de saúde. Os pais têm motivos para ficar preocupados. Sem dúvida procedem com prudência ao acompanhar seus filhos e incentivar formas alternativas de divertimento, como a prática de esportes e atividades ao ar livre.

Com isso, a criança experimenta o mundo à sua volta, não só aquele mundo fabuloso comprimido na tela da TV. E assim também a culpa pela perversão das pessoas não cai nas costas de um desenho animado.

Repreende-se frequentemente as crianças (e com justiça) por não saberem separar a hora de brincar e a hora de comer. Acontece que elas estão sempre descobrindo vestígios da realidade lúdica dos desenhos nas situações mais sérias. Ao mesmo tempo, reconhecem quando estão dentro e quando estão fora de uma brincadeira. Com a mesma desenvoltura trazem para perto de si seus personagens prediletos e consentem que eles se retirem.

O fato de assistirem a uma cena de “assédio sexual” em um desenho não basta para que se convençam de que agarrar uma pessoa no meio da rua é uma conduta normal. Não é preciso banir desenhos animados para ensinar às crianças que certas atitudes são reprováveis e que certas coisas pertencem somente ao espaço da ficção.

As crianças não são tábulas rasas. Podem até ser parcialmente infantes, no sentido etimológico do termo: ainda lhes falta o domínio da fala. Em geral, porém, dispensam a nossa condescendência. Inclusive faríamos bem se deixássemos de lado, por pouco tempo que fosse, a ideia de que elas são inocentes e incompetentes.

Nós humanos, jovens ou velhos, somos criaturas miméticas por natureza, mas a mimese humana não implica cópia estrita e irrefletida de um modelo. Ao imitar determinado comportamento, um indivíduo não o faz necessariamente nas mesmas circunstâncias em que presenciou esse comportamento pela primeira vez. Os propósitos que governam a imitação variam.

A faculdade mimética transforma, rearranja, subverte o material à sua disposição. A reencenação de um comportamento excessivo eventualmente adquire tons de humor.

Meu sobrinho de quase 4 anos diz às vezes ao meu pai (seu avô), meio por zombaria, meio por raiva, que vai matá-lo. No dia seguinte, quando meu pai não se encontra por perto, o pequeno diz aos quatro ventos que sente saudades do avô.

Pepe Le Pew e a gatinha Penelope - Divulgação

Culpar um desenho animado como Pepe Le Pew por encorajar posturas preconceituosas parece ser, de resto, mais um sintoma da chamada cultura do cancelamento, sustentada pelo ressentimento de uma turba de paranoicos que tentam redimir os próprios erros apontando o dedo para os erros dos outros, que estão sempre prontos a jogar no colo dos outros a responsabilidade pela sua própria desgraça, que justificam seus pendores autoritários pela vigarice dos outros.

O inferno, repetimos à exaustão, são os outros. Não fossem esses vilões, talvez já tivéssemos granjeado um belo quinhão de paraíso para nós.

Contudo, a ficção tem algo de imenso valor a ensinar sobre as relações que estabelecemos com a alteridade. A princípio ela pede de nossa parte uma escuta atenta. Em troca, por vias tortuosas e insinuações, demonstra que os outros guardam conosco afinidades profundas —mesmo aqueles outros com quem julgávamos não compartilhar de nenhuma convicção, aqueles que tanto abominamos.

Agora imagine um desenho animado em que qualquer comportamento tem o potencial de tornar-se exemplo a ser seguido ou a ser condenado. Imagine um desenho em que cada cena encerra uma lição de moral. Imagine um desenho em que o gesto mais desinteressado está impregnado de ideologia. Não será isso, afinal, o verdadeiro inferno?

Mas não se desespere ainda. Imaginar não mata ninguém.

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