Descrição de chapéu
Fernanda Reis

De 'Parasita' a 'Minari', Coreia do Sul conquistou o mundo na pandemia

Repórter conta sua imersão na cultura do país do k-pop e a experiência de aprender coreano na quarentena

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

A banda coreana BTS, expoente do k-pop, no programa de TV ‘Good Morning America’, nos EUA, em maio de 2019  REUTERS

Fernanda Reis

Jornalista e ex-repórter da Folha

[resumo] De “Parasita” a “Minari”, filmes, músicas e séries da Coreia do Sul romperam fronteiras e conquistaram público e prêmios em todo o mundo durante a pandemia. Motivada por essa pujança, repórter conta sua imersão na vida cultural do país e a experiência de aprender coreano na quarentena.

No início do ano passado, as perspectivas de uma vitória arrebatadora de “Parasita” no Oscar eram semelhantes às de eu aprender a falar coreano —seria legal se acontecesse, mas pouco provável. Um filme coreano nunca havia recebido antes uma indicação ao prêmio, e o favorito daquela edição era o épico de guerra “1917”. No entanto, Bong Joon-ho saiu com quatro troféus, incluindo melhor filme e diretor.

Pouca coisa se manteve igual no mundo desde então. Declarada um mês após a premiação, a pandemia de Covid-19 parou tudo: as novelas da Globo, a Olimpíada, os sonhos de viajar nas férias. Não freou, porém, a indústria cultural da Coreia do Sul, que desde o ano passado só tem o que comemorar.

A bola da vez são as seis indicações de “Minari” ao Oscar. Embora o longa seja americano —seu diretor, Lee Isaac Chung, nasceu nos Estados Unidos, filho de imigrantes—, é quase todo falado em coreano.

Pelo filme, Steven Yeun e Youn Yuh-Jung concorrem, respectivamente, a melhor ator e atriz coadjuvante, fato inédito para artistas de origem asiática na premiação. Youn, inclusive, é a favorita, após ter ganhado o prêmio do sindicato de atores nos EUA e o Bafta, o Oscar inglês.

No cinema, na TV e na música, no último ano a Coreia não parou de colar figurinhas no seu álbum de façanhas: primeira indicação ao Grammy, com a banda BTS; primeira música coreana a chegar ao topo da parada Billboard, com “Dynamite”, cantada em inglês por BTS; primeira música a chegar ao topo da parada Billboard cantada em coreano, com “Life Goes On”, do mesmo grupo.

A lista de recordes também é grande: segundo a IFPI (Federação Internacional da Indústria Fonográfica), BTS foi o campeão de vendas no mundo em 2020. E o disco mais vendido? “Map of the Soul: 7”, também deles. Na última segunda-feira (12), “Dynamite” alcançou 1 bilhão de visualizações no YouTube, a terceira vez que um vídeo do grupo atinge essa marca.

Essa pujança cultural foi chave para que, um ano atrás, mais um fato improvável acontecesse: decidi aprender coreano. O isolamento social parecia uma oportunidade única de fazer algo impensável em circunstâncias normais —estudar um idioma que não adotasse o alfabeto latino.

Até então, quase nada sabia da Coreia do Sul. Por anos pensei que k-pop fosse apenas uma rede de restaurantes de frango frito de São Paulo, e não o famoso, como descobri depois, gênero musical pop coreano. A balança pendeu para o idioma, contudo, por conta de “Parasita”. Embora não vislumbrasse oportunidades de usar o idioma na prática, poderia aproveitar a quarentena para ver outros filmes de Bong Joon-ho.

Estudar a língua somente com o auxílio da internet ao longo deste último ano se revelou, ao mesmo tempo, uma empreitada bem mais difícil e bem mais fácil do que imaginava.

Por um lado, se aprender inglês é como começar a andar de bicicleta, aprender coreano é conseguir fazer piruetas em um circuito de bicicross. Enquanto as orações em português são formadas por sujeito, verbo e objeto, no coreano o objeto vem antes, o verbo no fim e o sujeito muitas vezes nem dá as caras.

Por outro lado, constatei que a Coreia não vem se destacando na cena cultural à toa. A oferta de conteúdo no idioma é imensa, e o esquema de produção do país parece ter sido pensado para a exportação.

Isso fica particularmente claro na indústria do k-pop. Em muitos sentidos, as boybands e girlbands coreanas lembram bastante as ocidentais. Os grupos têm membros de personalidades complementares, apresentam coreografias elaboradas, e os lançamentos de discos são acompanhados de mudanças de visual.

Uma diferença importante, no entanto, está no nível de acessibilidade e na quantidade de conteúdo. Enquanto estrelas americanas, como Beyoncé, parecem quase inatingíveis, os artistas coreanos compartilham com os fãs minúcias de seus processos de trabalho e de suas vidas, ainda que com muita curadoria.

Na primeira temporada da pandemia, quando ficar em casa ainda era novidade, músicos como Chris Martin e John Legend fizeram lives para entreter seus fãs. Assistir a essas transmissões dava a impressão de que, sim, estrelas são como nós, e tínhamos uma sensação de comunidade em meio ao isolamento.

Na Coreia, há tempos já se usava desse poder de aproximação das lives. O site V Live permite que celebridades criem canais para fazer transmissões ao vivo, respondendo a comentários em tempo real. O maior deles, como se pode imaginar, é o do BTS, com mais de 27 milhões de assinantes que veem os integrantes da banda tocando violão, almoçando ou simplesmente fazendo nada.

Cada aniversário dos cantores é comemorado em frente às câmeras, cada conquista é celebrada com os fãs. Assim, o público fica com a sensação de que conhece intimamente RM, Jin, Suga, J-Hope, Jimin, V e Jungkook, os membros da banda. E trata-se de um público imenso: em março, uma live de Jungkook teve mais de 22 milhões visualizações simultâneas.

Para alcançar também os visitantes internacionais, o V Live disponibiliza, horas depois da transmissão, legendas em mais de dez idiomas, incluindo português e o próprio coreano, o que faz dele um grande aliado do estudante da língua.

Uma das grandes dificuldades em estudar o idioma por conta própria é a falta de conversação —falar com o cachorro em coreano era minha única alternativa, mas o avanço era nulo. Áudios feitos para estudantes, por sua vez, são artificiais, e nem todas as produções coreanas na Netflix vêm com opção de legenda na língua.

As lives foram a saída e se revelaram uma droga de entrada poderosa para o vício em k-pop. Em poucos meses passei do “o que é BTS?” para “um deles é alérgico a batatas”. Pular das lives para outros conteúdos foi fácil, pois os artistas coreanos continuaram produzindo durante a pandemia, como se nada houvesse mudado.

Parte disso se deve ao fato de que, embora a vacinação lá também esteja atrasada, a Coreia enfrentou a Covid-19 com mais rapidez que o resto do mundo em geral, realizando testes em massa desde o início. Assim, permitiu que os artistas conseguissem trabalhar mesmo nos períodos mais agudos da pandemia no mundo.

Outro fator determinante foi a capacidade de adaptação. A cada ano, por exemplo, a banda BTS grava um reality de turismo em um país diferente. Como agora não era mais possível, filmaram os cantores isolados no campo e lançaram a série “In the Soop”. Gravações de uma turnê viraram filme e, já que não puderam se apresentar pessoalmente no Grammy, replicaram em Seul o teatro em que o prêmio foi concedido.

Além disso, o k-pop levou os shows para o computador. E não em um esquema banquinho e violão: sem poder fazer uma turnê mundial, a banda feminina Blackpink promoveu em janeiro uma apresentação virtual em grande escala, com múltiplas trocas de figurino e pirotecnia.

Mesma coisa fez o BTS. Para ver um de seus shows virtuais, com tradução simultânea, 756 mil fãs de mais de 100 países compraram ingressos a partir de US$ 26 (R$ 145).

Usando essas ferramentas, a Coreia conseguiu driblar entraves enfrentados por artistas que não falam inglês na busca do sucesso mundial. Rádios americanas ainda relutam em tocar k-pop, o que parecia ser uma barreira intransponível para que o gênero chegasse ao topo da parada Billboard. Os downloads de fãs são tantos, porém, que o BTS conseguiu.

Esse sucesso não passou despercebido pela indústria do entretenimento ocidental. De um ano para cá, é comum ver astros do k-pop em programas de televisão americanos ou fazendo colaborações com artistas do país.

Em 2020, o quarteto Blackpink gravou “Sour Candy”, com Lady Gaga, e “Ice Cream”, com Selena Gomez. Uma das cantoras do grupo, Rosé, também se tornou neste ano a primeira artista coreana a se apresentar sozinha no tradicional talk show americano de Jimmy Kimmel.

E há cooperações mais profundas entre Coreia e Estados Unidos em curso. Em fevereiro, o conglomerado de entretenimento coreano HYBE, responsável pelo BTS, anunciou uma parceria com a Universal Music para “reescrever a história da música mundial”.

Juntas, as empresas irão criar uma boyband com membros selecionados em audições globais. Enquanto os americanos serão responsáveis pela produção musical, pelo marketing e pela distribuição, os coreanos ficarão com a seleção e o treinamento dos cantores, além da produção de conteúdo para os fãs.

Neste mês, a HYBE adquiriu ainda a empresa Ithaca Holdings, que gerencia as carreiras de nomes como Justin Bieber, Ariana Grande e Demi Lovato. Bang Si-Hyuk, fundador da HYBE, afirmou que as empresas irão trabalhar juntas para “transcender fronteiras e quebrar barreiras culturais”.

Scooter Braun, líder da Ithaca Holdings e um dos nomes mais influentes da indústria americana, acrescentou: “Oportunidades globais para os artistas crescerão exponencialmente com essa parceria. É uma oportunidade para fazermos história, inovar ainda mais na indústria musical e revolucionar o jogo”.

Movimento parecido se dá no audiovisual. Segundo a CNN, a Netflix irá praticamente dobrar seu orçamento para a produção de conteúdo original na Ásia, especialmente na Coreia. A plataforma não revela números de audiência, mas séries sul-coreanas como “Itaewon Class”, “Kingdom”, “Tudo Bem Não Ser Normal”, além de bombar no Twitter, ganharam críticas elogiosas na mídia americana —as duas últimas foram citadas pelo jornal The New York Times entre as melhores séries internacionais de 2020.

No ano passado, a Netflix deu início ainda a uma parceria com a empresa de mídia coreana JTBC e com a produtora Studio Dragon, para distribuição e coprodução de séries.

Já na Apple TV, está em pré-produção “Pachinko”, série baseada em livro de mesmo nome que conta a saga de uma família coreana ao longo de gerações. Com elenco internacional, será falada em coreano, inglês e japonês.

Como ainda não há data de estreia, posso sonhar que, até lá, vou entender cerca de 70% dos diálogos. Aprender coreano —ou pelo menos começar— foi uma montanha-russa que acompanhou a pandemia. Nas primeiras semanas, quando ficar em casa parecia algo de outro mundo, porém passageiro, foi razoavelmente simples.

Diversos sites ensinam o alfabeto, composto por 21 vogais e 19 consoantes, e no YouTube é possível aprender a emitir os sons não existentes na língua portuguesa —no coreano não há os sons de F ou V, porém há muitos outros que não fazemos (é fácil, por exemplo, dizer “defecar” em vez de “comprar”, o que dificulta a tarefa de adquirir uma calça).

Os meses seguintes, de aprendizado da gramática, foram uma escalada. Durante seis meses, estudando uma hora diária, nove níveis do curso maravilhoso (e gratuito, na versão básica) do site Talk To Me In Korean foram completados —um total de 270 aulas.

Houve ainda o período da decoreba, em que diariamente anotava em uma lousa seis palavras novas e registrava as memorizadas em um aplicativo. À noite, recitava verbos até pegar no sono.

Sem as séries, a música e os filmes, contudo, teria sido impossível. Com eles aprendi que, na Coreia, você não faz anos no seu aniversário, e sim no Ano-Novo, e que todos já nascem com um ano de idade —assim, lá você é um ou dois anos mais velho do que aqui. Descobri também que é comum casais com filhos se chamarem por “pai de Fulano” ou “mãe de Sicrano”, em vez de usarem os nomes próprios. Isso tornou tudo mais fácil.

A Coreia sabe bem desse potencial de sua cultura de popularizar o país mundo afora. A HYBE, por exemplo, lançou com outras instituições o curso Aprenda Coreano com o BTS, que utiliza vídeos do grupo para ensinar o idioma em universidades internacionais.

Essa onda causou ainda mudanças internas no país. Em dezembro, foi aprovada uma lei que permite aos popstars atrasar em dois anos seu alistamento militar, cumprido obrigatoriamente por todos os homens até os 28 anos —idade do membro mais velho do BTS, Jin.

Apesar das conquistas recentes, no entanto, a onda cultural coreana tem desafios pela frente. Fãs de Blackpink, por exemplo, se decepcionaram por não ver a banda na lista de indicados a revelação no Grammy, embora o quarteto bata recorde atrás de recorde.

A barreira das legendas, citada pelo cineasta Bong Joon-ho em um de seus discursos em premiações por “Parasita” no ano passado, também persiste. Mesmo “Minari” foi afetado: produção dos Estados Unidos e história sobre o sonho americano, não pôde competir como melhor filme de drama no Globo de Ouro.

Por ser falado em coreano, foi encaixado na categoria de filme estrangeiro, causando discussão na internet, já que longas como “Babel” e “Bastardos Inglórios” também continham diálogos em mais de uma língua e disputaram as categorias principais.

No domingo do Oscar, dia 25, estarei, como há um ano, torcendo pela Coreia. A chance de uma outra grande vitória pode ser mínima, mas se aprendemos algo no último ano é que o improvável muitas vezes acontece. Com a Covid-19, parece que tudo se repete como tragédia e como farsa, mas há também alguns pequenos ganhos.

Se os últimos resultados forem um indicativo do que a Coreia pode fazer no futuro, posso ter mais oportunidades do que imaginava de colocar em prática o idioma aprendido. No fim das contas, a cultura e a língua coreanas foram uma boa válvula de escape mental nos últimos 12 meses, mas espero que da próxima vez possa aprender uma nova língua sem passar por uma pandemia.

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.