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Dirce Waltrick do Amarante

Interpretação equivocada de lugar de fala dificulta diálogo entre diferentes grupos

Para professora, incompreensão leva a polêmicas vazias que ampliam distâncias sociais

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Dirce Waltrick do Amarante

Tradutora e professora do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina)

[resumo] Maior visibilidade alcançada pela literatura negra vem estimulando o debate acerca de quem estaria ou não autorizado a comentar essa produção. Para professora, a dificuldade de diálogo entre grupos diferentes se deve muitas vezes a uma interpretação equivocada dos conceitos de lugar de fala e representatividade, o que leva a polêmicas rasas que esvaziam reivindicações legítimas e ampliam distâncias sociais.

A literatura negra vem ganhando cada vez mais destaque dentro e fora no Brasil e conquistando merecido espaço nos suplementos culturais, com nomes como Conceição Evaristo, Chimamanda Ngozi Adichie, Paulina Chiziane, Octavia Butler, Audre Lorde, James Baldwin, Jeferson Tenório, Amanda Gorman e outros.

No início de 2020, o jornal The New York Times anunciava a tradução para o inglês de “Úrsula”, de Maria Firmina dos Reis, considerada a primeira romancista negra brasileira, assinada por Cristina Ferreira Pinto-Bailey.

De fato, é uma literatura potente que tem alcançado leitores de diferentes raças, gêneros, culturas etc. No entanto, quem pode falar sobre ela ou quem pode falar sobre o quê?

Está cada vez mais “difícil” discutir qualquer assunto. Em primeiro lugar, parece-me, desaprendemos a arte do diálogo; em segundo, talvez não estejamos entendendo muito bem o significado de “lugar de fala”, uma das primeiras barreiras para uma conversa ampla.

Nesse sentido, um livro fundamental para essa discussão é “O que É Lugar de Fala?”, de Djamila Ribeiro, publicado em 2017. Diz a filósofa e escritora brasileira: “Um dos equívocos mais recorrentes que vemos acontecer é a confusão entre lugar de fala e representatividade. Uma travesti negra pode não se sentir representada por um homem branco cis, mas esse homem branco cis pode teorizar sobre a realidade das pessoas trans e travestis a partir do lugar que ele ocupa”.

Aliás, prossegue Ribeiro, “não pode haver essa desresponsabilização do sujeito do poder”; é preciso também que esse sujeito do poder se pense, pois, conclui a escritora, citando Rosane Borges, “saber o lugar de onde falamos é fundamental para pensarmos as hierarquias, as questões de desigualdade, pobreza, racismo e sexismo”.

Por outro lado, Djamila Ribeiro se pergunta: “Quando existe algum espaço para falar, por exemplo, para uma travesti negra, é permitido que ela fale sobre economia, astrofísica, ou só é permitido que fale sobre temas referentes ao fato de ser uma travesti negra?”.

Durante este ano, o SELCS Brazilian Translation Club, em parceria com a University College London (UCL), o Escritório Modelo de Tradução Ana Cristina César (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e a Festa Literária das Periferias, está promovendo uma série de workshops sobre literatura afro-brasileira contemporânea. Já passaram por essa oficina, por exemplo, Cuti, Geovani Martins e Conceição Evaristo.

Nesses encontros, com maioria de participantes brancos, todos falam sobre tudo e, tão importante quanto, todos estão dispostos a ouvir. Eles parecem estar cientes, como afirmou Toni Morrison, de que “as fontes que temos à nossa disposição para o acesso gentil uns aos outros, para transpor o mero ar azul que nos separa, são poucas, porém poderosas: a linguagem, a imagem e a experiência [...]. A linguagem (dizer, escutar, ler) pode incentivar, ou mesmo exigir a entrega, a eliminação das distâncias que nos separam”.

No entanto, ao eliminar as distâncias que nos separam, corre-se o risco de começar a “sentir empatia pelo estrangeiro”, como diz Morrison, e “sentir empatia pelo estrangeiro é a possibilidade de se tornar estrangeiro”. “Perder o próprio status racializado é perder a própria diferença, valorizada e idealizada”, conclui a escritora.

Portanto, se por um lado é preciso reconhecer que partimos de lugares diferentes, por outro é preciso conhecer o lugar do “outro” para tentar eliminar ou minimizar a distância. Esse conhecimento vem através da leitura e da troca de experiências constante entre “desiguais”.

Falar só para o “nosso” grupo não amplia, a meu ver, a discussão, mas tende apenas a reverberar o que já pensamos e conhecemos. Para Djamila Ribeiro, promover uma multiplicidade de vozes tem também por objetivo “quebrar com o discurso autorizado e único, que se pretende universal”. “Busca-se”, afirma ela, “sobretudo, lutar para romper com o regime de autorização discursiva”.

A pensadora brasileira lembra que as discussões em redes sociais, ainda que importantes, não deveriam se valer de frases como “fique quieto, esse não é seu lugar de fala”, as quais, sem ter uma base crítica e teórica, criam apenas uma “polêmica vazia”.

A propósito das polêmicas vazias, elas não devem se confundir ou obscurecer reivindicações legítimas. Muitos estudiosos lembram, contudo, que quando as pessoas negras postulam suas posições e opiniões na sociedade, elas são vistas como separatistas, que pensam apenas no seu próprio mundo.
Isso porque as pessoas brancas se têm como universais e, desse modo, “insistem em falar pelos outros, quando, na verdade, estão falando de si ao se julgarem universais”, conclui Djamila.

Essa pretensa “universalidade” dos brancos tem relação, é claro, com a posição privilegiada que ocupam na sociedade, que lhes “permite” ditar o que é ou não a regra. O caminho é longo, e a abertura para o diálogo ainda é tímida, mas não por falta de bibliografia para embasá-lo.

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