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Tiago Ferro

Como na ditadura, nem sempre é possível se despedir de nossos mortos na pandemia

Escritor comenta a experiência do luto em dois momentos traumáticos do país

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Tiago Ferro

Crítico literário e autor do romance "O Pai da Menina Morta” (Todavia), vencedor do Prêmio Jabuti em 2019

[RESUMO] Em reflexão a respeito da experiência traumática do luto, autor comenta a dor dos que não puderam se despedir ou mesmo enterrar seus parentes, relacionando os milhares de mortes na pandemia, em meio à indiferença de Bolsonaro, e os corpos desaparecidos na ditadura militar.

Ao paciente diagnosticado com Covid-19, internado em um leito de UTI, com alguma sorte pode haver tempo de enviar uma última mensagem de WhatsApp à família, antes de entregar o celular à enfermeira e ser intubado.

Penso nos lutos sem despedida, sem velório —no limite, sem corpos.

Acesso o site Memórias da Ditadura e caio em uma página com centenas de fotos 3x4 organizadas em seis colunas. A maioria delas está em preto e branco. Abaixo de cada uma há nome, data de nascimento e morte.

Clico em “Luísa Augusta Garlipe”. A data e o local de morte são incertos: “Desaparecimento em 25/12/1973 ou entre 5/1974 e 7/1974”. Nascida em 1941, trata-se, portanto, de uma vítima do Estado brasileiro mal-entrada na casa dos 30 anos. Na foto, parece uma jovem alegre.

Consta que desapareceu durante a Guerrilha do Araguaia, mas as informações fornecidas pelos diferentes órgãos do Exército são contraditórias: teria recebido “injeção letal” no momento da captura e sido sepultada no mesmo local ou presa e entregue com vida “aos cuidados do tenente-coronel Leo Frederico Cinelli”.

Dou um Google e descubro que Cinelli foi o primeiro militar a “admitir que o atentado do Riocentro havia sido obra de militares”. A conclusão da Comissão Nacional da Verdade nesse caso é que as investigações devem continuar e os culpados, ser punidos.

Há links para compartilhar o perfil da desaparecida no Facebook ou no Twitter. Estão desativados. Alguém deve ter percebido que a ideia poderia ser de mau gosto, mas também potencialmente explosiva. A rede do fetiche se sobrepõe à história material e não pode haver brechas entre elas.

Bastaria duvidarmos por um minuto para que a ideologia desmoronasse, e a verdade da história se revelasse em toda a sua monstruosidade, como a que está na página Memórias da Ditadura.
Quando o Brasil somava 5.017 mortes por Covid-19, questionado pela imprensa, o presidente Jair Bolsonaro ironizou: “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre”.

Nascido em Londres em 1921, Henri Alleg foi membro do Partido Comunista Francês e jornalista na Argélia convulsionada pelas lutas por independência. Foi preso e brutalmente torturado. Em “A Tortura”, seu livro-denúncia, há mais de dez referências ao riso de seus torturadores.

Paul Aussaresses, oficial do Exército francês diretamente envolvido nos abusos contra a resistência argelina, ensinou “técnicas de contrainsurgência” na Carolina do Norte (EUA), para em seguida assumir um posto na embaixada francesa em Brasília, em 1973, ano do golpe contra Salvador Allende no Chile.

No livro “O Brasil contra a Democracia”, Roberto Simon demonstra com abundância de provas como o Brasil, apesar de joguete norte-americano no contexto da Guerra Fria, tinha autonomia de decisão para influenciar o destino de seus vizinhos e tentar fazer do Chile sua imagem e semelhança.

Em seus primeiros meses de governo, o presidente Bolsonaro extinguiu os grupos responsáveis por identificar ossadas de vítimas da ditadura. Quando parlamentar, ironizou as vítimas ao posar ao lado de um cartaz que dizia: “Quem procura osso é cachorro”.

Entro na aba Biografias da Ditadura. Procuro por Carlos Brilhante Ustra. “Em 2008, Ustra se tornou o primeiro militar a ser reconhecido como torturador pela Justiça.” No perfil de Ustra, há um link chamado Frases. Clico. “Quer crime de sangue maior do que torturar uma pessoa?”, afirma Ivan Seixas, ex-preso político. “Com muito orgulho, cumpri minha missão”, Ustra.

Será que os familiares de Luísa Augusta Garlipe vivem em um luto eterno, ou ainda se encontram na antessala do luto, aguardando o corpo desaparecido? Qual seria a reação desse casal de idosos diante do saco plástico preto disforme e pesado com um papel branco grampeado atestando a identidade da filha através do exame de DNA?

A língua alemã é a única a dispor de uma palavra para o riso decorrente do sofrimento alheio: Schadenfreude, me explica o historiador Elias Saliba. O riso do sádico, do torturador. Apesar das piadas agressivas de Donald Trump, ainda segundo Saliba, o ex-presidente norte-americano não costumava rir. Pode-se dizer o mesmo de muitos ditadores do século 20.

Já Bolsonaro, é difícil não flagrá-lo rindo ao tratar de qualquer assunto, até mesmo da dor alheia —ou principalmente nesses casos. Assim, o presidente brasileiro estaria de fato mais próximo dos paraquedistas franceses atuando em Argel do que de Stálin, Hitler ou dos generais que governaram o Brasil durante a ditadura civil-militar instaurada com o golpe de 64.

No pé de página do site Memórias da Ditadura há uma bandeira brasileira estilizada ao lado dos dizeres: “Pátria Amada Brasil”.

Recebo no grupo de WhatsApp da família a notícia de que o M. morreu de Covid e que sua mulher está intubada e já desacreditada. Trata-se de um casal de 70 e poucos anos que frequentava a mesma cidade do interior de São Paulo onde meus pais têm casa de veraneio.

Eles não têm filhos, algo raro para casais dessa idade. Ela vai morrer sem saber que o marido já havia morrido. Ele morreu sem saber que a mulher estava intubada. Nenhum dos dois passou pela dor do luto. Ao serem transferidos para leitos separados, eles não sabiam que nunca mais se veriam.

Leio que o governo Bolsonaro é denunciado na ONU por “tragédia humanitária” na pandemia.

Ao votar na Câmara dos Deputados pelo golpe contra a primeira mulher eleita para a Presidência do Brasil, Bolsonaro afirmou: “Pela memória do coronel Carlos Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff”.
Antes de morrer por Covid, o escritor Sérgio Sant’Anna postou no Facebook: “O Brasil é um filme de terror”.

Sinto uma leve falta de ar desde que acordei. Procuro me convencer que é efeito da sinusite, mal que me aflige sempre nesta época do ano. Acordo de madrugada com a falta de ar já bem mais pronunciada. Não consigo deixar de me ver intubado, da minha mulher e filha enlutadas.

Sinto medo e começo a programar a ida ao hospital: de madrugada ou logo cedinho pela manhã? Devo fazer o último passeio em família com a cachorra, ou me despedir da minha filha com um beijo na testa e um “te amo” sem acordá-la antes do necessário para a tragédia iminente?

Minha mulher tem o oxímetro digital que era usado pela mãe dela, que faleceu com mais de 80 anos, antes da pandemia. Tiro as pilhas do controle remoto da TV e ligo o aparelhinho. Ela coloca o meu dedo anular naquela boca de plástico e dois números vermelhos brilham no fundo escuro: 99 e outro que varia indeciso entre o 72 e o 76. Entro no Google. O 99 é o que importa nesse caso. A saturação de oxigênio no sangue está boa. Volto a respirar normalmente. E durmo.

Enquanto escrevo este texto o país já conta 331.530 mortes e é considerado uma ameaça aos esforços globais de combate à pandemia. Há poucos dias, o presidente voltou a fazer pouco caso da dor de milhares de brasileiros: “Chega de frescura e de mimimi. Vão ficar chorando até quando?”.

Uma definição paradoxalmente genérica e precisa do luto diz que trata-se da sensação de que “algo nos foi tirado”.

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