Descrição de chapéu STF

Da peste negra à Covid-19, cultos e missas em pandemias são dilema histórico da humanidade

Veto a práticas religiosas presenciais, liberado pelo STF, reacende debate sobre socorro espiritual e responsabilidade social

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Anna Virginia Balloussier

Repórter especial da Folha, em 2016 foi correspondente do jornal em Nova York. Escreveu o livro “Talvez Ela não Precise de Mim: Diários de uma Mãe em Quarentena” (ed. Todavia)

Rio de Janeiro

[resumo] Debate sobre liberação ou não de cultos e missas presenciais na pandemia, que chegou ao STF, divide os grupos religiosos e renova um dilema milenar da humanidade a respeito de socorro espiritual e responsabilidade social em tempos de catástrofes sanitárias.

"A Bíblia diz que quem tem fôlego louve ao Senhor, então vamos louvar ao Senhor dentro do ônibus", disse o pastor Eduardo Silva em março, até então o mês mais letal de uma pandemia que clama justamente o fôlego de suas vítimas.

O estado de São Paulo, a mando do governador João Doria (PSDB), havia paralisado atividades religiosas. Foi aí que o líder do Aviva, de um pequeno ministério evangélico na capital paulistana, o Aviva, abarrotou um ônibus de fiéis e, em afronta registrada em vídeo ao decreto estadual, celebrou ali mesmo seu culto —não havia impedimento para transportes coletivos.

Em movimento estava também o lobby evangélico que culminou, na véspera da Páscoa, na liberação de práticas presenciais de fé no país em meio à chacina viral da Covid-19. A decisão partiu do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Kassio Nunes Marques, que reagiu a uma ação proposta pela Anajure (Associação Nacional de Juristas Evangélicos).

Dois dias depois, o colega Gilmar Mendes se agregou ao script judicial, validando a constitucionalidade do decreto paulista que vetava reuniões religiosas. O debate foi levado ao plenário da corte e, na quinta-feira (8), a maioria dos ministros decidiu que estados e municípios podem barrar cultos e missas.

A Covid-19 arrastou para o século 21 um dilema que perseguiu a humanidade em outras catástrofes sanitárias: fechar templos quando o socorro espiritual é mais do que nunca necessário ou abri-los e destrancar o caminho para um patógeno descarrilado em sua sanha mortífera?

A mais apocalíptica das previsões para o flagelo atual desbota perto do estrago que a peste negra fez no século 14. Estima-se que a doença dizimou entre um terço e metade de europeus de todas as idades, enquanto a Covid, até aqui, matou menos de 0,2% da União Europeia e do Reino Unido.

A Igreja Católica medieval se infiltrava em todos os poros sociais, da política à cultura, e foi a ela que o continente em apuros recorreu. Na época, a medicina tinha um conhecimento grosseiro do corpo humano, já que médicos, proibidos de realizar autópsias, pouco compreendiam de anatomia. O melhor remédio era ser um bom cristão, que contribuía financeiramente com a igreja e mantinha a oração em dia.

“Em geral, a peste era vista como um instrumento da cólera divina”, diz o médico e historiador Francisco Moreno de Carvalho, pesquisador associado ao Centro de Estudos Judaicos da USP. “Homero aponta a moléstia como punição do deus Apolo aos gregos. Na Bíblia, há várias referências a doenças coletivas como um corretivo. Em Tebas, na história de Édipo, a peste é um castigo pelo incesto involuntário.”

Pandemias, portanto, eram comumente aceitas como uma merecida marretada de Deus. “Mas também como uma outra face desta mesma moeda”, pondera Carvalho. “Podem ser momentos de prova para testar a fé dos crentes na divindade: em que medida ela pode enviar sua cura aos que se arrependem e praticam o bem.”

O surto bubônico, contudo, acabou por derreter maiores expectativas com a deidade. Padres não sabiam responder por que tantos fiéis morriam, bebês inclusive. Os mais devotos morriam tanto quanto os piores devassos. Quando clérigos começaram a perecer em massa, estraçalharam ilusões de que a salvação estava na igreja.

Como na crise de hoje, era necessário encontrar culpados por tanta ruína, afirma Carvalho. No primeiro relato considerado histórico de uma epidemia, uma praga que arrasou Atenas 430 a.C., o grego Tucídides atribui o surgimento da doença a estrangeiros —no caso, etíopes. “Em diversos episódios de pestilência, sempre o ‘outro’ é o causador. Agora temos a ‘gripe chinesa’. Assim foi com a peste negra em relação aos judeus. Todo preconceito é gerador de fake news. Na Idade Média, sem WhatsApp, já as havia.”

Judeus eram acusados de envenenar poços para provocar a enfermidade. Milhares foram chacinados. Havia ainda uma falsa avaliação de que o grupo seria mais imune à doença do que cristãos, “o que reforçava a acusação de que eles eram os promotores da peste, visando destruir o cristianismo”.

Um milênio antes, outra pandemia ajudou a construir a ideia de cristandade. A praga de Cipriano se alongou por duas décadas no século 3º e chegou a matar mais de 5.000 pessoas por dia no Império Romano. Convertido ao credo monoteísta e feito bispo de Cartago, Cipriano escreveu “Sobre a Mortalidade”.

Neste ensaio, descreve “intestinos agitados com contínuos vômitos”, “olhos em fogo com o sangue injetado” e outros efeitos da peste que historiadores suspeitam ter sido varíola ou sarampo.

É verdade que cristãos tombavam tanto quanto pagãos adeptos de crenças greco-romanas. Cipriano, no entanto, procurou acalmá-los com a promessa da vida após a morte para os que têm fé em Deus. Muitos se infectaram porque não deixaram doentes para trás, o que é apontado por pastores contemporâneos como um ato último de amor pelo próximo.

A imagem do sacrifício é bem explorada pelo pastorado. É conhecida a história do povoado inglês de Eyam. No verão de 1665, a peste chegou ao vilarejo por meio de uma peça, lotada de pulgas de ratos infectados, enviada a um alfaiate.

Eyam, então, isolou-se numa quarentena autoimposta, incentivada por dois pastores protestantes. As vilas vizinhas ajudavam colocando alimentos em buracos feitos na cerca de pedra construída ao redor do povoado. O isolamento custou caro: quase metade dos cerca de 750 moradores morreu.

Dois séculos e meio depois, os médicos ainda pouco tinham a oferecer ante uma pandemia que ceifou 50 milhões de vidas. Laura Spinney, autora do livro “Pale Rider: the Spanish Flu of 1918 and How It Changed the World (“Cavaleiro Pálido: a Gripe Espanhola de 1918 e Como Ela Mudou o Mundo”, sem edição no Brasil), aponta Samora, uma cidade bastante devota da Espanha, como símbolo de um choque letal entre religião e ciência.

O bispo local desafiou autoridades sanitárias ao convocar orações, algumas que se estendiam por mais de uma semana, em homenagem a são Rocco, protetor contra a peste. As novenas envolviam filas para beijar relíquias do santo no auge do contágio. Samora perdeu quase 6% da população, uma taxa de mortalidade quase 15 vezes maior que a da capital, Madri.

A etimologia da palavra igreja vem do grego “ekklesia”, que significa assembleia, a mesma que Jesus pregou quando, segundo o Evangelho de Mateus, disse: “Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali eu estou no meio deles”. Em 1930, o teólogo luterano Dietrich Bonhoeffer cravou: “Um cristão que se mantém afastado da assembleia é uma contradição em termos”.

Presidente da Anajure, a entidade evangélica que advoga pelo funcionamento de templos, Edna Zili saca a imagem de Jesus e seus 12 apóstolos para ilustrar o pendor coletivista do cristianismo, desde reuniões em templos relatadas no Antigo Testamento até a formação das primeiras igrejas cristãs no Novo Testamento. “Parte da importância da manutenção das igrejas abertas se vincula à proeminência conferida à adoração coletiva entre os fiéis, de modo que meios virtuais, apesar de úteis, não conseguem substituir tais aspectos essenciais.”

O que fazem as religiões, no entanto, senão se adaptarem? “Todo momento de crise é de transformação também, e isso estamos cansados de ver na história”, diz o professor emérito da USP Reginaldo Prandi, sociólogo da religião que é também um ogã no candomblé, título que nos terreiros equivale ao de auxiliar nos rituais.

Essa espécie de darwinismo social também se aplica às religiões, mesmo à Igreja Católica, uma placa maciça que custa a se mover, em contraposição às células evangélicas muito mais ágeis em reagir ao espírito do tempo.

A cena do papa Francisco rezando numa praça São Pedro esvaziada, eternizada no começo da pandemia e repetida em 2021, é uma amostra recente da capacidade de acomodação da Santa Sé. No Brasil, lideranças como dom Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo, viram bom senso no veto a missas presenciais enquanto o morticínio não arrefecer.

Agruras sanitárias apressam aggiornamentos, mas não só. O Concílio Vaticano 2º, conferência que se descrevia como a abertura de janelas numa sala malventilada, marcou a flexibilização de ritos que pareciam inabaláveis para consecutivas gerações de católicos.

Liderado pela igreja nos anos 1960, removeu uma série de tradições, das missas em latim, com o padre de costas ao público, ao uso de véu pelas mulheres. “Para as solteiras, supostamente virgens, o branco. Para outras, o preto. Isso mudou completamente”, diz Prandi. E hoje? “Com véu ou sem véu? Com máscara ou sem máscara?”

Com mais ou menos ligeireza, as grandes religiões dão um jeito de não perder o bonde da história. As crenças de matriz africana tiveram de mudar na marra com a diáspora compulsória provocada pela escravidão, exemplifica o sociólogo.

“Antigamente, todos de uma família de sangue possuíam o mesmo orixá [como guia espiritual]. No Brasil escravagista, essa herança não podia mais ser determinada pela família, que foi desfeita, roubada. O escravo ganhava nome cristão e o sobrenome do proprietário. Seu orixá pessoal agora podia ser comunicado por meio de um oráculo.”

Dizia o filósofo alemão Georg Hegel que a história nos ensina que nada aprendemos com a história. Professor de cultura da medicina em Harvard, David Jones vê certo chiste histórico em como muitas pessoas, mesmo tendo dez semanas de aviso, pareciam surpresas em março de 2020, quando a Covid mostrou as asas em Nova York e depois em outros estados. “Por algum motivo, pensamos que isso não iria acontecer conosco”, afirmou num podcast da universidade.

Alertas não faltaram. Na época, outro podcast, do jornal The New York Times, entrevistou um médico da Itália sobre o mal que se avizinhava dos EUA. Ele contou como os pacientes em seu hospital estavam morrendo sozinhos: “Tentamos ligar, todos os dias, para seus parentes. Mas preciso dizer que às vezes, no meio da confusão, ninguém lembra de telefonar. Então acontece do filho ligar para o hospital, e a pessoa já estar morta”.

A escalada do drama italiano, segundo o doutor, começou no dia 23 de fevereiro, o domingo de Carnaval. Era questão de tempo até aportar nos EUA, hoje a nação mais atingida pela Covid em números absolutos, com quase 560 mil óbitos (projeta-se que o Brasil irá ultrapassar essa marca).

O histórico epidemiológico da humanidade reforça essa descrença cíclica. Em 1832, a mesma Nova York, diante de um rompante de cólera prenunciado com meses de antecedência, respondeu com espanto. É o mesmo filme: “Pensaram que isso não aconteceria com eles, que eram de alguma forma diferentes”, afirma Jones. A confiança numa providência divina que nos livrará de todo o mal é um espólio cultural legado mesmo àqueles sem filiação religiosa, segundo o professor.

A ordem social pode entrar em curto-circuito quando a expectativa na onipotência divina não se confirma, como aconteceu quando o Vaticano foi incapaz de dar uma justificativa espiritual à altura para o massacre bubônico. Via de regra, porém, quando uma crise como a da Covid-19 brota, a praxe é ver uma leva de tementes a algum deus, ou múltiplos deles, buscarem guarida na fé.

Hospitais que tratam o espírito podem fazer tão bem quanto os que cuidam do corpo físico, argumenta Pedro Luis Barreto Litwinczuk, teólogo e pastor da Comunidade Batista do Rio.

Daí o disparate em comparar templos como outros estabelecimentos fechados por decreto na pandemia, diz. “É óbvio que toda igreja que defende o nome de Cristo deve primar pelo bem-estar de suas ovelhas, respeitando distanciamento, limite de pessoas, uso de máscaras e álcool em gel. Mas elas não devem nem podem ser fechadas. O povo está padecendo como nunca visto antes. Muitos estão em depressão, apavorados, inseguros, e a igreja mostra que, mesmo nas lutas, Deus está ao nosso lado.”

Na visão de Litwinczuk, um argumento recorrente para defender fechar todos os templos, o surto de Covid ligado a superigrejas na Coreia do Sul, é falacioso porque elas desrespeitavam o protocolo sanitário. Já outra linha argumentativa, que equipara templos a um botequim que traz alegria para boêmios em tempos difíceis —”por que não abri-los também?”—, beiraria o escárnio.

“O [jurista] Ives Gandra Martins disse que pandemia é igual guerra, se não tiver uma voz de comando, vira zona. Num bar é diferente, não tem uma liderança, nem regras. As ovelhas ouvem a orientação do seu pastor.” Congregações que não zelam pelas normas sanitárias precisam ser enquadradas, afirma.

Não dá para ignorar que a canetada de Kassio Nunes Marques atendia a uma agenda evangélica, diz Pai Rodney de Oxóssi, babalorixá e doutor em ciências sociais pela PUC-SP, que toda segunda-feira reza para Obaluiê, orixá da cura. “Claro que o ministro nem se lembrou dos terreiros quando tomou essa decisão, né? Os cristãos sempre mandaram.”

Há, contudo, espaço para convergência: também Pai Rodney diz que preservar alguns ritos presenciais “tem sido importante para a saúde mental de muita gente”. Um deles é o bori (“literalmente, oferenda à cabeça”), que busca apaziguar tormentas mentais e requer um período hospedado na casa de candomblé. “Normalmente, as pessoas chegam num dia, dormem no terreiro e seguem no outro. Muitas com desequilíbrios emocionais e psíquicos recorrem a esse ritual. Neste momento, uma pessoa chegou da Itália para fazer o bori.”

Se neste momento o menor contato físico pode representar uma ogiva viral, a realização de uma cerimônia presencial não é só eticamente errada, diz Ruben Sternschein, rabino da Congregação Israelita Paulista. “Segundo a lei judaica, todos os preceitos religiosos ficam relegados a segundo plano se a vida está em jogo. Do shabat ao casamento, nada pode justificar o risco de contaminar pessoas.”

Digamos que uma pessoa está anêmica no Yom Kipur, o Dia do Perdão. Espera-se nessa data, a mais sagrada do calendário judaico, um período de orações intensas e 25 horas de jejum. Para alguém fisicamente debilitado, contudo, privar-se de alimentos seria uma transgressão, afirma Sternschein. “A vida está acima de tudo, inclusive acima do judaísmo.”

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